REUTERS/Jonathan Ernst
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Cinco principais conclusões sobre o plano de infraestrutura de US $2 trilhões de Biden

A proposta de Biden inclui muito mais do que estradas e pontes, e a matemática da Casa Branca é confusa sobre como irá custear a alta cifra

Heather Long, The Washington Post

01 de abril de 2021 | 12h01

WASHINGTON- O presidente Joe Biden está começando uma campanha para que sua segunda grande iniciativa no governo - um enorme pacote de infraestrutura - seja implementada até o verão (do Hemisfério Norte).

Atualizar a infraestrutura do país estava na lista de desejos do presidente Donald Trump, mas ele não foi capaz de fazê-lo. Biden está ansioso para mostrar que pode entregar algo em que o último presidente falhou. Recuperar a infraestrutura do país tem amplo apoio em toda arena política porque cria empregos e alavanca de forma tangível quase todas as comunidades do país. O impasse no Congresso americano sempre foi como pagar por essas reformas estruturais: aumentar impostos e pedágios, cortar outros programas ou endividar-se mais?

O que está no plano de infraestrutura e empregos de US $ 2 trilhões de Biden?

Biden está optando, majoritariamente, pela opção de aumento de impostos. Ele está propondo aumento de impostos para empresas. Já existe resistência de líderes empresariais que afirmam que isso prejudicará a competitividade dos Estados Unidos. E há um coro sonoro questionando a matemática da Casa Branca que diz que oito anos de gastos com infraestrutura seriam pagos por 15 anos de impostos mais altos sobre as empresas.

Enquanto Biden faz sua apresentação inicial de seu plano de infraestrutura, aqui estão as principais conclusões.

1. Existe um consenso geral de que há muito tempo não se faz reformas.

A Sociedade Americana de Engenharia Civil dá aos EUA a nota “C-” para a infraestrutura do país, ao sublinhar que quase quatro em cada 10 pontes têm mais de meio século de idade e que uma tubulação de água se rompe a cada dois minutos. Na maioria das cidades em todo país, as pessoas podem apontar rapidamente para estradas, pontes, canos, portos e aeroportos que parecem antiquados - e perigosos.

E também há a falta de internet eficaz em algumas partes dos Estados Unidos. As consequências de não haver internet de alta velocidade adequada ficaram evidentes durante a pandemia, quando os alunos de baixa renda abandonaram as escolas e as universidades porque não tinham acesso suficiente à internet para assistirem às aulas online.

A Casa Branca está apresentando um plano de empregos como uma forma de os Estados Unidos acompanharem outras nações que estão investindo pesadamente em todos os diferentes tipos de infraestrutura, especialmente a China.

2. O plano inclui mais do que estradas e pontes, uma questão polêmica.

Cerca de metade do plano de Biden vai para a infraestrutura tradicional. Ele pede cerca de US $ 620 bilhões para estradas, portos e pontes, incluindo cerca de US $ 100 bilhões para levar internet de alta velocidade a todos os americanos. Há outros US $ 111 bilhões para substituir canos de chumbo velhos, tornando a água potável mais segura, e US $ 100 bilhões para recapacitação para que os trabalhadores americanos possam conseguir empregos mais qualificados.

A outra metade do projeto de lei faz investimentos para reduzir as mudanças climáticas e modernizar escolas, centros de manufatura e instalações de atendimento ao idoso. A Casa Branca argumenta que isso também deve ser visto como uma infraestrutura sensível, mas outros a enxergam como uma prioridade partidária dos democratas.

 Este segundo US $ 1 trilhão do plano seria destinado onde grande parte do debate se concentra. Biden terá que escolher, como fez no pacote de estímulos, se vai tirar parte de seu orçamento para tentar ganhar votos do Partido Republicano ou se o manterá em seu plano e aprovar o projeto com apenas votos dos democratas.

Por exemplo, a proposta pede US $ 400 bilhões para habitação para idosos e deficientes, mais de US $ 200 bilhões para modernizar moradias públicas, residências de baixa renda e US $ 100 bilhões para reformar escolas. Há também US $ 300 bilhões para reviver a manufatura nos Estados Unidos, incluindo um grande investimento em energia limpa e pesquisas sobre mudanças climáticas e US $ 50 bilhões na manufatura de semicondutores nos Estados Unidos. Biden também deseja incluir a Lei de Proteção ao Direito de Organização, que tornaria mais fácil para os trabalhadores se organizarem em sindicatos.

3. Biden quer aumentar os impostos sobre as empresas.

Para financiar seu plano de mais de US $ 2 trilhões, Biden está pedindo às empresas que paguem por ele. Trump decretou o maior corte de imposto corporativo da história dos Estados Unidos, reduzindo a taxa de imposto empresarial de 35% para 21%. Biden quer aumentá-lo para 28%. O plano também prevê que as empresas assumam ao menos alguns impostos, com a imposição de um imposto mínimo de 15% sobre a renda e a tributação de parte da renda estrangeira de grandes corporações globais para desencorajá-las de transferir suas operações a paraísos fiscais.

A teoria econômica clássica diz que um aumento de impostos terá alguns efeitos negativos, como menos investimentos ou contratações. Mas muitos economistas democratas dizem que os aspectos positivos superam os negativos e que as empresas podem lidar com esse novo nível de tributação. Eles apontam que este é um grande investimento que facilitará os negócios nos Estados Unidos.

Mas grupos empresariais como a Câmara de Comércio dos EUA já estão contra-atacando, dizendo que isso pode tornar mais difícil para as empresas americanas competirem com as estrangeiras que têm taxas de impostos mais baixas. Eles dizem que essas grandes melhorias deveriam ser pagas por um grupo mais amplo de pessoas que as usam, como pedágios nas estradas ou aumento do imposto sobre o gás.

4. Biden está usando matemática difusa para dizer que o plano está pago.

A Casa Branca já está sendo criticada por retratar isso como um plano que é “pago” por aumentos de impostos, quando os números não batem.

A proposta prevê gastos de cerca de US $ 2,3 trilhões em oito anos, mas levaria 15 anos para que os aumentos de impostos propostos gerassem essa quantia. Não é assim que o orçamento normalmente funciona.

“Dito de outra forma, cerca de metade dos gastos serão pagos”, disse Shai Akabas, diretor de política econômica do Centro de Política Bipartidária.

A maneira padrão de ver os gastos dessa maneira é somar quanto custam em uma década e quanto desse custo é pago ao longo da mesma janela de 10 anos. Os aumentos de impostos propostos geram apenas cerca de US $ 1,5 trilhão ao longo de uma década, o que significa que este plano adicionaria cerca de US $ 1 trilhão à dívida dos EUA.

5. É provável que isso traga empregos com boa remuneração.

Os Estados Unidos ainda têm quase 10 milhões de desempregados – cifra maior do que os piores dias da Grande Recessão. Embora muitos economistas prevejam um boom neste verão, à medida que a maioria dos americanos se vacinar, começar a viajar e a jantar fora novamente, ainda é provável que haja pessoas deixadas para trás. Espera-se que essa conta de infraestrutura crie muitos empregos bem remunerados. O salário típico de uma remuneração na construção é de cerca de US $ 30 por hora, de acordo com o Departamento do Trabalho, o que é significativamente um valor mais alto do que o salário médio de US $ 19 por hora para todos os empregos nos Estados Unidos.

Biden é assombrado pela retomada econômica sem empregos que ocorreu após a Grande Recessão, quando demorou quase uma década para que todos voltassem ao trabalho. É por isso que ele almejava o grande pacote de ajuda à covid-19, aprovado no início de março. Este pacote de infraestrutura é outro esforço para garantir que os empregos retornem rapidamente.

Embora grande parte do dinheiro do plano de alívio à covid-19 de US $ 1,9 trilhão de Biden deva ser gasto nos próximos seis meses, este pacote de infraestrutura de US $ 2 trilhões da primeira rodada injetaria dinheiro na economia americana nos próximos anos, ajudando a dar um impulso extra nos empregos e na economia do país ao longo do primeiro mandato de Biden.

 

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