Felipe Corazza/Estadão
Felipe Corazza/Estadão

Cineasta que deixou Cuba quer pedido de desculpas do Vaticano

Santa Sé é acusada de ter colaborado com a CIA na retirada de cerca de 14 mil crianças de Cuba entre 1960 e 1962

Felipe Corazza, Enviado Especial/Havana, O Estado de S. Paulo

21 Setembro 2015 | 05h00

O cineasta cubano-americano Roberto Rodríguez Díaz veio a Havana para a visita do papa Francisco com um propósito específico: ouvir do pontífice um pedido de desculpas pela participação da Igreja Católica na Operación Pedro Pan. 

O Vaticano é acusado de ter colaborado com a CIA na retirada de cerca de 14 mil crianças de Cuba entre 1960 e 1962, pouco após o triunfo da Revolução. Díaz, então com 11 anos, foi um dos meninos levados de suas famílias no ano de 1961.

“Chegamos à Flórida e fomos levados a três campos. Um deles, de tão ruim, era chamado de ‘inferno verde’. No momento em que pisamos nos Estados Unidos, deixamos de ser crianças”, disse. 

Nem a igreja, nem o governo dos Estados Unidos admitiram, em qualquer momento, a existência da operação ou suas participações nela. Por meio de uma ordem judicial, no entanto, Díaz afirma ter conseguido acesso a documentos sobre sua situação durante os primeiros anos após a viagem forçada.

“Inventaram e espalharam a ideia (na ilha) de que haveria uma lei especial para enviar crianças à União Soviética e outros países do bloco comunista. Então, famílias deixaram que seus filhos fossem levados para uma ‘vida melhor’. Era uma mentira”, afirmou.

Na documentação que conseguiu, Díaz afirma ter lido que todas as suas tentativas de contato com parentes que já moravam nos EUA foram frustradas intencionalmente. “Diziam a meus padrinhos que eu estava ‘em processo de adaptação’ e nunca me puseram em contato com eles”, acrescentou.

Díaz foi convidado pelo governo cubano a exibir seu filme O Coro do Silêncio, sobre a operação, no Festival de Cinema de Havana deste ano. “Fiquei surpreso. Não é comum a aceitação de cubanos-americanos aqui por parte do governo. Mas foi um orgulho”, disse. 

Sobre Francisco, o cineasta espera que a postura da igreja sobre a Operação Pedro Pan seja mais uma das mudanças que vem promovendo. “Ele já mudou tantas coisas, já fez pedidos de desculpas por coisas nunca admitidas pelo Vaticano. Essa é uma mudança mais que ainda falta.”

Histórico. Em 2010, outro longa-metragem sobre o caso, o filme Operação Peter Pan, foi lançado pela documentarista Estela Bravo. Ela conseguiu reunir histórias de quase 2 mil cubano-americanos levados para os Estados Unidos. Apesar das críticas e das exigências de desculpas, também há exilados que defendem a ação, afirmando que as vidas efetivamente foram salvas.

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