Cinco formas de salvar a Faixa de Gaza

Palestinos e israelenses têm de colocar um fim ao ciclo interminável de violência, mas precisam de ajuda

WILLIAM, SALETAN, SLATE, O Estado de S.Paulo

25 Julho 2014 | 02h03

Após duas semanas de protestos e denúncias, já é hora de reconhecer que A indignação não dará um fim à guerra em Gaza. A maneira mais plausível de interromper esse ciclo de violência é com uma desmilitarização internacionalmente supervisionada. Em meio a tanta morte e destruição, isto pode parecer uma proposta absolutamente desesperada. No entanto, a verdade é que muitas das ferramentas necessárias para isso já existem. Eis uma análise do problema e como resolvê-lo.

1. Os habitantes de Gaza não têm um governo para protegê-los. Todo dia, mais civis morrem em Gaza. Israel, o país que os está matando, concordou com as propostas de cessar-fogo. Contudo, o Hamas, que controla Gaza (embora muitos de seus líderes políticos nem sequer vivam ali), rejeita essas propostas e continua a disparar foguetes sobre Israel. Pode-se argumentar que os foguetes justificam os ataques de Israel ou que eles servem meramente de pretexto. Seja como for, eles resultam em novas mortes de habitantes de Gaza.

A única maneira de compreender o comportamento do Hamas é reconhecer que seu objetivo não é parar a matança, mas explorá-la. Isso explica por que o Hamas encorajou os moradores locais a se postarem no alto de prédios visados e ordenou que permanecessem em áreas onde Israel havia emitido advertências antes da invasão.

Explica também por que o Hamas insiste que Israel faça concessões em troca de um cessar-fogo. O Hamas acha que o cessar-fogo é um favor para Israel. Dado o desequilíbrio flagrante das baixas, essa é uma declaração muito clara de que, para o Hamas, as mortes dos moradores de Gaza devem incomodar mais Israel do que ao Hamas.

Essa é apenas a mais recente exposição das prioridades deturpadas do Hamas. Outra ilustração é seus túneis. O grupo desviou centenas de milhares de toneladas de materiais de construção de projetos civis para a construção de túneis. Os túneis para o Egito, cuja finalidade principal é comercial, são rudimentares. Os túneis para Israel, construídos para ataques militares, são elaborados. O Hamas se preocupa mais em ferir israelenses do quem em ajudar os habitantes de Gaza.

2. A falta de um protetor em Gaza agravou o comportamento de Israel. Os israelenses sabem, por experiência própria, que invadir e ocupar Gaza é contraproducente. Durante o atual conflito, Israel sinalizou sua disposição de parar, primeiro ao honrar unilateralmente a proposta de cessar-fogo do Egito, depois ao adiar uma invasão terrestre. O Hamas, porém, persistiu na ação, desafiando Israel a prosseguir.

Israel insensatamente aceitou o desafio. Sua missão se ampliou do bombardeio de lançadores de foguetes à destruição dos túneis. Previsivelmente, o número de túneis cresceu. A quantidade descoberta até agora varia de 23 a 45. Um relatório, com base em imagens infravermelhas de satélites, diz que deve haver 60 ou mais. Agora, as lutas se estenderam a fornecedores do Hamas - na sexta-feira, houve um ataque misterioso no Sudão - e "falcões" israelenses estão falando em recapturar a fronteira Gaza-Egito. Há sempre uma nova missão que se pode acrescentar para tornar Gaza "mais segura".

Solução. Pior, Israel adotou o uso de escudos humanos pelo Hamas como desculpa para as mortes de civis. É verdade que o Hamas usou civis com esse fim, colocando foguetes em escolas, mesquitas e hospitais, por exemplo. No entanto, Israel distorceu esses abusos pontuais numa afirmação categórica de que o Hamas é culpado por cada morte de civil. Esse tipo de pensamento corrompe um Exército invasor.

Agora, alguns ministros do governo israelense estão pedindo medidas radicais contra Gaza, como cortar sua eletricidade. A linha divisória entre combater o Hamas e combater Gaza está borrada.

3. Os israelenses perderam a fé numa solução militar. Desde a retirada dos seus soldados da Faixa de Gaza, em 2005, mas mantendo o controle sobre as fronteiras, a costa e o espaço aéreo de Gaza, Israel travou três guerras na região. Por enquanto, quase ninguém em Israel, exceto a extrema direita, acredita que a força acabará com o Hamas ou lhe ensinará uma lição duradoura.

Os mísseis são repostos, os túneis reconstruídos e cada combatente morto do Hamas é substituído por pelo menos um outro. A expressão dura de Israel para suas operações periódicas em Gaza - "aparar a grama" - é uma confissão de que a força não funciona. Os israelenses esperam que, depois desta guerra, voltarão a ela de novo daqui a dois anos.

A cada nova guerra, a futilidade fica mais clara. Gaza é tão densamente povoada que não se pode bombardeá-la sem matar civis e não se pode enviar forças terrestres sem se atolar num tipo de guerra urbana que significa morte para as tropas invasoras. Mais de três dezenas de soldados israelenses já morreram na presente operação e um está desaparecido. Se o Hamas capturar outro Gilad Shalit, ele poderá facilmente arrancar concessões que farão a invasão parecer uma perda líquida para Israel.

4. Há um candidato óbvio para assumir o controle de Gaza. Sete anos atrás, após vencer uma eleição parlamentar, o Hamas tomou o controle militar de Gaza de Mahmoud Abbas, o presidente da Autoridade Palestina. Mas os tempos mudaram. O regime do Hamas está falido e é Abbas, um defensor da não violência, que tem acesso a agências e doadores internacionais. É por isso que, em abril, o Hamas concordou em formar um governo de unidade controlado por Abbas.

Erro. Foi aí que o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, deu um mau passo. Ele interrompeu as conversações de paz com Abbas, denunciou a união e fez todo o possível para sabotá-la. Isso foi estúpido, porque se alguém pode convencer o Hamas a adotar um estilo de governo mais racional, é Abbas. Os israelenses reclamam de Abbas, mas ele fez bastante para merecer sua confiança. Suas forças de segurança na Cisjordânia cooperaram com Israel mesmo quando isto enfurece os palestinos.

Abbas restauraria em Gaza um governo capaz de proteger as pessoas. Ele já está instruindo o Hamas sobre como responder de maneira mais inteligente ao bombardeio de Israel. O primeiro passo seria aceitar um cessar-fogo. Ele está se reunindo com autoridades do Egito e de outros países - que poderiam ajudar Gaza, mas que têm sido desprezadas pelo Hamas. Aliás, Abbas está sendo tratado internacionalmente como o supervisor adulto do Hamas. E o Hamas está começando a escutá-lo.

5. As peças de uma solução existem. Netanyahu e outros políticos israelenses estão convergindo para uma proposta de Shaul Mofaz, o ministro israelense da Defesa, de desmilitarizar Gaza em troca de uma ajuda de US$ 50 bilhões. Isto representa quase 30 vezes o PIB de Gaza, mas não é muito a pedir de doadores internacionais, que poderiam encontrar um uso melhor para seu dinheiro do que pagar pela reconstrução após outra guerra em Gaza - os danos só das duas últimas semanas custarão US$ 3 bilhões.

Uma coalizão internacional crível teria de supervisionar a desmilitarização. Essa é uma missão útil a se propor aos muitos países que expressaram indignação com a carnificina em Gaza: colocar seus soldados e seu dinheiro onde está a sua boca.

A União Europeia reafirmou seu compromisso na terça-feira: "Todos os grupos terroristas em Gaza devem se desarmar". O Irã, por sua vez, o principal fornecedor de armas para o Hamas, teria de ser pressionado a recuar. Felizmente, Teerã vem tentando reconstruir a boa vontade e está envolvido em conversações produtivas com os Estados Unidos, às quais essa questão poderia ser acrescentada.

Israel resistiria em ceder o controle de Gaza, mas as condições vigentes tornam mais provável uma flexibilidade israelense. O sucesso do sistema antimísseis Domo de Ferro deu confiança ao país de que, se foguetes começarem a sair novamente de Gaza, eles poderão suportar a barragem sem baixas por algum tempo.

Acordo. A eleição de um governo egípcio hostil ao Hamas fortalece a confiança de Israel em que a fronteira egípcia de Gaza não se tornará um canal fácil para a importação de armas. Os israelenses também se queixam de que afrouxar as restrições em Gaza, após uma guerra com o Hamas, premiaria a violência. No entanto, Israel aceitou essa troca há 20 anos, quando concordou com o princípio de terra por paz.

O Hamas também aceitou basicamente esse princípio. Netanyahu afirma que o Hamas, como a Al-Qaeda, "não tem nenhuma queixa passível de solução". Isso é uma bobagem. Na semana passada, o Hamas emitiu uma longa lista de reivindicações, em troca das quais ofereceu a Israel uma trégua de 10 anos. Muitas dessas demandas, como um aeroporto e o livre fluxo de comércio pelas fronteiras e pelo mar, são perfeitamente negociáveis.

Dez anos é um longo tempo. Se Gaza puder passar 10 anos sem uma nova guerra e construir uma economia que se pareça mais com a da Cisjordânia, poderemos não precisar de mais um acordo para manter a paz. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É COLUNISTA

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.