Libby March/The New York Times
Libby March/The New York Times

Cidades do Estado de Nova York tentam atrair refugiados

Com a política migratória de Trump, autoridades temem perder ajuda contra declínio populacional

Christina Goldbaum, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2019 | 05h00

Nas últimas décadas, se de um lado o declínio do setor de manufatura desacelerou deixando casas vazias e vitrinas às escuras, as cidades ao norte do Estado de Nova York abriram suas portas para refugiados. Esse fluxo de pessoas, embora modesto, deu nova vida a bairros, ajudou a aliviar a escassez de mão de obra e escorou os orçamentos dos municípios.

Mas esse rejuvenescimento no caso de cidades como Utica, Buffalo e Siracusa chegou ao fim depois que o governo Donald Trump reduziu o número de refugiados com direito a entrada no país. Nova York recebeu 1.281 refugiados no último ano fiscal, em comparação com 5.026 dois anos antes, de acordo com o Departamento de Estado. As autoridades dessas cidades se preocupam com a perda desse pequeno, mas importante, baluarte contra o declínio da população.

Agora, elas vêm testando uma nova estratégia: a ideia é atrair refugiados instalados em outras áreas dos Estados Unidos incentivando-os a se mudarem para Nova York. E começaram a colocar anúncios oferecendo emprego, cursos de língua inglesa e serviços domésticos, esperando compensar a escassez de pessoas em suas comunidades.

O Estado de Nova York não é o único. O Estado do Maine, por exemplo, estendeu a mão para os refugiados com o objetivo de expandir a mão de obra na região. Vermont oferece uma subvenção de US$ 10 mil para pessoas que se mudam para o Estado e trabalham a partir de casa, com isso atraindo jovens trabalhadores na área de tecnologia. E o Estado do Wyoming vem tentando atrair pessoas que nasceram na região de volta para casa, contratando recrutadores para ajuda-los a encontrar um emprego.

Mas, como o número de refugiados diminuindo no governo Trump, Nova York se coloca numa posição de vantagem com relação aos outros lugares. Cortes no orçamento federal levaram agências de recolocação em outras áreas do país a fechar as portas ou reduzir seu porte. No caso de Nova York, o Estado vem financiando essas agências desde 2017. Elas agora oferecem serviços a um número maior de refugiados e incentivos para pessoas que se mudam para Nova York.

“Se a mensagem chegar às pessoas de que temos oportunidades de emprego e este é um ótimo lugar para criar uma família, é o que queremos”, disse Anthony Picente, executivo do Condado de Oneida, que abrange Utica. 

Embora concorde com uma repressão da imigração ilegal, ele e outras autoridades do Estado temem que bloquear as entradas legais para imigrantes vai prejudicar as pequenas cidades americanas.

“Por que não limitar os pontos de entrada legal salvo se não conseguimos administrá-los e alguém está dizendo que não podemos administrar o problema?”, ele questionou.

Embora os requerentes de asilo cheguem por conta própria e depois solicitem proteção, os refugiados são controlados pelas Nações Unidas, pelo Departamento de Segurança Interna e o Departamento de Estado quando estão fora do país. Essas agências é que vão então determinar se uma pessoa tem direito a entrar nos Estados Unidos.

Desde que assumiu a presidência, Trump reduziu drasticamente o número de refugiados. O limite foi fixado em 30 mil neste ano fiscal, uma queda em comparação com os 110 mil no último ano fiscal do governo Barack Obama. Este é o menor número de admissão de refugiados no país estabelecido por um presidente.

Numa era em que a política de imigração tem traçado nítidas fronteiras políticas em todo o país, atrair refugiados para Nova York tem mantido o apelo bipartidário local.

“O real temor das cidades do norte é que, se nossas populações não crescerem, entraremos num ciclo sem fim de declínio”, afirmou o deputado Sean Ryan, democrata de Buffalo. “Não chegamos ao ponto crítico, mas estamos perto dele.”

Entre 1950 e 2000, Rochester e Siracusa perderam cerca de 30% da sua população. Utica perdeu 40% dos seus moradores e Buffalo 50%, de acordo com a Controladoria do Estado. O declínio registrado em Buffalo foi o quarto maior do país.

Mas quando os refugiados começaram a chegar e ocuparam casas abandonadas e alugaram vitrinas de lojas vazias, bairros desertos nessas cidades começam a se transformar – embora não tenham registrado um nível de crescimento que alcance o número de habitantes de 70 anos atrás.

Hoje a Grant Street, de Buffalo, que vivia vazia, é uma área agitada, com supermercados e lojas de artesanato que atendem muitos dos imigrantes que vivem nos bairros vizinhos. A West Side Bazaar, um local popular de compras e restaurantes nessa rua, está repleta de vendedores de tapeçarias feitas à mão e pedrarias, e o aroma de especiarias etíopes e do ramen malaio se espalha pelo salão.

Do lado leste da cidade – famoso há 30 anos por causa dos crimes na área – uma comunidade bengali ajudou a transformar apartamentos que abrigavam bordeis em espaços comunitários. 

“Havia tiroteios, prostitutas, e costumávamos ver talvez 200 carros chegando à noite com pessoas para comprar drogas”, disse Atique Rahman, de 56 anos, refugiado de Bangladesh que foi um dos primeiros a se mudar para o East Side em 2006. “Mas enquanto mais pessoas viam as casas abandonadas e os crimes, eu pensei: ‘as casas são baratas, posso me mudar para lá, colocar luz na porta da frente, ser gentil com meus vizinhos e ter um bom futuro.”

Nos últimos cinco anos ele dirige a própria empresa de hardware e de contabilidade na Broadway Street, no bairro, onde outros imigrantes como ele iniciaram também as próprias empresas.

Alguns refugiados foram recrutados por empresas de Nova York. “Não conseguimos desenvolver uma empresa sem eles porque vimos lutando para encontrar funcionários”, disse Larry Christ, diretor operacional da Litelab Corporation, fábrica de lâmpadas em Buffalo, onde um terço da mão de obra é constituído de imigrantes, incluindo refugiados que chegaram recentemente.

Somente 229 refugiados se mudaram para Utica em 2017, metade do número de refugiados que ali se instalaram no ano anterior.

Joe Carubba, vice-presidente regional da Gerber Collision & Glass, cadeia de oficinas mecânicas, disse que sua empresa não conseguiu preencher 40 vagas de técnicos. Ele dirige 18 lojas, mas planeja expandir a empresa para outros 50 locais do Estado.

“Agora, quando examinamos a abertura de mais um local, nossa maior pergunta é se conseguiremos preencher as vagas. A resposta com frequência é ‘não’.” / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

 

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