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Cinco mitos sobre os tumultos nos EUA

Os distúrbios levam a alguma coisa? Há sempre estranhos para responsabilizar? Repressão policial resolve?

CATHY LISA, SCHNEIDER, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2015 | 02h02

Na segunda-feira, após o funeral de Freddie Gray, que morreu depois de ter sua medula ferida quando estava sob a custódia policial, os protestos pacíficos em Baltimore transformaram-se em confrontos violentos entre a polícia e jovens armados com pedras. À noite, carros e lojas foram incendiados. Os turbulentos tumultos em Baltimore, precedidos pelas violentas manifestações em Ferguson, no Missouri, em agosto e novembro, reacenderam velhos equívocos e inverdades sobre quem se revolta e por quê.

1 -Os tumultos são provocados por agitadores e ativistas de fora.

Nova York colocou a culpa em "agitadores de fora" pelas violências ocorridas em 1964. Em Ferguson, as autoridades agiram da mesma maneira no ano passado. Agora, o departamento de polícia insiste que "agitadores de fora" continuam a "instigar atos de violência e destruição". Mas esses tumultos violentos quase sempre envolvem moradores da localidade. Em Ferguson, somente 21% das pessoas detidas em agosto não eram do Missouri. E dos 31 adultos presos em Baltimore, apenas três não eram de Maryland.

Os mais envolvidos nos tumultos normalmente são jovens de áreas desfavorecidas que foram virtualmente ocupadas pela polícia. Normalmente, eles se sentem impotentes diante da brutalidade policial.

Quando as revoltas irrompem, o equilíbrio de forças momentaneamente se inverte e os jovens comumente intimidados pela polícia experimentam uma sensação de poder e liberdade. Ativistas, pelo contrário, raramente participam de rebeliões. Mais confiantes na sua capacidade de provocar mudança social, os ativistas experientes tendem a canalizar a ira da comunidade para formas não violentas de ação coletiva. Sua presença na verdade reduz a probabilidade de tumultos.

2 -A melhor maneira de se conter um tumulto é a ação policial e a repressão.

Na noite de terça-feira, 1,7 mil soldados da Guarda Nacional chegaram a Baltimore em veículos militares. A polícia com frequência reage aos manifestantes com gás lacrimogêneo e balas de borracha, como vimos em Anaheim em 2012, em Ferguson e Baltimore.

Mas é a violência policial, em particular a morte de menores desarmados, que muitas vezes desencadeia as revoltas urbanas, de modo que a repressão policial prolonga o conflito. Em Anaheim, os ataques contra manifestantes não violentos com gás lacrimogêneo e balas de borracha transformaram protestos pacíficos numa rebelião. Para alguns pesquisadores, a simples presença de armas aumenta a probabilidade de mais violência.

Uma enorme mobilização policial não é o único recurso para evitar um tumulto. Em 1968, quando o assassinato de Martin Luther King desencadeou uma convulsão social em Detroit, Chicago, Newark e Washington, Nova York permaneceu calma. O prefeito John Lindsay sabia que muitos tumultos irrompem em bairros onde a relação entre a polícia e a comunidade está deteriorada. O policiamento é muito importante para ficar nas mãos somente da polícia, concluiu Lindsay. Ao assumir a prefeitura, em meados dos anos 60, ele quis dar às minorias mais controle da situação criando forças-tarefa em bairros "explosivos" e contratando jovens para um trabalho de comunicação e manutenção da paz.

Os jovens mantinham as autoridades municipais informadas sobre assuntos potencialmente controversos. Durante uma década de pesquisa etnográfica em Nova York para um livro, descobri que grande parte desse trabalho de ligação forjou organizações com um comportamento não violento para combater a brutalidade policial. Em parte, elas são a razão pela qual os tumultos ainda são raros em Nova York, mesmo depois de a violência policial ter aumentado em 1994 com a implementação da estratégia da tolerância zero pela polícia.

3 -Os agitadores estão defendendo pessoas que cometeram crimes.

Mortes ou ferimentos provocados por policiais frequentemente desencadeiam tumultos, mas com frequência as vítimas são as acusadas - "tinha um registro policial", "não deveria ter corrido", "não deveria ter resistido", "não deveria ter procurado tirar a arma do policial". Mas os agitadores estão reagindo a antigos problemas e não só a um ato policial em particular, que pode ser sintoma de um problema sistêmico. Como a polícia não tem obrigação de reportar uso de força letal, tende a informar os incidentes que envolveram "resposta a disparos" ou posse de arma. Mas muitas cidades discretamente aprovaram leis sobre mortes injustificadas e outros comportamentos equivocados que resultam num gasto de milhões de dólares ao ano. Nos últimos anos, Nova York pagou em torno de US$ 100 milhões ao ano para encerrar ações impetradas contra a brutalidade da polícia. Baltimore pagou US$ 6 milhões em ações judiciais desde 2011. Além disso, mais de 70% das acusações de resistência à prisão em Nova York foram apresentadas por 15% dos policiais, o que indica que tais acusações têm mais a ver com a conduta do policial que faz a prisão do que com as pessoas que estão sendo detidas.

4 - A prisão em massa de negros levou a uma queda dos tumultos.

Desde meados até o fim dos anos 70, o número de distúrbios de rua nos EUA diminuiu drasticamente, o que se atribuía ao fato de que mais homens pertencentes às minorias estavam na prisão. Como afirmou a socióloga Pamela Oliver, "o aspecto crucial que deve ser compreendido é que uma estratégia repressiva desencadeada inicialmente pelos distúrbios urbanos em massa e outros movimentos sociais foi mantida e ampliada muito tempo após os distúrbios se acalmarem. Seu objetivo não era prevenir a agitação reprimindo o tumulto, era impedir as agitações reprimindo potenciais agitadores - ou seja, removendo as pessoas do sistema antes de cometerem a ação indesejada".

As prisões em massa tiveram um impacto devastador sobre homens latinos e negros, mas em nada contribuíram para reduzir a frequência dos tumultos desde a década de 70. Uma revolta gigantesca ocorreu em Los Angeles em 1992, quando o número de prisões na Califórnia ficou bem acima da média. O Estado do Missouri, onde se verificaram os tumultos de Ferguson, está em 10.º lugar em número de presos. Baltimore tem uma das maiores taxas de prisões entre as cidades dos EUA.

5 - Distúrbios não levam a nada.

É o que afirmam inúmeros especialistas, colunistas e políticos. Como insistiu a prefeita de Baltimore, os tumultos desviam a atenção dos problemas reais. "É idiotice achar que destruindo sua cidade vocês tornarão a vida melhor para todos", disse. "Muitas pessoas passaram gerações construindo esta cidade para ela ser destruída por arruaceiros que, de um modo estúpido, estão tentando destruir algo pelo qual tantos lutaram." Os revoltosos em Ferguson colocaram o problema da violência policial na agenda do governo. Foi apenas quando Ferguson ficou em chamas que o Departamento de Justina investigou e condenou as violações de direitos civis praticadas na cidade. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É PROFESSORA DE SOCIOLOGIA E

ESTUDOS INTERNACIONAIS NA

AMERICAN UNIVERSITY

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