Cinco mitos sobre os gastos da Defesa

Uma maior redução no orçamento não tornará os EUA mais vulneráveis nem diminuirá seu predomínio militar

Gordon Adams & Matthew Leatherman, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2011 | 00h00

Os gastos da Defesa constituem uma parte considerável do orçamento federal dos EUA - e um motivo de debate igualmente considerável, tanto em tempo de paz quanto em tempo de guerra. Com o aumento das pressões fiscais, o secretário da Defesa Robert Gates mostrou em detalhes a necessidade de se estabelecer novas prioridade para os recursos do Pentágono e de um corte de US$ 78 bilhões dos gastos previstos para o departamento nos próximos cinco anos. Mas ele também afirmou que, "na questão do déficit, o problema não é o Departamento da Defesa".

Mas os US$ 720 bilhões destinados à Defesa representam uma enorme parcela dos gastos federais - mais da metade deles em 2010. Não é mais possível separar os imperativos da segurança nacional dos imperativos fiscais. Infelizmente, vários mitos impedem que nosso orçamento da defesa seja mais disciplinado.

1. Os gastos da Defesa são determinados pelas ameaças que enfrentamos. Os desafios causados pelo terrorismo, pelas ameaças cibernéticas e pelo aumento das forças militares de possíveis adversários influem na elaboração da nossa estratégia para a segurança nacional, e do orçamento para a defesa. Mas o mesmo ocorre com as várias prioridades do governo, todas igualmente importantes, diante de recursos limitados, de interesses políticos e burocráticos, e da influência da indústria da defesa. Consequentemente, as decisões em matéria de orçamento podem parecer equivocadas.

2. Quanto maior o orçamento destinado ao Pentágono, mais seguro o país estará. Ao contrário, os gastos excessivos com a defesa podem nos tornar menos seguros. Os países sentem-se ameaçados quando seus rivais intensificam as defesas; foi o que aconteceu na Guerra Fria, e agora pode acontecer com a China. Foi assim que nasceram as corridas armamentistas. Gastamos mais, inspirando os concorrentes a fazer o mesmo - inflando, desse modo, os orçamentos da defesa sem que ninguém deva se considerar mais seguro por isto.

3. Os republicanos gostam dos gastos com a Defesa; os democratas não. Desde 1945, os gastos da Defesa subiram em tempo de guerra e caíram no final dos conflitos. Dwight Eisenhower reduziu em 28% os recursos destinados à Defesa em relação ao pico alcançado em 1953 na Guerra da Coreia. Os presidentes Richard Nixon e Gerald Ford foram ainda mais longe, cortando 37% do orçamento após o ápice da Guerra do Vietnã, em 1968. E, na época em que deixou o cargo, o presidente George H. Bush havia cortado 14% dos gastos. Todos esses presidentes eram republicanos. Ao mesmo tempo, depois de ajustado pela inflação, o orçamento da Defesa mais caro em mais de 60 anos é o de Barack Obama, um democrata. Evidentemente, os democratas também conseguiram economizar no Pentágono.

4. Os níveis dos atuais salários e benefícios dos militares são necessários. Como em qualquer outro mercado de trabalho, a oferta e a procura de mão de obra determinam o salário necessário para a manutenção de um militar profissional. Mas os salários e os benefícios pagos aos militares são afetados por outros fatores: o Congresso aprendeu que o aumento da remuneração do pessoal militar é a maneira mais fácil de mostrar que o país apoia as tropas.

5. Os cortes previstos por Gates são suficientes. São um pequeno passo na direção correta. Conforme um estudo publicado na revista Foreign Affairs, as propostas sobre o orçamento da Defesa poderiam ser reduzidas em US$ 1 trilhão até 2020, permitindo que gastássemos US$ 6,3 trilhões nesse período. Isso pode ser feito mantendo nosso predomínio militar e preparando uma força mais efetiva e eficiente. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

ADAMS É PROFESSOR DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS NA AMERICAN UNIVERSITY E MEMBRO EMÉRITO DO STIMSON CENTER. MATTHEW LEATHERMAN É PESQUISADOR ASSOCIADO DO STIMSON CENTER.

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