CINCO PERGUNTAS PARA...Paulo Sérgio Pinheiro, brasileiro encarregado de investigar massacres na Síria

1. Qual foi o objetivo da viagem a Damasco?

O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2012 | 03h02

No ano passado, tinham feito um convite similar e não pude ir. Aceitei agora porque já estamos há quase um ano fazendo investigações, mas sem ir à Síria. Montei um programa de visitas e muito do que pedi foi atendido nos dois dias em que estive lá. Mantive longas reuniões com membros do governo, que relataram suas perspectivas e eu expliquei nosso trabalho. Fui para convencer o governo de que não é só de nosso interesse que tenhamos acesso ao país. Mas deles mesmo, até para ter sua versão em nossos relatórios sobre a situação em Hula. Encontrei ainda com o presidente da comissão nacional que investiga os crimes e com o patriarca sírio.

2. Qual a situação dos cristãos sírios diante do conflito?

Essa relação com os cristãos é sempre tensa. Nas 15 igrejas em Damasco, o patriarca me confirmou que não ocorreu nada ainda. Mas não é a mesma coisa em Homs. Atacaram uma igreja e a transformaram em centro de operações de grupos armados. Vi vídeos com cenas que pareciam as da Guerra Civil espanhola, com militantes vestidos de padre, com crucifixo na mão.

3. Mas até que ponto os grupos armados são responsáveis por mortes hoje?

Um dos encontros mais interessantes que tive foi com 20 famílias que tiveram maridos, pais e irmãos assassinados por grupos armados por terem sido leais ao governo. Um deles foi morto porque o pai participou da repressão do regime Hafez Assad (pai de Bashar Assad). Outro foi morto porque é irmão de um funcionário público. Ou seja, não é apenas um conflito sectário.

4. Como o sr. vê a crise hoje e o massacre de Hula?

A situação no campo mudou muito e é nesse contexto que está a crise em Hula. Estamos vendo quase uma guerra de insurreição. Há muito mais armas, melhores formas de comunicação e grupos armados estão presentes em quase todo o país. Calcula-se que cerca de cem grupos estejam atuando. Nem todos fazem parte da mesma linha. Do outro lado, há um governo que amplia a violência.

5. Quem é o responsável pelo massacre?

O relatório não traz uma conclusão. Algumas mortes foram cometidas por forças do governo, eventualmente por bombardeios. Mas não excluímos a possibilidade de que grupos armados estiveram envolvidos. Um terceiro elemento é a presença de grupos armados estrangeiros. Se o Plano Annan (que se destinava a cessar as hostilidades e promover o diálogo) não foi realizado, houve uma ampla contribuição do governo, mas grupos armados também contribuíram para que ele não fosse adiante. / J.C.

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