AFP PHOTO / Daniel LEAL-OLIVAS
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Cientistas britânicos temem que Brexit bloqueie conhecimento

'Se não ficarmos mais inteligentes, ficaremos mais pobres', diz pesquisador

Claudia Müller, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2017 | 16h17

O maior perigo para a ciência britânica com o Brexit é que o eventual fim da livre circulação de pessoas entre o Reino Unido e a União Europeia (UE) dificulte o intercâmbio de cientistas. A preocupação é do pesquisador e diretor do Observatório Europeu de Sistemas e Políticas de Saúde, Martin McKee, membro do grupo Cientistas pela UE.

Logo após o anúncio do referendo para decidir se o Reino Unido deveria sair do bloco, um grupo de cientistas britânicos se juntou para tentar impedir a decisão, alegando que a ciência do país sofreria perdas. Agora, com o Brexit em vias de se concretizar, eles levantaram pontos que gostariam que fossem abordados pelas autoridades, na tentativa de minimizar perdas no campo científico.

O grupo acredita que pode diminuir o prejuízo para a ciência britânica com um aumento do investimento nacional, a promoção e proteção da imigração científica - que pretende proteger pesquisadores de outros países e suas famílias -, compromissos com normas e regulamentos, unificação de patentes, manutenção em programas científicos europeus, criação de uma política de impacto científico regional e global, e a compensação de investimentos da UE em negócios britânicos.

“Existe a necessidade de chamar a atenção para os desafios do futuro, oferecendo ideias que podem ser bem-vindas quando a ficha cair para aqueles que estão fazendo negociações em nome do Reino Unido”, afirma McKee ao Estado. O astrônomo Martin Rees, ex- presidente da Royal Society, também teme o Brexit. “Seria muito preocupante se ligações com o continente europeu fossem postas em perigo."

O grupo Cientistas pela UE foi criado por Mike Galsworthy e Rob Davidson, que tentaram fazer com que os argumentos da ciência fossem ouvidos antes do referendo. A campanha pró-União Europeia foi massivamente construída nas redes sociais, o que atraiu muitos cientistas. “Logo ficou claro que essas preocupações eram compartilhadas tanto pela comunidade científica britânica, quanto pelos cientistas de outros países que hoje atuam na ilha”, explica McKee.

Para o pesquisador, além da dificuldade de circulação de pessoas, a ciência britânica pode ser prejudicada pela provável perda de acesso à rede científica europeia. Grande parte das melhores pesquisas costuma ser do bloco. “A UE está crescendo como potência científica, inclusive superando os EUA, o que acontece graças às políticas da região”, explica. “Ser excluído dessa conexão pode ser muito prejudicial."

Outra preocupação é a perda de financiamento. Apesar de não ser a principal fonte de investimento dos pesquisadores britânicos, é uma das poucas que cresce ao longo dos anos. Além disso, preocupa os estudiosos a possibilidade de que o Reino Unido diminua seu padrão de qualidade. A União Europeia possui normas que abrangem toda a Europa e aparelhos jurídicos que ajudam a manter esse padrão. Porém, fora do bloco, o país não precisará mais seguir essas determinações, o que pode prejudicar a qualidade dos procedimentos e trabalhos produzidos na ilha.

Futuro

O Reino Unido também pode ser excluído da Área de Pesquisa Europeia, que integra as produções científicas da UE e propõe intercâmbio de produções entre os países. Também seria excluído do Horizon 2020, programa de financiamento e manutenção de pesquisas, e do programa universitário Erasmus, que promove a mobilidade de estudantes e professores entre membros da União Europeia. Além disso, o país sofreria com a perda de financiamento para projetos como o Galileo, o GPS europeu, e Copernicus, programa de monitoramento global do meio ambiente e segurança.

Entretanto, não apenas o Reino Unido perde com o Brexit, mas também a própria UE. Segundo Martin Rees, nos últimos 20 anos o país teve ganhos reais, com prêmios Nobel e descobertas científicas importantes. Porém, isso aconteceu em razão das relações próximas com o bloco. “O ganho de qualidade, pesquisa e impacto foi facilitado pela colaboração e coordenação da UE, que permitiu que grandes desafios fossem abordados de maneira mais efetiva do que um país conseguiria sozinho”. Segundo o Relatório de Ciência da Unesco de 2015, o grupo europeu é o líder global em termos de pesquisadores científicos, com 22% do total, à frente da China, 19%, e dos EUA, 16%.

Para o pesquisador de Higiene e Medicina Tropical da London School e um dos criadores do Cientistas pela UE, Mike Galsworthy, alguns cientistas britânicos continuarão atuando em programas na Europa, mas não em posições de liderança. “O Reino Unido ajudou muito na formulação das políticas de ciência, então a União Europeia provavelmente conseguirá se virar muito bem, até porque poderá receber conselhos científicos de pesquisadores independentes."

Uma das vantagens da ciência britânica é a alta qualidade das universidades, o que beneficiava pesquisadores de toda a União Europeia. “Nossas universidades têm de continuar agindo como um ímã para os talentos internacionais”, afirma Rees. “Só estamos atrás dos EUA em atração de estudantes estrangeiros para nossas universidades, o que traz benefícios não apenas para a economia, mas para também para o nosso ‘soft-power’ global”.

Para o astrônomo, o risco é que o Reino Unido perca conquistas dos últimos 20 anos. “Estrangeiros não vão querer trabalhar aqui, muitos até já se sentem melhor fora, e os jovens também sentirão que a ciência não é uma carreira onde eles podem fazer o melhor trabalho nesse país”, explica. “A máxima ‘se não ficarmos mais inteligentes, ficaremos mais pobres’ se aplicará ainda mais intensamente quando tivermos de lidar com as consequências do Brexit."

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