Cientista cede a censura para evitar bioterrorismo

Segundo governo americano, a publicação de detalhes de pesquisa sobre variante do vírus da gripe aviária poderia ser usada para causar epidemia

WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2011 | 03h05

Um dos cientista envolvidos em uma pesquisa sobre o vírus da gripe aviária aceitou reescrever seu estudo ontem depois que conselho consultivo do governo americano pedir a revistas científicas que não publiquem detalhes sobre experimentos biomédicos. Washington teme que as informações possam ser usadas por terroristas para criar vírus mortíferos e provocar epidemias.

A National Advisory Board for Biosecurity (Conselho Nacional Consultivo para Biossegurança, em tradução livre), solicitou a duas revistas científicas - Science e Nature - que não abordassem alguns detalhes de pesquisas nas reportagens que pretendem publicar a respeito. Segundo o grupo, as conclusões poderiam ser publicadas, mas não "os detalhes da experiência e dados sobre mutações que permitiriam uma reprodução dos experimentos".

O órgão não pode obrigar as revistas a censurar seus artigos, mas o editor da Science, Bruce Alberts, disse que levará a sério as recomendações e provavelmente deve reter algumas informações - mas apenas se o governo criar um sistema para que os detalhes omitidos possam ser fornecidos para cientistas legítimos em todo o mundo que necessitarem delas.

As revistas, o painel, pesquisadores e autoridades do governo vinham estudando e discutindo como tratar as conclusões do experimento há vários meses. Os pesquisadores holandeses apresentaram seu trabalho numa conferência sobre virologia, em Malta, em setembro.

Cientistas e editores de revistas, em geral, são inflexíveis quanto a impedir o livre fluxo de ideias, de informações e estão dispostos a lutar contra qualquer coisa que indique uma censura.

"Não chamaria isso de censura", disse Alberts. "A tentativa é evitar uma censura inapropriada. É a comunidade científica tentando avançar e ser responsável." Segundo ele, existe uma causa legítima para preocupação com a possibilidade de as técnicas usadas pelos pesquisadores acabarem em mãos erradas.

Nos experimentos realizados nos EUA e na Holanda, cientistas criaram uma forma altamente transmissível de um vírus mortífero da gripe aviária, que normalmente não se propaga de uma pessoa para outra. Um avanço ameaçador, pois a fácil transmissão pode fazer com que o vírus se espalhe. A pesquisa foi feita em furões, considerados um bom modelo para prever o impacto do vírus da gripe em seres humanos.

O vírus A (H5N1), causador da gripe, raramente contagia pessoas, mas tem uma taxa de mortalidade extraordinariamente alta quando isso ocorre. Desde que foi detectado pela primeira vez, em 1997, 600 pessoas contraíram a gripe e mais da metade morreu.

Quase todas contraíram a gripe de pássaros. A maioria dos casos foi registrada na Ásia. Se o vírus desenvolver a capacidade de se propagar facilmente, de pessoa para pessoa, tem potencial para criar uma pandemia mortal jamais registrada. / NYT

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.