EFE/EPA/Al Drago / POOL
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Cidades rejeitam plano de Trump de enviar agentes federais para combater manifestantes

Prefeitos criticam o que chamam de jogada política do presidente americano e afirmam que forças federais ajudariam no combate ao crime

Neil MacFarquhar, Charlie Savage e John Eligon, The New York Times, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2020 | 04h00

WASHINGTON - Nos últimos anos, cidades como Chicago, Baltimore e Nova York recorreram a Washington pedindo ajuda para combater a violência e outros crimes alegando que somente o governo federal possui os recursos para enfrentar problemas como o comércio ilegal de armas através das fronteiras estaduais.

Agora, com o presidente Donald Trump ameaçando enviar agentes federais para pôr fim ao que chamou de crime e desordem “totalmente fora de controle”, prefeitos e autoridades policiais de algumas grandes cidades têm rejeitado esse envolvimento federal sugerindo que o presidente quer usar suas cidades para obter apoio numa jogada política.

Portland, no Oregon, é um exemplo de alerta. Diversos prefeitos democratas afirmaram que não querem policiais usando roupas camufladas patrulhando suas ruas e investindo contra manifestantes. Se o governo federal deseja fornecer recursos para combater a violência, deve ajudar em casos de crimes com armas e não enviar policiais que tornarão ainda pior um verão já tenso.

“A mobilização de agentes secretos especiais anônimos em nossas ruas detendo pessoas sem nenhum motivo e efetivamente as privando dos seus direitos e liberdades civis sem um processo devido - isto não vai acontecer em Chicago”, disse a prefeita Lori Lightfoot em uma coletiva.

Inversamente, Chicago receberá recursos do FBI, do DEA (Agência Americana Antidrogas) e da ATF (Agência de Álcool, Tabaco e Armas de Fogo), que são departamentos com os quais a cidade trabalhou regularmente no passado “para controlar e acabar com os crimes violentos em nossa cidade”, afirmou a prefeita.

Em Chicago, a mobilização policial será coordenada com autoridades locais, ao contrário de Portland, onde as vontades da cidade foram ignoradas, afirmou Lightfoot, acrescentando que “o que ocorreu não foi somente inconstitucional, mas antidemocrático”.

O espetáculo de agentes da Segurança Interna em uniformes camuflados em torno de prédios federais, como o tribunal de Portland, e ocasionalmente prendendo manifestantes sob o argumento de que os estão protegendo de tentativas de vandalismo noturno é algo inusitado. Mas é algo comum e em geral apolítico as polícias estadual e local trabalharem lado a lado com agentes do Departamento de Justiça no combate às redes criminosas.

Histórico 

Por exemplo, em 2017, a polícia de Chicago criou uma força de combate conjunta com vistas a reduzir o número de armas que chegavam para os criminosos na cidade. A força contava com 20 oficiais da polícia da cidade e 20 do ATF. E os agentes locais e federais também atuam regularmente em conjunto com o FBI e o DEA na caça de suspeitos de terrorismo e na investigação de redes de tráfico de drogas.

Kansas City, no Missouri, enfrentou uma onda de tiroteios este ano e o departamento de polícia da cidade pediu ajuda ao governo federal. O delegado de polícia Rick Smith disse ter sido solicitada assistência federal e as autoridades em Washington rapidamente forneceram os recursos. “Registramos quatro homicídios, dois policiais alvejados a tiros e uma criança de quatro anos morta. Nós procurávamos por qualquer tipo de ajuda, de qualquer forma que fosse possível ter”.

Mas o prefeito da cidade, Quinton Lucas, democrata, foi pego de surpresa quando Washington repentinamente esboçou todo um projeto que chamou de Operation LeGend, com base no nome de LeGend Tagliferro, o menino de quatro anos que foi morto. Lucas disse ter tomado conhecimento da operação pelo Twitter. Ele apoia a ajuda recebida para solucionar crimes, mas está preocupado com o uso de agentes federais para objetivos mais intrusivos.

“Quando você tem um presidente que fala das cidades como se fossem suas inimigas, como se fossem lugares sem lei, fico preocupado que um programa conduzido pelo governo federal possa acabar nisso. Temo que haja um foco expandido”, afirmou o prefeito.

Nestes últimos meses houve um aumento no número de homicídios e tiroteios em Nova York, Chicago, Atlanta e outros lugares, incluindo um tiroteio que envolveu 14 pessoas perto da agência funerária de Chicago na terça-feira 21. Combinado com os protestos que persistem contra a violência policial desencadeados pela morte de George Floyd, em Minneapolis, a violência tem deixado muitas cidades apreensivas. Mesmo com a queda de crimes violentos no geral, alguns dados são alarmantes.

Para Entender

O caso George Floyd

Homem negro de 46 anos foi morto por policial branco durante abordagem; desencadeados pelo assassinato, protestos contra o racismo e a violência policial eclodiram nos EUA e no mundo

Na cidade de Nova York ocorreram 42 homicídios em 28 dias antes de 19 de julho e 323 tiroteios. Um aumento de mais de 13% de homicídios e 199% de tiroteios em relação ao mesmo período do ano anterior, disse Christopher Herrmann, professor do John Jay College of Criminal Justice, que analisa estatísticas criminais.

Em Chicago houve 116 homicídios durante esses 28 dias, um aumento de quase 200%, e 559 tiroteios, um crescimento de mais de 100%.

As autoridades de Detroit rejeitaram categoricamente a proposta de Trump de enviar agentes federais para reprimir os protestos. “Detroit, ao contrário de Nova York, Filadélfia, Chicago, Los Angeles, para citar algumas cidades, não registrou saques e prédios não foram incendiados”, disse o chefe do Departamento de Polícia James Craig. “Não vimos o mesmo nível de violência e a situação foi controlada pelo departamento de polícia de Detroit e nossa comunidade”.

A cidade registrou um aumento de 7% nos crimes violentos, este ano, disse Craig, acrescentando que Detroit participa da chamada Operation Relentless Pursuit (Operação Perseguição Implacável, em tradução livre), programa do Departamento de Justiça lançado em dezembro que fornece policiais e recursos federais para ajudar as cidades no combate ao crime. Segundo Craig, o apoio é bem-vindo, mas não deve ser confundido com a sugestão de Trump de enviar agentes federais para reprimir os protestos.

Mas neste ano, em Chicago, a polícia já confiscou 5.296 armas, disse Lightfoot. Ela afirma que a ATF sofre muita pressão do lobby de armas no sentido de não combater problemas graves como a entrada em Chicago de armas vindas de Arkansas, Indiana e outros lugares.

Analistas afirmam que nunca houve um escrutínio público do que foi alcançado por meio da cooperação entre a polícia de Chicago e a ATF na força tarefa de combate ao crime. “Foi puro teatro”, disse Tracy Siska, fundador e diretor do Chicago Justice Project, que acompanha assuntos ligados à justiça criminal. “Foi Trump querendo mostrar à sua base que estava sendo duro”.

Os problemas reais por trás dos crimes e dos tumultos - a pobreza, a segregação, o racismo - jamais são encarados de frente, disse ele.

Os agentes federais enviados a Portland não são treinados para controlar multidões e em outras táticas policiais, analistas observaram. Será mais difícil para eles atuarem em Chicago, uma cidade muito grande com uma atividade de gangues arraigada.

“É difícil acreditar que 150 agentes federais nas ruas serão um benefício para a segurança pública”, disse Jens Ludwig, diretor do Crime Lab da Universidade de Chicago, acrescentando que “isto é inflamar ainda mais as tensões que existem atualmente em cidades pelo país”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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