Cinco mitos sobre os bilionários

Muitos ganharam fortuna com o próprio esforço e não fazem lobby apenas por questões políticas, mas também sociais

Darrell M. West/The Washington Post, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2014 | 02h03

Os bilionários podem ser pessoas fascinantes - e não apenas em razão das fortunas que amealham. Compram ilhas e empresas de comunicações, experimentam viagens espaciais e são donos de personalidades exageradas. Eles também se tornam intermediários nos debates políticos sobre crescimento econômico, desigualdade, impostos e honestidade. Há inúmeros equívocos a respeito de suas convicções, seus negócios e sua influência. Analisaremos cinco dos mitos mais comuns.

1. Os bilionários podem comprar as eleições e mudar a política de governo. Os bilionários são alvos de grande atenção por suas contribuições enormes a campanhas eleitorais: segundo o ProPublica, Sheldon Adelson e sua mulher, Miriam, gastaram pelo menos US$ 98 milhões durante a campanha de 2012. E Charles e David Koch teriam gastado US$ 290 milhões no ciclo de 2014, para ajudar os republicanos a recuperar o controle do Senado e conseguir a aprovação de medidas que limitem o papel do governo.

Mas dinheiro nem sempre é igual a poder político. As recentes eleições foram marcadas por falhas dos bilionários. Os financistas conservadores não derrotaram o presidente Barack Obama em 2012, embora tenham desembolsado centenas de milhões de dólares com essa finalidade.

O ex-prefeito de Nova York Michael Bloomberg, o principal executivo da News Corp., Rupert Murdoch, e o fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, não conseguiram convencer os membros do Congresso a aprovar uma abrangente reforma sobre a imigração. Este ano, Bloomberg está destinando US$ 50 milhões ao lobby de legisladores para a adoção de medidas brandas para reduzir a violência provocadas pelas armas, mas até o momento a campanha não produziu muita ação legislativa. Os conservadores não controlam o Congresso para rejeitar o Obamacare, apesar das numerosas campanhas nos veículos de comunicação e de seus esforços para divulgar suas falhas. Não tem havido nenhuma reforma importante nos programas assistenciais, embora muitos bilionários, até mesmo Peter Peterson e Stanley Druckenmiller, tenham advertido sobre os perigos de elevados níveis de endividamento e da necessidade de sanar os déficits de longo prazo.

Apesar de toda a atenção dedicada ao seu envolvimento na política e na defesa de causas nacionais, algumas das iniciativas mais bem-sucedidas dos bilionários ocorreram nos planos estadual e local. Peter Lewis investiu milhões no lobby para a legalização da maconha no Colorado e em Washington. Paul Singer, Seth Klarman, Bill e Melinda Gates e Jeff Bezos (proprietário do jornal The Washington Post) apoiaram o casamento entre pessoas do mesmo sexo em vários Estados. John e Laura Arnold defenderam a reforma das aposentadorias dos funcionários públicos na Califórnia, Rhode Island, Utah, Illinois e New Jersey.

2. A maioria dos bilionários é conservadora, contrária aos impostos e defende o mínimo de interferência do governo. Vários bilionários destacados são conservadores na questão do livre mercado e querem limitar o papel do governo na economia. Mas minha análise dos dados apresentados pela revista Forbes mostra que os 492 bilionários dos Estados Unidos têm interesses variados. Por exemplo, James Simons e Jeffrey Katzenberg apoiaram as iniciativas para a reeleição de Obama e financiaram causas liberais e moderadas. Warren Buffett acredita que, como bilionário, ele deveria pagar impostos mais altos do que sua secretária.

Outros falaram sobre a necessidade de tratar do problema da desigualdade da renda. Há um número de bilionários libertários cujos esforços para manter o governo fora dos assuntos pessoais são mais conservadores na questão dos impostos, mas liberais em questões sociais.

3. A maioria dos bilionários herdou sua fortuna. Segundo a Wealth-X e a UBS Financial Services, que acompanha os indivíduos de maior valor de mercado, cerca de 65% dos bilionários se fizeram por própria conta. Um número surpreendente, incluindo Steve Jobs e Marc Andreessen, é originário de famílias modestas ou de classe média. Eles começaram com escassos recursos financeiros, mas graças a ideias inovadoras e a uma grande visão construíram companhias bem-sucedidas e se tornaram enormemente ricos. O fato de terem enriquecido por seus esforços determina sua perspectiva e frequentemente cria uma mentalidade segundo a qual eles merecem ficar com os frutos de seu trabalho.

Essa é uma das razões pelas quais muitos deles ficaram preocupados quando o presidente Obama falou a respeito de toda a ajuda que os empresários recebem do governo em seu discurso de campanha de 2012 intitulado "Vocês não construíram isso", em que declarou que, "se vocês tiveram sucesso, não chegaram lá pela própria conta". Os indivíduos que se fizeram por seus esforços pessoais nos EUA orgulham-se de seu espírito de iniciativa e de seu duro trabalho - e não gostam de serem caracterizados como pessoas que desfrutam da ajuda do governo em matéria de política fiscal, de investimentos em gastos com educação e infraestrutura, embora muitos deles tenham se beneficiado das políticas do governo. Por exemplo, os impostos sobre ganhos de capital de ativos financeiros de longo prazo tendem a ser menores do que os impostos que incidem sobre a renda comum e os impostos sobre bens imóveis foram reduzidos drasticamente nos últimos dez anos. Essas decisões políticas contribuíram para os indivíduos ricos crescerem e aumentarem suas fortunas.

4. Eles só se preocupam em ganhar dinheiro. Sem dúvida, o dinheiro é um grande motivador, mas muitos bilionários também têm objetivos não materiais. Pessoas como George Soros, Sheldon Adelson e Pierre e Pamela Omidyar percebem problemas de política nos EUA e ao redor do mundo e querem contribuir com suas ideias. Soros, por exemplo, fundou organizações beneficiando as bases que defendem a reforma do sistema penitenciário e a liberdade de expressão. Adelson é um grande defensor das causas pró-Israel. O casal Omidyar apoia novas plataformas de mídia destinadas a melhorar a compreensão dos cidadãos a respeito da vigilância por parte do governo.

Ao contrário das gerações anteriores de indivíduos ricos que deixavam a maior parte de suas obras filantrópicas para depois da própria morte, vários bilionários da atualidade estão empenhados em sérios programas de filantropia por meio de fundações ou organizações sem fins lucrativos. Cerca de 10% - como Sara Blakely, Richard Branson e Steve e Jean Case - assinaram a Promessa de Doação, concordando em doar mais da metade de suas fortunas a causas beneficentes durante a vida ou em seus testamentos. Eles consideram isso uma maneira de recompensar uma sociedade que lhes concedeu tantas oportunidades.

5. A melhor maneira de se tornar um bilionário é trabalhar em Wall Street. Os formandos das melhores universidades fazem fila diante das firmas de Wall Street na esperança de obter cargos lucrativos. Muitos acreditam que esse é o setor que apresenta as melhores chances de gerar riqueza. Mas minha análise da lista de bilionários da Forbes mostra que apenas 9% dos bilionários construíram suas fortunas por meio das finanças e da atividade bancária. Os caminhos mais comuns para a riqueza são as empresas diversificadas (18% de todos os bilionários); o setor imobiliário, da construção civil e da hotelaria (15%) e o varejo de bens de consumo (14%).

Com base em minha análise dos jovens bilionários, 42% deles acumularam suas fortunas graças às empresas de tecnologia. Isso levou à criação daquilo que o diretor executivo da Wealth-X, Mykolas Rambus, chama de "tecnoempreendedores". Bilionários da tecnologia como Mark Zuckerberg, Larry Page, Serguei Brin, Paul Allen e Sheryl Sandberg estão bem posicionados para transformar outras partes da sociedade, desde o ensino e o sistema de saúde até a filantropia e a pesquisa acadêmica. Eles amam perturbar o status quo; muitos deles já são pioneiros em novas abordagens para a caridade. Terão uma influência dramática no futuro do planeta - e virtualmente nenhum deles veio de Wall Street. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Darrell M. West é cientista político da Brookings Institution

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