AFP PHOTO / KENA BETANCUR
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Cinco perguntas sobre o acordo de paz entre governo e Farc após plebiscito na Colômbia

Clima é de incerteza quanto ao futuro do país e, neste momento, surgem mais perguntas do que respostas a respeito do que virá

O Estado de S.Paulo

04 de outubro de 2016 | 10h44

BOGOTÁ - A rejeição no plebiscito de domingo ao acordo de paz entre o governo colombiano e a guerrilha das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) para pôr fim a 52 anos de conflito armado provoca mais perguntas do que respostas sobre o futuro do país. "Incerteza total", "limbo jurídico", "salto no nada", foram as frases mais repetidas por analistas após a vitória do "não" (com 50,21% dos votos) nas urnas. Veja abaixo os principais questionamentos a respeito do pacto após o resultado da decisão popular.

O que acontecerá com a negociação?

O presidente Santos e sua equipe de negociadores disseram antes da votação que o acordo com as Farc era o "melhor possível" e asseguraram que não havia "espaço para reabrir as negociações", como pediam os partidários do "não", liderados pelo ex-presidente Álvaro Uribe.

No entanto, o analista para Colômbia do International Crisis Group, Kyle Johnson, assegurou que a partir de agora surgirão "três negociações". "A primeira, entre a oposição e o governo, sobre a possibilidade de renegociarem alguns temas do acordo. A segunda é que o resultado dessa negociação terá que ser ajustado com as Farc. E a terceira é o acordo interno das Farc, que terão de tomar difíceis decisões e ver como as apresentarão aos seus guerrilheiros", disse Johnson.

Tanto Uribe quanto a guerrilha mostraram seu interesse em solicitar uma Assembleia Constituinte para reprojetar a política colombiana. Ainda que Johnson tenha assegurado que essa opção não pode ser descartada, para ele o resultado do plebiscito pode deixar a guerrilha mal representada.

O que ocorrerá em termos de segurança pública?

Como parte do acordo de paz, as Farc e o governo mantêm um cessar-fogo bilateral desde o dia 29 de agosto. Mesmo que Santos tenha dito que se o "não" ganhasse a guerra voltaria, no domingo tanto o presidente como os líderes da guerrilha anunciaram sua intenção de manter as armas "em silêncio".

O cientista político Frédéric Massé, da Universidade Externado de Colômbia, destacou como positivo que ambas as partes tenham decidido resgatar a "principal conquista" do acordo, que é o cessar-fogo.

"O retorno à guerra parece improvável em um curto prazo porque as Farc disseram que não querem, os uribistas afirmaram sua vontade de renegociar e o governo quer seguir adiante. O que sei é que o cessar-fogo fica mais frágil", disse Massé.

Como a trégua era supervisionada pelas Nações Unidas, resta saber se o organismo internacional continuará fiscalizando após o resultado eleitoral.

Como fica a liderança de Santos e Uribe?

Para Jorge Restrepo, diretor do Centro de Recursos para a Análise de Conflitos (Cerac), Uribe sai "sem dúvidas como um vitorioso". Entretanto, o líder opositor "não tem como materializar esse poder político em médio prazo" e ainda que tenha "bloqueado o acordo quando lhe deram a oportunidade, não tem o poder para fazer um novo acordo", alertou o analista.

Santos, no entanto, "terminará mal o seu mandato" em 2018, segundo Massé. "É muito habilidoso, mas é certo que agora a correlação de forças muda e Uribe cobrará isso.”

Em que posição ficam as Farc?

Ainda que estejam decididas a deixar suas armas e se tornar um partido político, segundo disse o líder guerrilheiro Rodrigo Londoño - conhecido como “Timochenko” - após o plebiscito, dentro das Farc "o resultado pode provocar debates ou inclusive a radicalização de alguns setores", segundo Massé.

Veja abaixo: Colômbia vive momento de incerteza

No entanto, Restrepo apontou que "em um curto prazo as Farc ficam demasiadamente poderosas com o capital político que construíram no processo". "Conquistaram um acordo favorável para elas e também conseguiram demonstrar que têm o controle, que podem renunciar ao lucro do crime organizado, que podem pedir perdão", explicou.

Qual é o impacto internacional do resultado plebiscito?

Os países vistos como garantidores do processo, como Cuba e Noruega, ou como acompanhantes, como Chile e Venezuela, permanecem comprometidos. Mesmo com o envio de fundos e de pessoal para supervisionar o pacto, como a ONU tem feito, os países continuarão atentos a tudo o que acontece com a paz da Colômbia.

"A comunidade internacional estava fazendo planos para a implementação dos acordos e agora deverá ver como apoiará uma solução negociada que inclua, de alguma forma, a oposição, e como assegurará que o processo chegue a um acordo e que não voltem à guerra. Esse resultado não muda o posicionamento da comunidade internacional, mas sim sua aproximação do assunto", explicou Johnson. / AFP

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