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Manifestantes voltaram às ruas cinco anos depois do início da guerra  AFP PHOTO / KARAM AL-MASRI

Cinco anos depois, Síria espera uma sonhada paz

A revolta pacífica que em 2011 pedia reformas políticas se transformou progressivamente em um conflito interno muito complexo, com implantação de grupos jihadistas e a intervenção de atores externos

O Estado de S. Paulo

15 de março de 2016 | 06h00

A guerra na Síria, que entra hoje em seu sexto ano, provocou a maior crise migratória na história da Europa desde a 2ª Guerra. Em meio às atuais negociações para terminar com o conflito, os Estados Unidos e a Rússia conseguiram promover um cessar-fogo temporário, mas muitos questionam se essa trégua calará de vez os fuzis em um conflito que já deixou mais de 270 mil mortos, é complexo e envolve muitos atores diferentes.

A crise começou no dia 15 de março de 2011 quando, no contexto da Primavera Árabe, pequenas manifestações foram violentamente reprimidas pelo regime de Damasco, que governa o país com mão de ferro há 45 anos, quando o pai do atual presidente, Hafez Assad, chegou ao poder.

A revolta pacífica que pedia reformas políticas se transformou progressivamente em um conflito interno muito complexo, com implantação de grupos jihadistas e a intervenção de atores externos.

"Deixamos que se desenvolvesse na Síria uma multiplicação de guerras por procuração, já que não têm muito a ver com as reivindicações iniciais do povo sírio", resume Karim Bitar, diretor de pesquisas do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (IRIS), com sede na França.

Em setembro de 2015, a guerra deu uma guinada depois que a Rússia começou a bombardear os rebeldes para apoiar o regime de Bashar Assad, cujo destino continua sendo o principal ponto de discórdia para encontrar uma solução para o conflito.

A chegada de milhares de refugiados sírios à Europa, que desatou a pior crise migratória desde a 2ª Guerra no continente, levou alguns países a endurecer sua política diante do regime.

O futuro de Assad - "O medo europeu frente à onda de refugiados é um dos principais fatores que levaram a um questionamento das políticas sobre a Síria, colocando a estabilidade em curto prazo como uma prioridade absoluta, em detrimento de outros objetivos políticos e geoestratégicos", destacou Bitar.

"A intervenção russa permitiu ao regime de Assad consolidar seu controle sobre a 'Síria útil', as regiões mais povoadas do país", acrescentou.

O presidente sírio continua em seu cargo e nada induz a pensar que vá sair, uma reivindicação de que a oposição não abre mão.

O novo ciclo de negociações patrocinado pela ONU, que começeçou nesta segunda-feira, 14, está centrado na formação de um novo governo, a redação de uma nova Constituição e a organização de eleições presidenciais e parlamentares.

Segundo o enviado da ONU, Staffan de Mistura, o objetivo é organizar as eleições em 18 meses. Mas as discrepâncias ainda são muito importantes.

"Para os americanos, está claro que é preciso fazer concessões, mas, ao mesmo tempo, não estão prontos para aceitar que Assad continue no poder indefinidamente", explica Yezid Sayigh, especialista em Oriente Médio do centro Carnegie. "Eles querem como condição que ele deixe o poder no início, durante ou ao final de um período de transição, o que os russos não aceitam", acrescentou. Além disso, existe o questionamento se Assad poderá ou não se apresentar nas eleições. 

Os dois gestores da inédita trégua que começou no dia 27 de fevereiro, entre o regime e os rebeldes, estão conscientes de que na ausência de um acordo, a violência recomeçará.

Uma guerra por procuração - Mesmo que as negociações em Genebra tenham êxito, grupos jihadistas como o Estado Islâmico (EI) e a Frente al Nusra, que controlam metade do território sírio, continuarão combatendo.

Os grupos, excluídos da trégua, continuam sendo bombardeados tanto pelos russos como pela coalizão liderada pelos Estados Unidos.  

Os tentáculos do EI se estenderam fora da Síria, no Golfo, no Norte da África, onde os jihadistas realizaram um mortífero atentado nas praias da Tunísia, e na Europa, onde atingiram Paris em novembro.

As lutas entre potências regionais pelas brechas confessionais também se refletem no conflito sírio, onde a Arábia Saudita apoia rebeldes sunitas e o Irã busca manter o poder dos alauítas em Damasco.

A organização libanesa xiita Hezbollah também apoia o regime. Enquanto Riad pede a saída de Assad, Ancara bombardeia as forças sírias curdas que sonham com a autonomia do outro lado da fronteira.

Em um país em ruínas, onde 450 mil pessoas vivem em condições humanitárias dramáticas, a economia foi arrasada. "O povo continua sendo a vítima dos acordos de contas entre as potências", sentenciou Bitar. / AFP 

 

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Mais de 270 mil mortos e uma tragédia humana

Iniciada em 2011, a revolta contra o regime de Bashar Assad se transformou em uma devastadora guerra, que já deixou mais de 270 mil mortos, metade da população deslocada e um país em ruínas

O Estado de S. Paulo

15 de março de 2016 | 06h00

Iniciada há quase seis anos, a revolta na Síria contra o regime de Bashar Assad se transformou em uma devastadora guerra, que já deixou mais de 270 mil mortos, metade da população deslocada e um país em ruínas. 

Vítimas

O Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSDH), que dispõe de uma vasta rede de informantes no terreno, contabilizou 271.138 mortos. Entre eles 79.106 civis, incluindo 13,5 mil crianças, de acordo com um balanço de 23 de fevereiro. 

Esses números não incluem as milhares de pessoas desaparecidas, os opositores presos e os membros do Exército capturados pelos rebeldes ou grupos jihadistas como a Frente al-Nusra e o Estado Islâmico (EI).

A ONU apontou em um relatório publicado em fevereiro que milhares de pessoas detidas pelo regime foram mortas. De acordo com uma ONG síria, 177 hospitais foram destruídos e cerca de 700 profissionais da saúde morreram desde 2011.

Refugiados

No país, que em 2011 tinha 23 milhões de habitantes, 13,5 milhões de pessoas foram deslocadas pela guerra, de acordo com dados da ONU publicados em 12 de janeiro de 2016.

"Pelo menos 250 mil crianças vivem em áreas sujeitas a um cerco brutal (...) que se tornaram verdadeiras prisões a céu aberto", informou, em março, a ONG Save the Children.

Segundo a ONU, um total de 450 mil pessoas vivem em áreas sitiadas.

A guerra forçou 4,7 milhões de pessoas a fugir do país, o que é "a maior população de deslocados em um conflito em uma geração", estimou, em julho de 2015, a agência da ONU para os Refugiados (ACNUR).

A Turquia tornou-se o principal local de asilo para os refugiados, recebendo entre 2 e 2,5 milhões de sírios deslocados. 

Na Jordânia, há 630 mil deslocados registrados pela Acnur, mas as autoridades estimam que o número possa ultrapassar 1 milhão de pessoas.

No Iraque, há 225 mil refugiados sírios, enquanto o Egito acolhe 137 mil pessoas.

Os refugiados sofrem com a pobreza, problemas de saúde e cresce cada vez mais os conflitos com as comunidades dos locais de refúgio, onde vivem em condições precárias.

A grande maioria dos refugiados sírios permanece nos países da região, mas mais e mais pessoas tentam chegar à Europa em uma viagem perigosa e incerta.

Economia moribunda

De acordo com especialistas, o conflito prejudicou a economia, a ponto de retrocedê-la ao nível que estava há três décadas, privando-a de quase todos os seus rendimentos, com a destruição da maior parte das infraestruturas. O sistema de educação e o de saúde estão em ruínas.

As exportações caíram 90% desde o início dos distúrbios, de acordo com um alto funcionário, devido às sanções internacionais que sufocam ainda mais a economia.

De acordo com o Ministério do Petróleo, as perdas diretas e indiretas do setor de petróleo e gás totalizam US$ 58 bilhões.

Em 2015, uma coalizão de 130 ONGs informou que a Síria vive quase sem eletricidade, uma vez que 83% da rede elétrica foi destruída. /AFP 

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Uma em cada três crianças nasceu em zona de guerra

Segundo o Unicef, mais de 3,5 milhões de crianças sírias - uma em cada três - nasceu em uma área de guerra desde que o conflito no Oriente Médio começou, há cinco anos

O Estado de S. Paulo

15 de março de 2016 | 06h00

NOVA YORK - Mais de 3,5 milhões de crianças sírias - uma em cada três - nasceu em uma área de guerra desde que o conflito no Oriente Médio começou, há cinco anos, de acordo com o relatório divulgado nesta segunda-feira, 14, pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

"Enquanto a guerra continua, os meninos estão lutando uma guerra de adultos, continuam abandonando as escolas e muitas são forçados a trabalhar, enquanto as meninas são pressionadas a se casarem novas demais", indicou em comunicado o diretor-regional do Unicef no Oriente Médio e o Norte da África, Peter Salama.

O estudo, "No place for children" (Não é lugar para crianças), aponta que cerca de 8,5 milhões de crianças, mais de 80% das crianças sírias, foram afetadas pelo conflito, dentro do país ou como refugiados.

Segundo a agência das Nações Unidas, 306 mil crianças nasceram como refugiadas desde 2011, muitas delas em países vizinhos à Síria (Turquia, Líbano, Jordânia e Iraque), onde o número de refugiados é dez vezes maior agora do que em 2012. As crianças sofrem com desnutrição, falta de higiene básica, de segurança e com a extrema pobreza, denunciou o Unicef.

A desproteção dos pequenos levou à agência a registrar até 1,5 mil violações dos direitos da infância em 2015, 60% casos de morte ou mutilação em consequência de explosões de bombas em regiões povoadas. O relatório revelou que em 2015, 400 crianças morreram na Síria e nos países vizinhos, e 500 sofreram algum tipo de mutilação.

Outro problema que as afeta diretamente é o acesso a uma educação digna. O documento estima que mais de 2 milhões de crianças dentro da Síria, e 700 mil refugiados, não podem ir à escola. O relatório revela que ano passado 40 escolas foram atacadas e mais de 6 mil centros escolares não estão operando.

O Unicef aproveitou a divulgação do relatório para pedir ajuda econômica e o compromisso moral da comunidade internacional em cinco aspectos "críticos" para ajudar a proteger a geração de crianças que está vivendo a infância em zonas de conflito armado.

A agência pediu o fim das violações dos direitos da infância; melhorar o acesso humanitário dentro da Síria; um fundo de US$ 1,4 bilhão para garantir a educação das crianças; restabelecer a dignidade delas e transformar as promessas de financiamento em compromissos verdadeiramente cumpridos.

O Unicef lamentou ter recebido "somente 6% do financiamento pedido para 2016 para ajudar às crianças sírias, tanto dentro como fora do país".

A agência da ONU para a infância pediu para este ano mais de US$ 1 bilhão e só recebeu us$ 74 milhões.

Os recursos que as Nações Unidas consideram necessários para ajudar as crianças no território aumentaram ano após ano: em 2012 foram pedidos US$ 120 milhões; em 2013, US$ 470 milhões; US$ 770 milhões em 2014 e ano passado o Unicef pediu US$ 903 milhões para cobrir as necessidades básicas das crianças. / EFE

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Os heróis desconhecidos na cobertura da guerra

Assassinatos e sequestros obrigaram os veículos de comunicação a informar de outros países e a apoiar-se nos relatos de testemunhas diretas, em sua maioria simpatizantes da oposição

O Estado de S. Paulo

15 de março de 2016 | 06h00

BEIRUTE -  "Você tem interesse em dados sobre uma 'manifestação' de Halloween das crianças de Homs?" Foi a primeira proposta do ativista sírio Mahmoud Luz em seu contato inicial com a agência EFE em 2014; cuja voz já se calou como a de muitos outros que morreram quando informavam sobre uma guerra que completa seu quinto ano.

Da mesma forma que centenas de ativistas locais que operam no país, Luz se transformou nos olhos e nos ouvidos em um conflito no qual os jornalistas no terreno, incluindo os estrangeiros, são alvo de sequestros e assassinatos.

Essa situação obrigou os veículos de comunicação a informar de outros países e a apoiar-se nos relatos dessas testemunhas diretas, em sua maioria simpatizantes da oposição, que trabalham de forma independente ou organizados em algum grupo de jornalistas cidadãos.

Luz foi contatado em 31 de outubro de 2014 por recomendação de outro companheiro jornalista e apresentou a si mesmo como uma fonte no terreno no norte da província central de Homs, de onde meses antes tinham sido retirados os grupos armados presentes na capital homônima da região após um acordo com as autoridades.

Entre 2014 e 2015, as conversas com Luz foram frequentes através do Skype até que um dia ele deixou de responder. No dia 26 de outubro do ano passado, sites vinculados à oposição síria noticiaram sua morte em Teir Ma, no norte de Homs, pelos ferimentos sofridos pelos estilhaços de uma bomba quando cobria uma ofensiva lançada pelo regime.

Devido à dificuldade para comunicar-se por telefone, o contato com os ativistas costuma ser por meio do Skype, mas também são usados outros aplicativos como Whatsapp, Facebook, Twitter e Viber.

Um destes ativistas é Iyad Kurin, residente na província setentrional de Idlib, que agora opera por sua própria conta após abandonar a rede opositora Sham, uma das principais organizações de jornalistas cidadãos.

Kurin declarou à EFE que "desde o início da revolução (15 de março de 2011) muitos sírios começaram a trabalhar como jornalistas para denunciar os abusos do regime nas áreas onde moravam".

Pouco depois, acrescentou, começaram a surgir grupos e emissoras que empregavam estes ativistas, embora ainda haja muitos que prefiram ser independentes.

Seu trabalho envolve um grande risco. De fato, segundo dados de Repórteres Sem Fronteiras (RSF), desde o início da guerra na Síria pelo menos 142 ativistas informadores perderam a vida frente aos 50 jornalistas de veículos de comunicação convencionais.

Embora na Síria não haja zonas 100% seguras, o território mais perigoso é o controlado pelo grupo terrorista Estado Islâmico (EI).

Provavelmente os casos mais conhecidos de assassinatos de jornalistas por radicais sejam as decapitações em 2014 dos americanos James Foley e Steven Sotloff, mas os jihadistas também têm informadores locais em sua mira.

O grupo "Raqqa está sendo Massacrada em Silêncio" perdeu três de seus membros e um diretor de seus vídeos desde sua fundação há pouco mais de dois anos.

"Com 20 dias (desde a criação do grupo), o EI assassinou nosso ativista Moataz Bilah Ibrahim depois que o capturaram quando tentava deixar Raqqa", contou à EFE Abu Mohammed, um dos integrantes desta rede, em uma conversa pela internet.

Atualmente, este grupo, que se dedica a denunciar os abusos cometidos pelos extremistas, está formado por 28 ativistas, dos quais 18 se encontram em Raqqa - bastião do EI no solo sírio - e dez fora do país.

Para não serem descobertos, utilizam programas informáticos encriptados e empregam a experiência que já tinham da época na qual só se opunham ao regime sírio.

Apesar das precauções, dois de seus ativistas foram mortos pelo EI dentro do território sírio e outros dois na Turquia. "A Turquia é perigosa porque ali o EI tem muitos seguidores, já que há bastantes brechas nas áreas fronteiriças", detalhou.

Mesmo assim, Mohammed, que opera com um nome falso, não hesita na hora de responder se este esforço vale a pena: "É nosso dever completar a revolução, além de mostrar o que ocorre em Raqqa e mostrar que a sociedade civil tem um papel, mesmo com a presença do EI". / EFE

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