AP Photo/Michel Euler
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Cinco anos depois, França julga ataques terroristas ao Charlie Hebdo

Atentados que deixaram 17 mortos em revista satírica e supermercado serão julgados nos próximos dois meses; episódios deram início a série de ações terroristas na Europa

Redação, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2020 | 16h00

PARIS - Cinco anos e meio depois, a França revisita um dos piores capítulos de sua história moderna com o julgamento dos responsáveis por apoiar o atentado à revista satírico Charlie Hebdo e a um supermercado de alimentos judaicos em Paris. Os ataques mataram 17 pessoas em janeiro de 2015 - 10 funcionários do Charlie Hebdo, três policiais e quatro judeus no mercado. Os três extremistas foram mortos pela polícia. 

Nos próximos dois meses, o tribunal examinará sob forte segurança o histórico de dias que traumatizaram a França e começaram com um ataque ao escritório da revista, visado por extremistas islâmicos depois da publicação de imagens satirizando o Islã e Maomé.

São 14 acusados, dos quais 11 estarão presentes. O tribunal ouvirá depoimentos de ao menos 150 testemunhas e todo o processo será filmado. “Para eles, para nós, para a história”, escreveu o jornal La Libération em uma capa preta na quarta. O Le Monde estampou em sua manchete na terça-feira que o julgamento é "para a história". 

Os julgados, com idades entre 29 e 68 anos, são acusados ​​de prestar ajuda logística aos agressores, por meio de transporte ou fornecimento de dinheiro, armas e veículos. A maioria dos acusados ​​pode pegar até 20 anos de prisão.

Nos 49 dias de audiência - entre 2 de setembro e 10 de novembro -, ao menos 90 veículos de comunicação poderão acompanhar o julgamento - sendo 27 do exterior -, além de integrantes da sociedade civil organizada francesa. Diante do julgamento, o Charlie Hebdo decidiu republicar a charge que motivou os ataques. "Tudo isso. Por isso", diz o texto, com imagens dos ataques e das caricaturas que satirizam Maomé. 

"O ódio que nos atingiu ainda está aí e, desde 2015, teve tempo de se transformar, de mudar de aspecto para passar despercebido e continuar sem ruído sua cruzada implacável”, afirmou o cartunista Riss, diretor da publicação. "Nunca nos renderemos, nunca renunciaremos".

Saïd e Chérif Kouachi, os dois irmãos que executaram o ataque à revista, morreram em um tiroteio com a polícia dois dias depois. Um terceiro, Amédy Coulibaly, matou um policial em um subúrbio parisiense e quatro reféns judeus em um supermercado kosher antes de ser atingido quando a polícia invadiu o prédio.

As mortes foram seguidas por uma série de ataques jihadistas em território francês que deixaram ao menos 130 mortos e colocaram o segundo país mais populoso da Europa em estado de emergência. 

Ritual

"De um ponto de vista coletivo, você precisa de um julgamento para dizer que a sequência de eventos está encerrada e agora está no passado”, disse o sociólogo Gérôme Truc, do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS). 

Na avaliação de Gérard Chemla, advogado da Federação Nacional das Vítimas de Atentados, o julgamento faz parte de um ritual. "Será uma oportunidade de reviver aqueles que partiram. Os autores de crimes terroristas estão em uma lógica de desumanização de suas vítimas", disse ao jornal Le Parisien. "Graças aos testemunhos de sobreviventes e parentes, devolveremos a eles toda a sua humanidade".

Um dos sobreviventes, Philippe Lançon publicou um livro chamado O Retalho em que relembra o caso. Em entrevista ao Estadão, disse que as manifestações desencadeadas na França após os atentados foram em favor da "liberdade de expressão, do humor, em um país onde a religião, toda religião, é considerada por muitos o ópio do povo". 

Mas, na sua avaliação, aquele espírito se perdeu ao longo do tempo e hoje o Charlie Hebdo é considerado uma revista que muitas pessoas "gostam de detestar" ou "desprezar sem ler". Para Lançon, a atitude de qualificar a revista como racista "é estúpida, porém recorrente".

Outros julgamentos

Nos próximos anos, vários casos importantes de terrorismo deverão chegar a julgamento na França, especialmente os relacionados aos ataques de novembro de 2015 em Paris e um em Nice em julho de 2016, com um número recorde de réus - e muitas vezes sem os terroristas que perpetraram os ataques - mortos nas ações policiais.

“Devemos manter a máxima vigilância, mesmo que os franceses tenham mudado sua preocupação para a crise de saúde, as preocupações econômicas e a insegurança diária”, disse Gérald Darmanin, ministro do Interior da França, em discurso na sede da agência de inteligência nesta semana.

Darmanin acrescentou que o nível de ameaça terrorista ainda é "extremamente alto" no país. / Com NYT

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