AFP PHOTO / Guillermo Arias
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Cinco pontos para entender a vitória de López Obrador no México

Vencedor com ampla margem de votos, político esquerdista representa rejeição dos mexicanos aos partidos conservadores tradicionais no país

O Estado de S.Paulo

02 Julho 2018 | 11h48

CIDADE DO MÉXICO - Depois de 18 anos de continuismo político, os mexicanos elegeram como presidente o candidato de esquerda Andrés Manuel López Obrador no domingo, 1º de julho. A vitória foi ampla, com mais da metade dos votos de vantagem para o segundo colocado - a maior margem de vitória desde que o país fez a transição para a democracia, há quase 20 anos. 

Entenda cinco pontos sobre a vitória de López Obrador no México:

Rejeição do status quo

Para compreender o forte apelo de López Obrador entre os mexicanos, é preciso primeiro compreender a recente história eleitoral do país. Entre 1929 e 2000, a política foi dominada pelo Partido Revolucionário Institucional (PRI), do atual presidente, Enrique Peña Nieto. Em seguida, veio o conservador Partido de Ação Nacional (PAN), liderado por Vicente Fox. A chegada de um novo partido após sete décadas de partido único despertou esperança entre os mexicanos, que acabaram se frustrando.

A pobreza permaneceu e a corrupção não foi controlada. Felipe Calderón, do PAN, foi eleito para a presidência em 2006 e mobilizou os militares contra os cartéis de drogas. No entanto, mais de uma década depois, mais de 100 mil foram mortos e a violência está em níveis recordes. 

Peña Nieto voltou em 2012, vendendo um PRI melhorado, mas as promessas não se cumpriram e seu governo foi exposto em escândalos de corrupção, além de não er combatido os altos níveis de violência e desigualdade.

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Hoje, quase metade da população mexicana vive abaixo da linha da pobreza. Após 18 anos de decepções atrás de decepções, a população anseia pela mudança, o que pode explicar como López Obrador, que foi rejeitado duas vezes pelo eleitorado, em 2006 e 2012, tenha se saído tão bem.

O fator Trump

Na noite do domingo 1º, o presidente Donald Trump parabenizou López Obrador pela vitória e disse estar ansioso para conhecê-lo. Este foi o começo esperançoso para um possível novo capítulo entre México e Estados Unidos, que está no pior momento dos últimos anos.

Trump tem ameaçado o México desde que anunciou sua candidatura, criticando imigrantes mexicanos, ameaçando abandonar o Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (Nafta) e prometendo construir um muro entre os dois países. 

Apesar de ser esquerdista, López Obrador pode ser comparado a Trump em seus impulsos nacionalistas, na retórica populista e na personalidade combativa. Mas já demonstrou agressividade em relação aos EUA e não deixou dúvidas de que está preparado para enfrentar Trump na defesa dos interesses do México.

Os imensos desafios do México

Os problemas crônicos sobre os quais López Obrador fez campanha agora se tornam os principais problemas a resolver. Entre eles está a corrupção. Durante a campanha, ele deu poucos detalhes de como pretende enfrentar o problema, mas disse que lideraria pelo exemplo, afirmando que sua honestidade e pureza fluiriam pelo governo, modificando a cultura da nação.

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O esquerdista também herda um país que se recupera da violência desenfreada e um sistema de segurança pública anêmico e corrupto. Em maio, mais homicídios foram registrados do que em qualquer outro mês desde que o governo começou a contabilizar os crimes, há duas décadas, e 2017 foi o ano mais violento desde então.

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López Obrador também terá que cumprir as promessas para combater a pobreza generalizada e a desigualdade crescente. Suas propostas expandem os gastos com programas sociais, incluindo o aumento de aposentadoria para cidadãos mais velhos, a ampliação de oportunidades educacionais para estudantes e de subsídios para agricultores.

Remodelando a política mexicana?

A vitória de López Obrador coloca um político de esquerda à frente do México pela primeira vez em anos e representa ampla rejeição aos dois partidos que representam o establishment político. 

O resultado foi particularmente ruim para Peña Nieto e seu partido, PRI, que não apenas perderam a presidência, como também espaço no Congresso e a maioria dos governos estaduais. O partido já foi a força motriz da política mexicana, mas os resultados de domingo colocam o PRI em crise existencial e tornam seu futuro incerto.

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Para o PAN, as perspectivas também são incertas. Seu candidato, Ricardo Anaya, é considerado um dos mais ágeis e ambiciosos políticos mexicanos e pode se colocar como líder da oposição, de olho na eleição de 2024.

Investidores observam com cautela

Durante a campanha, López Obrador enfrentou acusações de que afundaria a economia. Chegou a ser comparado com Hugo Chávez, ex-líder da Venezuela morto em 2013, e notícias questionáveis tentaram ligar sua campanha à Rússia, para criar a imagem de um líder radical e perigoso. 

Mesmo que as comparações com Chávez sejam exageradas e não haja provas da conexão com os russos, o novo presidente mexicano ainda deve convencer os investidores de que suas políticas serão favoráveis para os negócios. López Obrador prometeu ambiciosos programas sociais, assegurando aos investidores de que vai exercitar prudência fiscal e respeitará a independência do banco central mexicano.

As promessas foram repetidas em seu discurso de vitória. A questão é como vai pagar pelos programas sociais. Seus assessores estimam que os gastos correspondem a cerca de 10% do orçamento federal, cerca de US$ 25 bilhões por ano. Ele promete pagar a conta com a redução do desperdício e da corrupção, mas analistas questionam se as medidas serão suficientes. 

Os investidores também devem observar sua abordagem da reforma energética, que abriu vastas partes da indústria para o investimento privado e criou compromissos na casa de US$ 80 bilhões para explorar e produzir petróleo. López Obrador tem sido feroz opositor das tentativas de privatizar a indústria petrolífera, mas disse que vai respeitar os contratos existentes e o Estado de Direito. / NYT

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