REUTERS/Darrin Zammit Lupi
REUTERS/Darrin Zammit Lupi

Cinco conclusões das eleições europeias

Parlamento é única instituição diretamente eleita da União Europeia, então a votação foi vista por muitos como um teste para o crescimento dos movimentos populistas da Europa e um referendo sobre a própria instituição

Steven Erlanger e Megan Specia / The New York Times , O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2019 | 17h37

BRUXELAS - As conclusões mais destacadas dos resultados das eleições para o Parlamento Europeu são a fragmentação e a polarização. Fragmentação, porque os tradicionais partidos da centro-direita e centro-esquerda perderam assentos para partidos menores e mais apaixonados, como os verdes e uma variedade de grupos populistas.

E polarização porque os partidos populistas e eurocéticos aumentaram sua participação nos assentos para 25%, ante cerca de 20% de cinco anos atrás. A temida vaga populista foi mais uma grande onda, mas os populistas se saíram muito bem nos principais países onde estão no poder, como Itália, Hungria e Polônia.

O Parlamento é a única instituição diretamente eleita dentro dos 28 países da União Europeia, então a votação foi vista por muitos como um teste para o crescimento dos movimentos populistas da Europa e um referendo sobre a própria instituição.

Com um comparecimento acentuadamente maior em comparação com anos recentes, analistas disseram que essa onda reflete as mudanças na opinião dos europeus sobre a relevância da União Europeia. Eis o que se deve saber sobre os resultados das eleições.

As pessoas estão novamente interessadas na Europa

Uma das maiores surpresas pode ser o ressurgimento do interesse dos eleitores no Parlamento Europeu, durante muito tempo encarado como de segunda ordem e enquadrado em todo o Continente como menos importante do que a política nacional. 

A participação superou os 50%, a maior desde 1994 e marcou a primeira vez desde que a votação começou em 1979, na qual o comparecimento não caiu ante a eleição anterior. Foi um grande salto em relação às eleições de 2014, nas quais apenas 42,6% dos eleitores aptos participaram.

Os resultados refletiram “um certo alerta”, disse Martin Selmayr, secretário-geral da Comissão Europeia, o braço executivo do bloco. “Com Donald Trump e Vladimir Putin”, disse ele, as pessoas percebem que “se você não se envolver neste projeto europeu, pode ter muito a perder”.

Sucesso marginal para candidatos populistas

A eleição foi vista por alguns como um indicador da crescente influência do populismo na Europa, que marcou presença nos últimos anos nas eleições nacionais da Itália à França e Hungria e Polônia nos últimos anos.

Os partidos populistas tiveram um impacto notável, conquistando cerca de 25% dos assentos do Parlamento, em comparação com os cerca de 20% que conseguiram nas últimas eleições. Mas mal e mal foi a onda populista que candidatos como Matteo Salvini da Itália e Marine Le Pen da França esperavam, após suas tentativas de apresentar uma frente unida antes da votação.

“Acredito que a chamada onda populista foi contida”, disse Selmayr, acrescentando: "Todas as forças democráticas pró-europeias precisarão trabalhar juntas".

Na Itália, o partido da Liga de Salvini, de extrema direita e anti-imigração, teve bons resultados, obtendo 34% dos votos, de acordo com os resultados provisórios, o que dá apoio à sua aspiração de se tornar uma grande voz dentro do bloco.

Na França, o partido de extrema direita Le Pen - outrora conhecido como Frente Nacional e rebatizado como o Reunião Nacional - desferiu um golpe embaraçoso no partido do presidente Emmanuel Macron, há muito tempo enquadrado como o novo líder do continente para políticas pró-europeus, batendo por pouco seu partido, La République En Marche, ou a República em Movimento.

O partido de Le Pen ganhou menos assentos do que há cinco anos, mas o simbolismo ficou claro.

Os ganhos populistas em nível nacional, porém, podem não vir a se traduzir em influência no nível europeu. O movimento parece muito diferente de país para país, com diferentes prioridades em cada país e com desacordos entre eles em questões importantes como a Rússia e ou o orçamento europeu.

Essas políticas desarticuladas e os fortes egos envolvidos tornarão mais difícil para esses partidos forjar alianças eficazes.

Os partidos populistas apresentaram a tendência de se sair melhor no sul da Europa do que no norte da Europa, com base nos primeiros números. Na Holanda, o partido PVV do político nacionalista holandês Geert Wilders perdeu todos os assentos no Parlamento e os social-democratas obtiveram a maioria dos votos daquele país.

O centro estabelecido manteve-se, mas precisa se adaptar

Nos últimos 40 anos, o Parlamento Europeu tem sido dirigido por partidos de centro, dominados pelo grupo do Partido Popular Europeu, de centro-direita, e pela Aliança Progressista dos Socialistas e Democratas, no centro-esquerda.

Juntos, eles detinham a maioria dos assentos parlamentares, mas esse não é mais o caso: o aumento do apoio a partidos populistas menores, como os verdes e os liberais, enfraqueceu a influência dos centristas.

Agora, esses grupos terão de trabalhar mais de perto com os membros liberais do Parlamento para criar uma maioria articulada. Isso poderia mudar as prioridades dentro da legislatura e mudar o tipo de questões que se colocam em primeiro plano.

Manfred Weber, o principal candidato a presidente da Comissão do Partido Popular Europeu, reconheceu na noite de domingo que “aqueles que querem uma União Europeia forte precisamunir forças”. Mas ele acrescentou que seu grupo não cooperaria “com qualquer partido que não acredite no futuro da União Europeia”. 

O Reino Unido votou em uma questão: o Brexit

Havia uma questão sobre a mesa no Reino Unido: a iminente retirada do país da Europa - e a votação sublinhou as divisões entre aqueles que querem o Brexit e aqueles que querem abandoná-lo.

As estimativas divulgadas na segunda-feira de manhã indicaram que o partido Brexit, liderado por Nigel Farage, estava prestes a receber 31% dos votos. Um partido com uma única proposta que não existia há quatro meses conseguiu retirar votos dos partidos do establishment do país, que foram vistos como tendo atuado mal na administração do Brexit, três anos depois do referendo sobre a adesão à UE.

O partido será um dos maiores do Parlamento Europeu, com mais assentos até do que o parido de Salvini. Pelo menos enquanto o Reino Unido continuar sendo um membro, assim o será.

Farage fez campanha no Reino Unido até o fim de outubro, com ou sem um acordo de retirada. Mas isso dependerá do governo nacional britânico, uma vez que o partido Brexit não tem assentos.

Os liberais democratas, que faziam campanha com base no slogan “Bollocks to Brexit” (bobagens para o Brexit) e se estabeleceram firmemente no outro extremo do espectro, seguiram com cerca de 18% dos votos.

Os partidos Conservador e Trabalhista tiveram seus piores resultados eleitorais europeus em décadas, estimados em apenas 8% e 14% dos votos, respectivamente. Os trabalhistas em particular sofreram por causa de uma postura ambivalente em relação ao Brexit, que confundiu os eleitores.

Na segunda-feira, Farage disse à BBC que sentiu que a votação foi um reflexo da existência de um “verdadeiro sentimento de frustração”. "Os partidos que quebram as promessas têm maus resultados nas eleições", disse ele, apontando as perdas tanto para conservadores quanto para trabalhistas.

O Partido Verde teve amplo - e surpreendente - sucesso

O Partido Verde obteve ganhos em toda a Europa, da Alemanha a Portugal e em todos os países nórdicos, com base nos primeiros números, com alguns analistas enquadrando o apoio crescente dentro de uma “onda verde” de eleitores. As mudanças climáticas, a presença de eleitores jovens e a raiva contra as políticas existentes parecem estar por trás de tudo, dizem os líderes do movimento.

Bas Eickhout, membro holandês do Parlamento Europeu e candidato dos verdes à presidência da Comissão Europeia, agradeceu aos eleitores no domingo à noite, enquanto os resultados chegavam. Os verdes, ele disse, estavam “claramente em busca de mudanças, pedindo pela chance de uma nova Europa”, uma Europa em combate às alterações climáticas, uma Europa que busca uma transição verde de uma forma socialmente justa”. 

Na Alemanha, a ascensão do Partido Verde, que garantiu mais de 20% da votação no país, está sendo vista como a grande história da eleição. Os social-democratas de centro-esquerda sofreram sua pior derrota em décadas, com muitos eleitores de esquerda, especialmente jovens, voltando-se para os verdes.

O Partido Verde também viu um aumento repentino na Irlanda, onde anteriormente não tinha assentos, às custas do Fine Gael do primeiro-ministro Leo Varadkar, em particular sua suposta fortaleza na capital, Dublin. No Reino Unido, onde o Brexit dominou a agenda, os verdes conquistaram um recorde de sete lugares. / Tradução de Claudia Bozzo

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