Shashenka Gutierrez / EFE
Shashenka Gutierrez / EFE

Cientistas desmontam tese de cremação de estudantes no México

Pesquisadores disseram que hipótese "não tem sustentação em evento e/ou fenômenos físicos, químicos ou naturais"

O Estado de S. Paulo

11 de dezembro de 2014 | 23h40

CIDADE DO MÉXICO - Um grupo de cientistas mexicanos afirmou nesta quinta-feira, 11, que a versão da Procuradoria sobre a cremação de 43 estudantes desaparecidos no Estado de Guerrero em 26 de setembro "não tem nenhuma sustentação em evento e/ou fenômenos físicos, químicos ou naturais".

Jorge Antonio Montemayor, pesquisador do Instituto de Física da Universidade Nacional Autônoma do México (Unam), explicou que as provas mostradas pela Procuradoria demonstram que "os ossos sofreram uma cremação em alta temperatura em um crematório moderno".


O titular da Procuradoria-geral da República, Jesús Murillo, anunciou em 7 de novembro que os estudantes foram assassinados e queimados, de acordo com o testemunho de três dos 80 detidos no caso.

Segundo esta versão, policiais municipais capturaram os estudantes na cidade de Iguala e os entregaram a membros do cartel Guerreros Unidos, que os queimaram - alguns deles vivos - em uma pira que ardeu durante 14 horas em um lixão de Cocula, no Estado de Guerrero.

Se a fogueira tivesse sido feita com lenha, teriam sido necessárias 33 toneladas de madeira, o que suporia uma maior premeditação e implicaria em perguntar onde essa quantidade foi comprada, assinalou Montemayor, após fazer uma análise do relatório apresentado pela Procuradoria.

A área onde a cremação teria acontecido não tem dimensões suficientes para queimar com 43 corpos com lenha, que seriam de 18 metros de largura por 26 metros de comprimento, apontou.

Após a suposta cremação, os restos dos estudantes teriam sido jogados no rio em sacos de lixo, segundo os depoimentos de três autores confessos.

No domingo, a procuradoria informou que o DNA extraído de um dos restos de ossos achados pelas autoridades e entregues para análise na Universidade de Innsbruck, na Áustria, é de Alexander Mora, um dos 43 estudantes desaparecidos da Escola Normal Rural de Ayotzinapa.

No entanto, a Equipe Argentina de Antropologia Legista (EAAF), que participa da investigação, ressaltou que, apesar de ter corroborado com os resultados do laboratório da Áustria, "não foi testemunha da descoberta do fragmento que culminou nesta identificação". De acordo com Montemayor, agora Murillo tem um "gravíssimo problema".

"Já que não foram queimados em Cocula, resta saber quem os queimou, onde e quem foi que deu a informação à Procuradoria de que esses restos estavam no rio", comentou.

Os cientistas pediram às funerárias e instalações que tenham fornos crematórios que entreguem "voluntariamente seus registros históricos de consumo e compra de gás, com datas de até um ano atrás e que compreendam as datas de interesse".

A análise apresentada nesta quinta-feira, que será levada à Comissão Nacional de Direitos Humanos (CNDH) e à ONU, foi realizada por um grupo de investigadores", apesar de só estar assinada por Montemayor e por Pablo Ugalde Vélez, da Universidade Autônoma Metropolitana de Azcapotzalco. / EFE

 

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