Cinco mitos sobre Jeb Bush

Muito do que se fala sobre ele não é verdade, a começar pelo seu nome: na verdade, ele se chama John

BRIAN E., CROWLEY, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2015 | 02h02

Os EUA têm a chance de votar em outro Bush, agora que Jeb se apresentou como pré-candidato republicano à presidência. Embora o sobrenome seja um dos mais famosos no país, muito do que se fala correntemente sobre Jeb é equivocado, a começar pelo seu nome. Na verdade, ele se chama John, não Jeb. Eis cinco mitos sobre o terceiro filho de George e Bárbara Bush.

1. Jeb Bush é um político moderado republicano padrão Quase nada no histórico de Bush como governador da Flórida indica que ele seja um político moderado. Essa ideia intriga os cidadãos do Estado que ele governou por oito anos, período em que desagregou a escola pública ao estabelecer um sistema de vouchers, de classificação de escolas e desempenho dos alunos e criou as escolas particulares subvencionadas. Reduziu o tamanho do governo, apoiou cortes de impostos para os ricos, aprovou leis mais duras para crimes e alardeou que a Flórida agora tinha mais permissões para carregar armas escondidas do que outros Estados.

Quando Bush deixou o governo "era considerado, de modo unânime e inequívoco, o governador mais conservador dos Estados Unidos", de acordo com Steve Schmidt, que foi o assessor de campanha do senador John McCain na disputa presidencial de 2008. Segundo Darryl Paulson, professor emérito na Universidade do Sul da Flórida, "ele teve um governo conservador e todos no Partido Republicano da Flórida o consideravam um conservador".

2. George é o burro, Jeb é o inteligente No ano passado, o New York Times descreveu a reputação do pré-candidato: "um intelectual em busca de novas ideias, um consultor contumaz de estrangeiros que adora o debate animado e um administrador comprovado que se atém aos mínimos detalhes burocráticos". George seria o incompetente e Jeb, o pensador. Mas algumas pessoas que trabalharam na Casa Branca durante o governo de George W. Bush dizem que a percepção de que Jeb é mais inteligente tem mais a ver com estilo do que substância.

A imagem de George W. Bush com frequência é a do fanfarrão e dos tropeços verbais. Mas, de acordo com Keith Hennessey, ex-diretor do Conselho Econômico Nacional no governo Bush, "o presidente é extremamente inteligente em todos os aspectos. Muito analista e incrivelmente capaz de entender rapidamente a questão central a que deve responder".

Por outro lado, Jeb também cometeu suas gafes. Durante a campanha para o governo da Flórida em 1994, uma mulher afro-americana perguntou a ele o que faria em prol dos negros na Flórida. Ele respondeu: "provavelmente, nada". A observação acompanhou-o durante o resto da campanha.

No mês passado, ele vacilou na resposta ao ser indagado se teria autorizado a guerra do Iraque, demonstrando que, como o irmão mais velho, também escorrega quando tem de se expressar. Resultado: George e Jeb são dois homens inteligentes que se expressam de modo diferente.

3. Jeb é o mentor de Marco Rubio No ano passado, a National Review lançou a pergunta: "Uma candidatura do seu mentor tiraria Rubio da disputa?". Rubio e Bush vivem no Condado de Dade, em Miami, e estão muito integrados à comunidade hispânica. Como colegas republicanos, trabalharam juntos e estavam muito próximos politicamente quando Rubio tornou-se presidente da Câmara dos Deputados, em novembro de 2006. Bush deu a ele uma espada de samurai.

Mas Rubio é realmente protegido de Bush? "Eu não subestimaria o relacionamento, nem exageraria", disse Marco Rubio ao Washington Post em fevereiro. Um funcionário do partido republicano na Flórida disse ao Post que Rubio respeitava Bush, mas não era "necessariamente um protegido" e a estrategista Ana Navarro sugeriu que um confronto entre os dois políticos "seria menos inoportuno para Jeb e Marco do que para muitos dos que estão em torno deles".

4. Bush fará uma campanha mais alegre No ano passado, quando ainda analisava se disputaria uma pré-candidatura presidencial, Jeb afirmou que "a decisão terá como base essa questão: 'conseguirei fazer uma campanha alegre'? Porque acho que precisamos ter candidatos que elevem nossos espíritos". Aparentemente, ele decidiu que sim, pode. Seus oponentes nas três disputas para o governo da Flórida teriam gostado de ver Bush realizando uma campanha alegre. Em casa ele disputou eleições acirradas. Em 1994, no seu programa eleitoral na TV, acusou o então governador democrata Lawton Chiles de não agir com rapidez para executar Larry Mann, assassino de uma menina de 10 anos. O programa mostrava a sofrida mãe da menina, Wendy Nelson. Chiles "diz que não pode acelerar isso; sabemos que pode", disse Cory Tilley, porta-voz de Jeb na época.

O programa eleitoral levou o Sun Sentinel a afirmar em editorial que o candidato "mostrou seu total desprezo pela verdade, pelo jogo limpo e pelo código de conduta do próprio partido - e também pelos eleitores que desejavam tê-lo como governador".

Em 1998, de acordo com o Los Angeles Times, a propaganda eleitoral de Jeb Bush bateu na tecla de que o então governador, Buddy MacKay, "passou sua carreira política de 30 anos tentando aprovar aumentos de impostos sobre tudo, desde a renda dos aposentados até alarmes contra ladrões".

Em 2002, Jeb qualificou o advogado de Tampa, Bill McBride, que nunca assumira um cargo público, como "um democrata favorável ao aumento de impostos e de gastos, a morte política numa Flórida alérgica a impostos, que ainda resiste ao imposto de renda estadual", segundo a revista Time.

Uma propaganda eleitoral constituída de ataques não é nada fora do comum. Mas será uma campanha presidencial muito inusitada se não houver anúncios negativos e a ideia de que a equipe de Bush de algum modo vai se conter e adotar a "alegria" é muito improvável.

5. Ele tem um amplo apoio na Flórida "O retorno do rei dos Republicanos" foi o título de uma matéria do Miami Herald de janeiro sobre a máquina de campanha de Jeb. Pouco antes de ele se apresentar oficialmente como candidato, os três chefes de gabinete da Flórida e 11 dos 17 republicanos no Congresso estadual endossaram sua candidatura. Então, Bush tem o controle da Flórida, certo? Não exatamente. Apesar do apoio do establishment político, as pesquisas sugerem que Jeb, que não se candidatava a um cargo havia 13 anos, não deve dar a Flórida como certa. Segundo uma pesquisa da Mason-Dixon realizada em abril, ele obteria 30% dos votos e Marco Rubio, 31%, basicamente empatados entre os eleitores republicanos da Flórida.

Em 1994, ele perdeu por uma margem estreita de votos para Chiles, um candidato relutante que mostrou pouca energia até o final da campanha. Em 1998, MacKay realizou uma campanha terrível e, como muitos democratas previam, perdeu. Em 2002, disputando um segundo mandato, Jeb derrotou Bill McBride, noviço na política por 4 a 1.

A família Bush tinha todas as razões para acreditar que Jeb ajudaria seu irmão a vencer na Flórida. Ele ajudou, mas foram somente 537 votos muito polêmicos. E muita coisa mudou desde que Jeb Bush deixou o palácio do governo. Segundo um estudo da Bloomberg, "quase três quartos dos atuais 12,9 milhões de eleitores registrados na Flórida nunca viram o nome de Jeb Bush numa cédula. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É ANALISTA POLÍTICO

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