Cinco mitos a respeito de Vladimir Putin

Análise: Andrew S. Weiss / W. Post

É DIRETOR DO CENTRO RAND PARA A RÚSSIA, A EURÁSIA, FEZ PARTE DO CONSELHO DE SEGURANÇA NACIONAL DURANTE O GOVERNO CLINTON, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2012 | 03h09

1. O triunfo eleitoral de Putin deixa prever que ele se tornará presidente vitalício.

Durante a presidência e seu mandato de premiê, de fato Putin governou a Rússia como um verdadeiro czar. Acabou com as eleições diretas para governadores regionais, subjugou os oligarcas mais obstinados, marginalizou a oposição e neutralizou o Judiciário, a imprensa e o Legislativo da Rússia. Entretanto, há algum tempo o sistema neo-czarista de Putin dá sinais de desgaste. O declínio econômico, a criminalidade, a corrupção e uma burocracia extraordinariamente inchada levaram muitos russos a reclamar. Depois que Putin anunciou que pretendia regressar ao Kremlin, e os militantes documentaram com as câmeras dos seus celulares as fraudes no sistema de votação nas eleições da Duma em dezembro, alguma coisa se rompeu. Este traiçoeiro ambiente político obrigará Putin a governar recorrendo de fato ao compromisso. É possível que estas coisas não passem de meras elucubrações, mas neste momento Putin luta para preservar sua vida política.

2. Putin poderá usar os enormes recursos energéticos da Rússia como arma política.

As reservas de petróleo e gás da Rússia tornaram o país fabulosamente rico e um fornecedor fundamental para a Europa e outros mercados. Entretanto, o verdadeiro refém é a economia russa. Em 2011, as receitas de petróleo e gás representaram cerca da metade do orçamento federal e as matérias-primas constituíram mais de 85% das exportações. Graças a um enorme superávit comercial, às imensas reservas de moeda estrangeira e ao rublo supervalorizado, setores da economia russa deixaram de ser competitivos em relação às importações. Enquanto os gastos do governo aumentam por causa dos maciços gastos com a ampliação das Forças Armadas e as promessas de campanha de Putin de programas sociais mais abrangentes, a arma do petróleo da Rússia ficará apontada cada vez mais contra ela mesma.

3. Putin quer recriar a União Soviética.

Quando Putin afirmou, em 2005, que o colapso da URSS foi "a maior catástrofe geopolítica do século" - assim como a guerra da Rússia com a Georgia, em 2008 - os vizinhos da Rússia ficaram temerosos com os seus projetos. O mesmo ocorreu com seus planos nebulosos de uma União Eurasiática, com as ex-repúblicas soviéticas e uma união alfandegária com o Casaquistão e a Bielo-Rússia, constituída recentemente. Os planos mais ambiciosos de Putin sobre uma verdadeira união política atraem principalmente os russos mais velhos e saudosistas do passado soviético. Como o próprio Putin disse: "Os que não têm saudades da URSS, não têm coração. Os que querem que ela volte, não têm juízo".

4. A vitória de Putin é um golpe esmagador para as forças favoráveis à democracia.

O segredo é que Putin pode ter vencido legitimamente e de maneira esmagadora. Dados confiáveis das pesquisas do Levada Center mostram que 35% dos eleitores estavam inclinados previamente a rejeitar a legitimidade de uma eventual vitória de Putin. Os eleitores urbanos, mais ricos e usuários mais constantes da internet, são os que se beneficiaram consideravelmente com o governo de Putin. Entretanto, é provável que considerem a vitória fraudulenta. Com as manifestações contra o governo já planejadas para esta semana e com a advertência de Putin de que líderes da oposição preparam o assassinato de um deles apenas para desacreditá-lo, o cenário está preparado para novos confrontos.

5. O antiamericanismo de Putin condenará ao fracasso os esforços americanos para melhorar as relações com a Rússia.

Manter relações com Putin, que nunca escondeu seu antiamericanismo, não é fácil para os EUA. Ele tem quase dez anos mais que o presidente Obama e gaba-se de não usar celular nem internet. Entretanto, Putin mostrou que é capaz de agir de maneira pragmática quando é do interesse da Rússia. Há inúmeras questões importantes na agenda - a não proliferação nuclear, o terrorismo, a perigosa situação no Paquistão e a incerta economia global - em torno das quais os interesses dos EUA e da Rússia mais ou menos convergem. Um líder experiente como Putin, que se orgulha de ser frio e calculista, seguramente saberá como lidar com isso.

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