Cinegrafista acusa Exército mexicano de promover chacina

Um operador de câmera que filmou a chacina de estudantes de 1968 rompeu o silêncio e garantiu ter sido testemunha de que foi o Exército e uma de suas unidades de elite que perpetraram a sangrenta repressão.Cuauhtémoc García Pineda, assistente de Angel Balbitúa, o operador de câmera do presidente Gustavo Díaz Ordaz, durante cuja gestão foi cometido o massacre de Tlatelolco, declarou ao matutino La Jornada ter sido testemuha de que grupos de militares dispararam suas armas contra a multidão em 2 de outubro de 1968.García Pineda pediu a Luis Echeverría, sucessor de Díaz Ordaz (já falecido) na presidência, que entregasse a fita que ele filmou, na qual se comprova a participação dos militares.VersõesSão 3.500 metros de filme que García Pineda e outro operador de câmera, o cineasta Servando González, filmaram, sob a direção de Balbitúa, a partir do 19º andar do edifíco-sede da Chancelaria, no escritório do próprio chanceler.Tanto García como Pineda receberam ordens de filmar a manifestação de protesto estudantil de 2 de outubro de 1968, às vésperas dos Jogos Olímpicos, no contexto de uma onda de demonstrações antigovernamentais.Durante décadas surgiram diversas versões sobre se o Exército, grupos paramilitares ou estudantes haviam sido os principais responsáveis pela matança, na qual oficialmente morreram 30 pessoas, embora, segundo outras fontes, o número de vítimas tenha se elevado às centenas.InvestigaçãoA Suprema Corte de Justiça determinou, no mês passado, que a Procuradoria-Geral da República investigasse o massacre e definisse se os delitos cometidos naquela época prescreveram.García Pineda disse que a película que ele filmou juntamente com Servando González ainda existe e deve estar em poder de Luis Echeverría, que era ministro de Governo (Interior) por ocasião da matança e foi acusado por grupos de defesa dos direitos humanos de ser um dos principais responsáveis pelo acontecimento.García Pineda ressalta que tudo foi filmado, desde os preparativos da demonstração na Praça das Três Culturas, no bairro central de Tlatelolco, até o momento em que tudo terminou, por volta das 18h30 do dia 30. Instalados em edificios altos que rodeiam a praça estavam militares, membros do Estado-maior presidencial, que resguarda o chefe da nação, aos quais conhecia muito bem porque trabalhava a seu lado como funcionário da presidência.ProvocaçãoOs franco-atiradores dispararam primeiramente contra o general Jesús Hernández Toledo, o comandante da unidade presente no local, que ficou ferido, com o que, segundo se presume, surgiu o pretexto para que os militares atacassem os estudantes."Quando o general Hernández Toledo tombou ferido", disse o operador de câmera, "a tropa que ia atrás dele, entrando na praça, começou a disparar indiscriminadamente".Na entrevista concedida ao matutino mexicano, García Pineda declarou ter visto os militares recolherem os cadáveres, lançarem-nos dentro de caminhões e, em seguida, usando grossas mangueiras, lavarem com água sob pressão todas as marcas de sangue que havia nas paredes e no chão.?Atormentado?O filme que poderia lançar luz sobre esse episódio foi entregue a Echeverría Alvarez por Servando González, segundo admitiu este último, recentemente.Passados 30 anos, o operador de câmera se confessa "horrorizado" e "atormentado" por algumas cenas que viu. Quando lhe perguntaram se acredita que só houve 30 mortos, ele respondeu: "Não, pelo amor de Deus. Em que país do mundo poderia haver uma praça grande, cheia, na qual os disparos indiscriminados poderiam causar apenas 30 mortes?"

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