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Cidades francesas lançam ofensiva contra o 'burkini'

Sobe para sete o número de prefeituras que proibiram o traje de banho usado por muçulmanas, mas ministra diz que não haverá nenhuma lei na França contra a vestimenta

Andrei Netto, Correspondente / PARIS, O Estado de S.Paulo

17 Agosto 2016 | 05h00

 A polêmica sobre a autorização ou não do uso de “burkini”, o traje de banho usado por mulheres muçulmanas, ganhou amplitude ontem, na França, depois que sete prefeituras do país decidiram proibir a roupa em praias e piscinas. A ofensiva envolve prefeitos que vão do Partido Republicano (direita) ao Partido Socialista (esquerda), inconformados com o que consideram uma violação do secularismo – a neutralidade religiosa – no espaço público. Em meio à polêmica, a ministra dos Direitos das Mulheres, Laurence Rossignol, rejeitou a possibilidade de haver uma lei específica sobre o tema.

As prefeituras que já proibiram o “burkini” são as de Cannes, Mandelieu-la-Napoule, Villeneuve-Loubet, Sisco, Le Touquet, Leucate e Oye-Plage. Segundo o prefeito da última cidade, o socialista Oliver Majewicz, o decreto municipal envolve os 500 metros de orla da cidade. “Acho que cedemos espaço demais sobre o secularismo”, argumentou. Os prefeitos também alegam que o número de mulheres muçulmanas que usam o “burkini” aumentou nas praias da França neste verão. “Temos constatado um aumento do fenômeno, que pode levar a tensões”, justificou Michel Py, prefeito de Leucate.

Em meio à discussão, a ministra Rossignol descartou a possibilidade de o governo de François Hollande criar uma lei sobre o tema – o uso da niqab e da burca, trajes que cobrem mulheres muçulmanas da cabeça aos pés, já são proibidos no espaço público, embora as multas pelo uso sejam raríssimas. A ministra disse considerar o “burkini” um “projeto político arcaico” que precisa ser combatido, mas não com uma lei. 

O anúncio foi feito um dia após o futuro presidente da Fundação para o Islã da França, Jean-Pierre Chevenèment, ter pedido “discrição” aos muçulmanos do país. Contrariado pelas críticas à declaração, o ex-ministro do Interior e ex-chefe das polícias francesas diz que pediu o mesmo a “católicos, judeus e protestantes”, em um esforço de integração. “Todas as ondas anteriores de imigração na França, de poloneses, ucranianos, russos, armênios, judeus ou vindas do Sudeste Asiático esforçaram-se para adotar nossos usos e costumes. Este mesmo esforço é requisitado de todos”, argumentou Chevenèment. “É preciso que cada um procure se integrar à sociedade francesa.”

Para Sefen Guez , advogado do Coletivo contra a Islamofobia na França, a reação das autoridades, após dois atentados terroristas em julho, cometidos em nome do Estado Islâmico, é “oportunismo político das autoridades pela aproximação das primárias para as eleições de 2017”. Para o presidente do Observatório contra a Islamofobia do Conselho Francês do Culto Muçulmano, Abdallah Zekri, a polêmica só agrava a tensão social.

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