REUTERS
REUTERS

Cinco anos após a morte de Kadafi, Líbia sofre com caos e ameaça jihadista

Líbios tem vida pautada por cortes de eletricidade e longas filas nos bancos; Ditador ficou no poder por 42 anos e foi morto em 20 de outubro de 2011

O Estado de S. Paulo

20 de outubro de 2016 | 07h00

TRÍPOLI - Muitos líbios começam a sentir falta da época em que o país era governado com mão de ferro por Muamar Kadafi, cinco anos depois de sua deposição e morte, em um país dividido e mergulhado no caos. "Nossa vida era melhor sob Kadafi", diz Faiza al Naas, uma farmacêutica de Trípoli, ao se lembrar dos 42 anos durante os quais o líder líbio permaneceu no poder. Ela confessa sentir vergonha em dizer isso quando pensa em todos os "jovens que deram sua vida para libertá-los do tirano", referindo-se aos rebeldes que combateram as forças de Kadafi até sua morte, em 20 de outubro de 2011.

Desde a queda de Kadafi, a Líbia sofre com insegurança e penúria. A vida cotidiana está pautada pelos cortes de eletricidade e pelas longas filas de espera diante dos bancos devido à falta de liquidez. O país está afetado pelas lutas de influência, tão cruéis quanto impunes, entre as diversas milícias e tribos que compõem a sociedade.

Cinco anos depois que forças internacionais sob comando da ONU ajudaram os rebeldes a derrubar Kadafi, a Líbia é um estado falido, vítima do caos e da guerra civil, no qual dezenas de milícias lutam pelo poder e pelo controle dos recursos naturais.

A Líbia, um rico país petrolífero com fronteiras porosas, se converteu em uma plataforma de todo tipo de contrabandos, de armas a drogas passando, sobretudo, pelo lucrativo tráfico de migrantes africanos que buscam chegar à Europa.

Aproveitando o caos posterior à queda de Kadafi, extremistas de todo tipo, em particular do Estado Islâmico e da Al-Qaeda, se implantaram solidamente no território líbio.

No plano político, o país está dividido entre duas autoridades rivais que disputam o poder. Por um lado o Governo de União Nacional (GNA), formado após um acordo apadrinhado pela ONU e instalado em Trípoli, a capital do país. Pelo outro, uma autoridade rival instalada no leste da Líbia, uma zona controlada em grande parte pelas forças do marechal Khalifa Haftar, que em setembro passado tomou o controle dos terminais petrolíferos.

Khalifa Haftar assenta sua legitimidade no Parlamento, localizado no leste, mas reconhecido tanto pelo GNA quanto pela comunidade internacional. Haftar sustenta que é o único capaz de restabelecer a ordem no país, de salvar a Líbia, assim como reconquistou uma parte de Benghazi, que estava nas mãos de grupos extremistas.

Seus opositores acusam Haftar de ter um único objetivo: tomar o poder e instaurar uma nova ditadura militar. "Os líbios são obrigados a escolher entre dois extremos: o caos das milícias e os extremistas islamitas" ou "um regime militar", lamenta o analista líbio Mohamed Eljarh, do centro Rafik Hariri para o Oriente Médio.

Khalifa Haftar não consegue, no entanto, acabar com as milícias próximas à Al-Qaeda ainda presentes em Benghazi e, por sua vez, as forças favoráveis ao GNA, localizadas em Misrata (oeste), também não podem liquidar os focos de resistência do Estado Islâmico em Sirte.

Os especialistas temem que, uma vez terminado o combate aos extremistas, os dois grupos se enfrentem diretamente para controlar o país. "É difícil imaginar que o país possa alcançar a estabilidade rapidamente devido às divisões, mas também à vontade dos protagonistas de controlar as localidades que opõem resistência", afirma Mattia Toaldo, especialista da Líbia no European Council on Foreign Relations.

Após décadas de "regime autoritário, repressivo e centralizado" de Kadafi, os líbios se resignam, aparentemente, a "outra forma de autoritarismo, mais descentralizado e caótico, seja sob a autoridade das milícias ou de Aftar", destaca.

"A situação atual é a consequência lógica de 42 anos de destruição e de sabotagem sistemática por parte do Estado", diz Abderrahmane Abdelaal, um arquiteto de 32 anos, que critica os que sentem nostalgia da era Kadafi.

Por sua vez, os partidários de Kadafi afirmam nas redes sociais que a atual anarquia prova que o líder líbio era um "visionário" que havia advertido e previsto que, após sua saída, a Líbia afundaria no caos. 

Ataque. O caos no país aumentou ainda mais no último fim de semana depois que milícias leais ao antigo Executivo islamita de Trípoli, chamado de rebelde, atacaram um dos principais complexos da cidade e desafiaram o frágil governo de União Nacional, designado há seis meses pela ONU.

"Sempre sonhamos com a possibilidade de que houvesse uma revolução, pensávamos o tempo todo em como fazê-la, mas Kadafi era muito forte e o país estava muito cansado, portanto nos surpreendemos quando alguém o fez", disse o ex-deputado Nasser Seklani.

"Sim, estávamos felizes em termos nos livrado de Kadafi. Mas, cinco anos depois, começamos a nos perguntar quem fez de verdade a revolução e sentimos que não foi uma revolução líbia, mas uma decisão internacional, e isso nos dá um desgosto tremendo", acrescentou Seklani.

Antigo oficial do Exército de Kadafi e um dos primeiros a aderir à revolta, Seklani é hoje um dos milhares de líbios ricos e formados que poderiam ajudar a reconstruir o país, mas o abandonaram para se exilar na Tunísia.

Preso pelo ditador entre 1980 e 1988, Seklani, de 62 anos, acreditou que a revolta abriria um novo caminho e, por isso, reuniu um grupo de amigos e parentes e colocou sua fortuna a serviço de um novo partido, com o qual conseguiu ser eleito deputado nas primeiras eleições livres. /AFP e EFE

 

Mais conteúdo sobre:
Líbia

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.