Cineasta iraniano pede apoio do Brasil contra a tortura e a censura

Mohsen Makhmalbaf, diretor de 'A Caminho de Kandahar', propõe uma rede internacional em defesa da livre expressão

ELDER OGLIARI, PORTO ALEGRE, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2011 | 03h05

O cineasta Mohsen Makhmalbaf, de 54 anos, autor e diretor de A Caminho de Kandahar, pediu ontem ajuda e solidariedade aos colegas presos recentemente pelo regime iraniano. As declarações foram feitas em Porto Alegre, onde Makhmalbaf fez uma palestra durante o projeto cultural Fronteiras do Pensamento.

O cineasta também propôs a criação de uma rede de apoio a diretores, artistas e jornalistas presos, censurados ou torturados por causa de seu trabalho, à qual chamou informalmente de "cineastas sem fronteiras". Ele revelou que a ideia está sendo discutida com outros diretores, sobretudo brasileiros, e poderá ser anunciada dia 4, em São Paulo. Em tese, a organização poderia se mobilizar cada vez que algum governo reprimisse a liberdade de expressão. "Precisamos agir como uma união internacional, trabalhar juntos e deixar de lado essa percepção de fronteiras", afirmou.

Em 2005, Makhmalbaf saiu de seu país e passou a viver como nômade. Desde então, sobreviveu a um atentado que matou um auxiliar no Afeganistão e escapou de um complô para matá-lo, descoberto pelo serviço secreto francês.

"No atual cinema iraniano, alguns estão presos, alguns serão presos, alguns foram libertados e alguns estão fora do país", disse. "Somos um grupo que vai de um lugar a outro tentando fugir do regime." Citando casos de enforcamentos públicos, mutilação de sindicalistas, estupros em prisões e espionagem nas escolas, ele usou um símbolo cristão para pedir ajuda. "Os iranianos estão sendo crucificados e aguardando a libertação, a salvação, a ajuda de alguém para se livrar dessa situação."

Makhmalbaf disse que os iranianos não entendem por que o Brasil, apesar de já ter tradição democrática, mantém contatos com o governo iraniano. "Se vocês querem mostrar carinho, não apertem a mão de (Mahmoud) Ahmadinejad, pois ela não nos representa e está contaminada com o sangue de milhares de pessoas", afirmou.

O cineasta criticou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva por ter apertado a mão de seu colega iraniano. "Esse contato pode fazer mal para ele, pode fazê-lo adoecer", afirmou. Segundo os tradutores que acompanhavam Makhmalbaf, ele não sabia que Lula estava com câncer.

O cineasta lembrou que foi preso e torturado pelo regime do xá Reza Pahlevi, derrubado pelos aiatolás em 1979, e destacou que suas posições não são favoráveis ao governo anterior nem aos EUA. "O que queremos é democracia, secularismo, liberdade e direitos humanos."

Ele lembrou que a primavera árabe, na verdade, começou no Irã, quando milhões de pessoas foram às ruas protestar após as eleições presidenciais de 2009, marcadas pela fraude, segundo a oposição.

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