Nicholas Kamm/AFP
Nicholas Kamm/AFP

Cientistas temem pressão de Trump para aprovar vacina antes das eleições 

Autoridades, cientistas e especialistas entrevistados pelo ‘New York Times’ se dizem preocupados com a possibilidade de o presidente atropelar o processo de regulamentação das pesquisas para obter uma ajuda em sua campanha à reeleição

Redação, O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2020 | 04h00

WASHINGTON - Atrás nas pesquisas e envolvido em múltiplas crises, Donald Trump precisa desesperadamente de boas notícias para tentar vencer a eleição em novembro. Por isso, cientistas de dentro e de fora das agências do governo, segundo o New York Times, temem que o presidente aumente a pressão para que autoridades sanitárias aprovem uma vacina contra a covid-19 no máximo até outubro. 

Em abril, quando os hospitais estavam lotados e grande parte dos EUA vivia confinada, o Departamento de Saúde fez uma apresentação para funcionários da Casa Branca dizendo que o rápido desenvolvimento de uma vacina era a melhor esperança para controlar a pandemia. “Prazo: amplo acesso ao público até outubro de 2020”, dizia o primeiro slide, com a data em negrito. 

Como normalmente leva-se anos para desenvolver uma vacina, o cronograma era ambicioso. A operação foi batizada de “Warp Speed”, a dobra espacial do universo de Star Trek, uma propulsão mais rápida que a luz. 

Com milhares morrendo e milhões desempregados, a crise exigiu uma resposta do Estado e da iniciativa privada, com o governo injetando bilhões de dólares em empresas farmacêuticas e biotecnologia. Mas não passou despercebido o prazo estipulado, que casava bem com a necessidade de o presidente conter o vírus antes da eleição de novembro.

Pressionados pela Casa Branca, os pesquisadores temem a interferência política e lutam para assegurar que haja um equilíbrio entre rapidez e rigor, de acordo com autoridades, cientistas e especialistas entrevistados pelo New York Times.

Quanto mais tempo as vacinas levam em testes, mais garantida é sua segurança e eficácia. Com mil pessoas morrendo diariamente nos EUA, porém, as escolas com dificuldade para reabrir e a recessão infligindo sofrimento em todo o país, o desejo de voltar à vida normal é forte. 

Apesar dos esforços de Trump e das companhias farmacêuticas, o prazo de outubro já ficou para trás. O governo agora pressiona para obter centenas de milhões de doses até o fim do ano ou no início de 2021. No entanto, especialistas temem que a Casa Branca pressione a Food and Drug Administration (FDA), agência que chancela os medicamentos, a aprovar uma vacina – nem que seja para os trabalhadores da saúde, na linha de frente do combate ao vírus, antes da eleição. 

“Muitas pessoas envolvidas no processo temem que o governo enfie a mão no chapéu do mágico e tire uma, duas ou três vacinas, e afirme: ‘Testamos esta em alguns milhares de pessoas, parece segura, e agora vamos produzi-la em massa’”, disse Paul Offit, da Universidade da Pensilvânia, membro da FDA. “Estamos realmente preocupados.” 

Trump insiste na vacina, aumentando as esperanças de uma aprovação rápida. Na semana passada, percorrendo os laboratórios da Carolina do Norte, ele prometeu “entregar uma vacina em tempo recorde”. No mês passado, vinculou o medicamento às suas esperanças de reeleição.

No domingo, ele afirmou que “a FDA vem sendo fantástica”. “Esperamos que a vacina esteja disponível muito antes do fim do ano, bem antes do prazo”, afirmou. “Estamos muito perto de sua finalização.”

O genro e assessor de Trump, Jared Kushner, que trabalha na campanha, participa dos encontros de um conselho criado para supervisionar a vacina. Pessoas envolvidas nas discussões relatam que o mês de outubro é sempre citado pelos representantes do governo. Os aliados de Trump apelidaram o anúncio da vacina antes das eleições de “Santo Graal”.

Na Casa Branca, as autoridades afirmam que Trump não tentaria distorcer o processo de revisão para ajudar sua campanha. “A saúde e a segurança do povo americano são prioridades do presidente”, afirmou Judd Dee, porta-voz da Casa Branca. “Nada tem a ver com política.”

Stephen Hahn, comissário da FDA, porém, não descarta a possibilidade da aprovação emergencial do produto. “Consideramos a autorização de uma vacina em caráter emergencial se concluirmos que os riscos são muito inferiores aos riscos de não termos a vacina”, afirmou. “Minha função é garantir que a pressão sobre a agência não se reflita nos cientistas.”

O processo avança em ritmo rápido. Duas vacinas, uma da Moderna e outra da Pfizer, começaram a fase três de testes, o estágio final da experimentação clínica. Outras estão sendo esperadas em breve. Na semana passada, o secretário da Saúde, Anthony Fauci, expressou sua confiança no sistema. “Historicamente, a FDA sempre baseou suas decisões na ciência”, disse. “E fará isso também desta vez, tenho certeza.” / NYT, TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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