Cinco princípios para o Iraque

Há muitas questões que precisam ser respondidas antes de os EUA considerarem intervir

THOMAS L., FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2014 | 02h04

A desintegração do Iraque e da Síria está contrariando uma ordem que definiu o Oriente Médio por um século. É um evento enorme e os Estados Unidos devem pensar com muito cuidado sobre como reagir a ele. Tendo voltado do Iraque há duas semanas apenas, minha opinião pessoal é guiada por cinco princípios, e o primeiro é que no Iraque de hoje, o inimigo de meu inimigo é meu inimigo. Além dos curdos, os EUA não têm nenhum amigo nesta luta. Nem os líderes sunitas nem os líderes xiitas que encabeçam a guerra no Iraque hoje compartilham os valores americanos.

Os jihadistas sunitas, baathistas e milicianos tribais que comandaram a tomada de Mossul do governo iraquiano não são defensores de um Iraque democrático, pluralista, o único Iraque que os EUA têm algum interesse em encorajar. E o primeiro-ministro xiita do Iraque, Nuri al-Maliki, já mostrou não ser um adepto de um Iraque democrático e pluralista. Desde seu primeiro dia no cargo, ele o usou para instalar xiitas nos postos-chave de segurança, afugentar políticos e generais sunitas e direcionar dinheiro para comunidades xiitas. Em poucas palavras, Maliki foi um perfeito idiota. Além de ser premiê, ele se nomeou ministro da Defesa em exercício, ministro do Interior e consultor de segurança nacional, e seus apadrinhados controlam também o Banco Central e o Ministério das Finanças.

Maliki tinha uma escolha - governar de maneira sectária ou de maneira inclusiva - e escolheu o sectarismo. Os EUA não lhe devem nada.

O segundo princípio para mim deriva da pergunta mais importante que precisa ser respondida desde a Primavera Árabe. Por que os dois Estados que estão se saindo melhor são aqueles nos quais os EUA menos interferiram: Tunísia e a semiautônoma região curda do Iraque? Resposta: acreditem ou não, nem tudo tem a ver com o que nós fazemos e as escolhas que fazemos. Árabes e curdos também têm uma agenda. E a razão porque tanto Tunísia quanto Curdistão construíram ilhas de decência, ainda frágeis por certo, é que as principais forças políticas em disputa em cada lugar acabaram optando pelo princípio de "sem vitoriosos, sem vencidos".

Os dois principais rivais no Curdistão não só encerraram as hostilidades entre eles, como aplainaram o caminho para eleições democráticas que recentemente levaram ao governo, pela primeira vez, um partido de oposição em rápida ascensão com uma plataforma anticorrupção. E a Tunísia, depois de muita luta interna e derramamento de sangue, encontrou uma maneira de equilibrar aspirações de secularistas e islamistas e chegar à Constituição mais progressista da história do mundo árabe.

Daí minha regra: o Oriente Médio só põe um sorriso em seu rosto quando as partes locais chegam à reconciliação. Poupem-me outra dose de pretensão de que tem tudo a ver com quem os EUA treinam e armam. Sunitas e xiitas não precisam de nossos canhões. Precisam da verdade. Estamos no início do século 21, e um número muito grande deles está lutando para definir quem é o herdeiro legítimo do Profeta Maomé do século 7. Isso precisa parar - para eles e seus filhos terem algum futuro.

Terceiro princípio: talvez o Irã e seu astuto comandante da Força Al-Quds da Guarda Revolucionária, general Qassem Suleimani, não sejam tão espertos. Foi o Irã que armou seus aliados xiitas iraquianos com as bombas que mataram e feriram muitos soldados americanos. O Irã queria os EUA fora dali. Foi a república islâmica que pressionou Maliki a não assinar um acordo com os EUA para dar cobertura legal à permanência dos soldados americanos no Iraque. O Irã queria ser a força hegemônica regional. Bem, Suleimani, a situação é a seguinte: agora suas forças estão espalhadas demais na Síria, no Líbano e no Iraque, e as forças americanas voltaram para casa. Tenha um bom dia.

Os EUA ainda querem forjar um acordo nuclear que impeça o Irã de desenvolver uma bomba, por isso precisam ser cuidadosos sobre o quanto de ajuda devem dar a inimigos sunitas do Irã. Mas com o Irã ainda sob sanções e suas forças e as do Hezbollah lutando agora na Síria, no Líbano e no Iraque, bem, vamos dizer apenas: vantagem dos EUA.

Quarto: liderança conta. Quando estava no Iraque, visitei Kirkuk, uma cidade que há muito vem sendo intensamente disputada por curdos, árabes e turcomanos. Quando estive por lá há cinco anos, era uma zona de guerra infernal. Desta vez, encontrei novas ruas pavimentadas, parques, uma economia florescente e um governador curdo, Najimaldin Omar Karim, que acabava de ser reeleito em abril numa eleição limpa, que ganhou mais assentos graças aos votos de árabes e turcomanos minoritários.

"Nós nos concentramos em (melhorar) estradas, o tráfego terrível, hospitais, escolas sujas" e aumentar a oferta de eletricidade de quatro horas por dia para quase 24 horas, disse o dr. Karim, um neurocirurgião que havia trabalhado nos EUA por 33 anos até retornar ao Iraque em 2009. "As pessoas estavam cansadas de política e radicalismo. Nós ganhamos a confiança e a simpatia de árabes e turcomanos para um governador curdo. Eles sentem que nós não discriminamos. Esta eleição foi a primeira vez em que turcomanos e árabes votaram num curdo."

No caos recente, os curdos tomaram pleno controle militar de Kirkuk, mas posso lhes dizer o seguinte: se Maliki governasse o Iraque como Karim governou Kirkuk, não haveria hoje esta enrascada. Com a liderança adequada, as pessoas podem viver juntas.

Por fim, apesar de nenhum dos atores principais no Iraque, além dos curdos, estar lutando pelos valores americanos, será que alguém por lá está lutando por um Iraque minimamente estável que não ameace os EUA? E a quem o governo americano pode realisticamente ajudar? As respostas ainda não estão claras para mim, e, até essa definição, eu ficaria muito cauteloso sobre interferir. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É COLUNISTA, ESCRITOR E GANHADOR DO PRÊMIO PULITZER

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