REUTERS
REUTERS

Cientista iraquiano admite que ajudou a fazer armas químicas para Estado Islâmico

Suleiman al-Afari chefiou departamento de produção de gás mostarda, utilizado pelos terroristas para intimidar forças inimigas

Redação, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2019 | 18h43

IRBIL, IRAQUE - Nas semanas após sua cidade ser tomada pelo Estado Islâmico, o cientista iraquiano Suleiman al-Afari sentou em seu escritório e esperou pelo dia em que os terroristas apareceriam.

Os milicianos de preto que tomaram Mossul em 2014 estavam abrindo caminho por cada burocracia, reunindo trabalhadores e gerentes que não fugiram da cidade e os pressionando a trabalhar. Afari, então um geologista do Ministério da Indústria do Iraque, com 49 anos, esperou que os novos chefes o deixassem continuar seu trabalho. Para sua surpresa, eles ofereceram um novo emprego: "Nos ajude a fazer armas químicas”, disseram alguns membros do Estado Islâmico.

Afari sabia pouco sobre o assunto, mas aceitou a tarefa. E então começou sua maratona de 15 meses para supervisionar a manufatura das toxinas letais para o grupo terrorista mais mortífero do mundo.

“Se eu me arrependo? Não sei se eu usaria essa palavra”, disse o homem, capturado por soldados dos EUA e curdos em 2016 e hoje um prisioneiro em Irbil, a capital semi-autônoma dos curdos no Iraque. “Eles se tornaram o governo e nós trabalhávamos para o governo. Queríamos trabalhar para receber um pagamento”

Afari, agora com 52 anos e esperando a pena de morte, relembra do recrutamento e sua vida sob o EI em uma rara entrevista dentro da sede do Departamento de Contraterrorismo do Governo Regional do Curdistão. Ele é um dos poucos participantes capturados vivos do programa de armas químicas do grupo terrorista.

Ele descreveu em detalhes as tentativas do grupo terrorista para fazer gás mostarda, uma arma que deixou dezenas de milhares de mortos durante a 1ª Guerra como parte de um esforço ambicioso de criar armas e sistemas de defesa e aterrorizar seus rivais. Seu envolvimento foi confirmado por militares americanos e curdos que participaram de missões para destruir as instalações de armas do Estado Islâmico e matar ou capturar os principais líderes.

As histórias revelam detalhes do projeto de armas químicas, que foi único na história moderna de grupos terroristas, com laboratórios nas universidades e quadros de cientistas e técnicos. Armas criadas pelo EI foram usadas em ataques contra soldados e civis no Iraque e na Síria, causando centenas de mortes, segundo autoridades americanas e iraquianas.

O progresso no programa parece ter sido interrompido no começo de 2016, quando EUA e Iraque lançaram uma campanha agressiva para destruir instalações de produção e capturar ou matar os líderes. Ainda assim, a ameaça não foi inteiramente apagada. Líderes do EI transferiram equipamentos e talvez químicos do Iraque para a Síria em 2016, dizem as autoridades iraquianas, e alguns foram enterrados ou escondidos.

Além do mais, sem dúvida existem o conhecimento e habilidades adquiridos por Afari e outros veteranos no programa, guardados em arquivos de computador, discos de memória e na lembrança de sobreviventes que se dispersaram quando o califado do grupo caiu.

“Há jihadistas por todo o mundo que querem ter acesso à ‘dark Web’ para essas coisas”, afirmou Hamish de Bretton-Gordon, um especialista em armas químicas que liderou equipes de resposta rápida para o Exército britânico e da Otan. “A mais importante organização terrorista do mundo ainda está interessada na principal arma.”

Oferta

Os terroristas invadiram Mossul em junho de 2014. Em seis dias, a força de 1.500 soldados do EI derrotaram as tropas iraquianas (no mínimo 15 vezes maior) tomando o aeroporto, cercando as bases militares e forçando meio milhão de civis a fugir. Milhares de soldados iraquianos abandonaram os uniformes e tentaram escapar, apenas para serem cercados e massacrados pelo grupo.

Afari resistiu à invasão na sua casa, ouvindo o noticiário e os sons de confrontos nas ruas. Finalmente, quando tudo estava silencioso novamente, as pessoas da segunda maior cidade do Iraque se aventuraram a sair para encontrar as bandeiras pretas tremulando na principal praça e para ver terroristas comandando postos de polícia e ministérios do governo.

Em um primeiro momento, a maioria dos funcionários do governo do Iraque permaneceu em casa, com seu salário aparecendo automaticamente na conta bancária. Mas quando os pagamentos pararam, muitos foram deixados com a escolha de trabalhar para o novo autoproclamado califado do Estado Islâmico ou fazer nada. Da sua parte, Afari decidiu voltar e manter seu emprego.

“Eles não forçaram ninguém”, afirmou. “Eu estava com medo de perder meu trabalho. É difícil conseguir trabalhar no governo e era importante me agarrar a isso”, disse, enquanto dois guardas curdos o observavam durante os 45 minutos de entrevista.

Os novos governantes de Mossul foram inevitavelmente atraídos para o Ministério das Indústrias e Minerais, onde Afari trabalhava, como uma porta de entrada para as fábricas, as minas e a infra-estrutura de petróleo do norte do Iraque, ativos de imenso valor para uma organização menos interessada em governar do que em enriquecer e expandir sua capacidade militar. Logo, as oficinas mecânicas da cidade foram colocadas para trabalhar, construindo sofisticadas bombas de beira de estrada, fortes o suficiente para destruir tanques, e carros-bomba blindados, projetados para derrubar as fortificações inimigas antes de detonar.

Afari esteve no comando das aquisições na seção de metalurgia do ministério, uma unidade que tinha especial apelo para os terroristas. O iraquiano descreveu como autoridades do EI visitaram seu escritório algumas vezes na semana e apresentaram novas tarefas e uma lista de equipamentos de metal que deveriam ser achados, incluindo tanques de aço inoxidável, canos, válvulas e tubos, todos desenhados para sobreviver a altas temperaturas e química corrosiva.

Como os tanques seriam usados estavam implicitamente claro, disse Afari. Qualquer dúvida foi embora quando o geologista foi colocado com outros cientistas e especialistas, como químicos, biólogos e pelo menos um técnico que trabalhou no programa de armas do antigo ditador iraquiano Saddam Hussein. Juntos, o time recebeu a tarefa de fazer gás mostarda, uma poderosa arma química. Quando inalada, a substância ataca os brônquios, muitas vezes causando uma morte lenta e agonizante.

O papel de Afari era organizar uma cadeia de produção para o gás mostarda, provendo pequenos grupos e laboratórios que iam da Universidade de Mossul até os subúrbios. De suas conversas com o Estado Islâmico, ele ficou convencido de que as toxinas eram para provocar medo e impedir os iraquianos de retomar o território. Muitos iraquianos ainda se lembram do sofrimento causado pelos ataques químicos contra os curdos nos anos 80.

“Era importante (para o EI) fazer algo forte para que pudessem aterrorizar os iraquianos”, afirmou Afari. “Era mais sobre criar horror e afetar o moral psicológico das tropas do que lutar contra eles. Eu não acredito que a qualidade das armas era de nível tão perigoso.”

O trabalho em si era similar em muitas maneiras ao que ele fazia no governo, conta. “Eles chegaram em mim em busca de ajuda com o equipamento: os containeres, as coisas que precisavam para as armas químicas”, afirmou. “Tenho experiência com aço inoxidável, e eles estavam procurando aço inoxidável. Você não tem escolha a não ser se tornar um deles.”

Armas

Em 11 de agosto de 2015, exatamente 14 meses depois que o EI tomou Mossul, os terroristas lançaram 50 granadas de morteiros em um vilarejo de soldados curdos ao sul de Irbil. Os projéteis explodiram e soltaram uma fumaça branca e um óleo. Dentro de minutos, dezenas de soldados ficaram doentes, reclamando de náusea e queimadura nos olhos e pulmões. Dois oficiais que foram respingados pelo líquido desenvolveram bolhas nas pernas e no torso.

Um teste de laboratório inicial confirmou que as granadas de morteiro continham gás mostarda. Um segundo teste desmentiu o que então havia se tornado conhecimento convencional: o Estado Islâmico roubou toxinas da Síria ou as achou nos remanescentes do programa iraquiano de armas químicas de 1980. 

Não foi assim. A composição molecular do gás mostarda do EI sugeria fortemente que as toxinas eram caseiras. A arma também era primitiva, sem ingredientes essenciais que impedissem que as toxinas se degradassem rapidamente após a exposição ao meio-ambiente.

No Pentágono e na Casa Branca, a descoberta despertou o temor de que o grupo terrorista estaria começando a fabricar armas químicas e logo poderia adquirir armas mais sofisticadas. Antes do ataque de agosto de 2015, os soldados usaram duas vezes o cloro, um químico industrial usado na purificação da água durante as batalhas com o curdos. Agora, havia evidência de que o EI estava experimentando novos venenos e novos sistemas de dispersão. Em poucos meses, o cloro e o gás mostarda estavam sendo jogados contra tropas peshmerga.

Nos meses seguintes, o governo de Barack Obama e os aliados iraquianos e curdos lançaram uma campanha agressiva, mas furtiva, para achar e destruir os centros de produção e matar os líderes do programa. A tarefa foi difícil pelo fato de que os alvos eram na maior parte em centros urbanos perto de grandes populações civis. Ainda assim, a Casa Branca via a eliminação dos programas de armas químicas como uma prioridade.

“Foi um grande negócio”, disse o agora aposentado participante americano da campanha, falando sob condição de anonimato sobre a operação, ainda confidencial. “Estávamos procurando qualquer pista que pudesse nos levar à fonte dessas armas.”

Em 2015 e em 2016, ao menos dois químicos suspeitos do EI foram mortos pelas forças americanas. Então, a produção em Mossul e Hit, no Iraque, foram destruídas em ataques aéreos cuidadosamente planejados, usando munição desenhada para incinerar qualquer toxina química ou precursora que existiu no local, segundo dois ex-funcionários americanos.

Os militares da reserva disseram que os ataques aéreos forçaram o Estado Islâmico a realocar as instalações de produção no começo de 2016 e escondeu os cientistas remanescentes, reduzindo o progresso do programa químico. Mas, naquela época, o grupo terrorista estava se retirando de múltiplos frontes sob a pressão de bombardeios aéreos e ofensivas terrestres pelo oeste e norte do Iraque.

Armas químicas continuaram a ser usadas pelo EI que conduziu 76 ataques químicos durante três anos, de acordo com os dados de outubro de 2017 da Columb Strack. Mas a qualidade do gás mostarda continuou baixa, disseram autoridades dos EUA, sugerindo que os terroristas ganharam o momento depois de ataques aéreos em 2016.

Afari parece concordar com essa visão. Em fevereiro de 2016, quando visitou pela última vez a instalação, viu o programa em desarranjo, ainda faltando equipamento básico e foi forçado a usar trabalhadores mal treinados por causa da escassez de cientistas.

“Era muito primitivo e simples”, disse Afari sobre o local, perto de onde ele descreveu como uma antiga fábrica de reparo de automóveis. “Havia pessoas mal educadas que não tinham habilidades. Não acho que nada estava sendo feito bem.”

Capturados

No dia da visita, Afari subiu no carro e começou a dirigir pelo deserto em direção à cidade iraquiana de Tal-Afar para visitar sua mãe. Cada um de seus movimentos estava sendo observado.

Agentes de inteligência dos EUA conseguiram travar o sinal de telefone de Afari e eles monitoraram o iraquiano por dias na esperança de uma chance para capturá-lo vivo. O geologista estava dirigindo pela estrada quando notou pelo retrovisor a aproximação de quatro helicópteros.

Dois começaram a perseguir seu carro, voando rente pela estrada de terra e deixando nuvens de poeira, enquanto os outros dois voavam mais acima. Então, Afari ouviu o som de tiros nos seus pneus. O veículo parou, o cientista saiu e um enorme cachorro apareceu de repente do nada e agarrou-o pelo braço.

Enquanto ele relembrava a história, Afari levantou a manga da camisa do uniforme da prisão para mostrar a cicatriz deixada no braço esquerdo -- um legado, ele disse, do seu encontro com o cão militar. Ele apontou para uma cicatriz menor em um ponto pouco acima do seu calcanhar esquerdo, onde ele diz que a bala deixou um fragmento em sua pele.

“Eu não estava com medo de que fossem me matar”, contou Afari sobre quando viu um militar americano ir para cima dele “Nunca me vi como uma figura importante. De qualquer jeito, no momento, eu estava ocupado com o cão.”

Um dos soldados colocou uma foto em frente ao rosto de Afari e perguntou em inglês se ele era o homem da fotografia. “Sim”, respondeu. Então um saco foi colocado sobre sua cabeça e ele foi arrastado até um dos helicópteros. Quando a venda foi removida, ele estava cercado por soldados americanos e curdos em uma cidade desconhecida do Iraque.

Autoridades do Departamento de Contraterrorismo dizem que Afari se tornou um prisioneiro extraordinariamente útil, fornecendo nomes e localizações das instalações de armas químicas do Estado Islâmico e das pessoas que ali trabalhavam.

“Nos beneficiamos bastante do conhecimento dele, pois ele tinha acesso a todos os locais”, afirmou um funcionário do alto escalão da unidade de contraterrorismo, falando sob anonimato. Nos dias seguintes, ele disse, “bombardeios foram lançados em diversos lugares.”

Hoje, especialistas e funcionários americanos dizem que esses bombardeios foram lançados para impedir o Estado Islâmico de desenvolver toxinas mais sofisticadas.

“Eles nunca ficaram muito bons nisso”, disse Herbert Tinsley, um especialista da Universidade de Maryland que, com os colegas Markus Binder e Jillian Quigley, produziu um extenso perfil sobre as armas químicas do EI. “Em um nível tático, podemos dizer que eles tiveram sucesso em usar essas armas para bloquear o progresso do inimigo. Mas, em nível estratégico, eles pareceram muito amadores.”

Outros oficiais e especialistas dizem que o Estado Islâmico ganhou conhecimento e habilidades práticas que certamente sobreviveram à perda de território do grupo no Iraque e Síria.

O funcionário curdo de contraterrorismo, que participou no interrogatório de Afari, afirmou que o cientista descreveu uma produção móvel de armas químicas, construída na carroceria de um caminhão. Ao menos um desses laboratórios móveis foi destruído durante ataques aéreos em Mossul, disse a autoridade, e não está claro quantos outros, se houver, foram construídos. Segundo ele, foi depois desses bombardeios que os participantes sobreviventes dispersaram.

“Para ser honesto, algumas dessas pessoas desapareceram e permanecem escondidas”, disse o funcionário. “Achamos que estão na Síria. Mas não sabemos.” / WASHINGTON POST

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.