Cinema e a Revolução dos Cravos

Nada mais cinematográfico que uma revolução. E o encanto de uma revolução na qual as moças colocavam cravos na ponta dos fuzis não deixou de cativar o imaginário universal, ultrapassando as fronteiras de Portugal.

Luiz Zanin Oricchio - O Estado de S. Paulo,

25 de abril de 2014 | 15h20

Nosso cineasta maior, Glauber Rocha, por exemplo, participou do projeto coletivo As Armas e o Povo (1974), no qual ele é o entrevistador do povo, no calor da hora revolucionário. Fala com as pessoas no comício de 1º de maio, logo após a revolução. É muito revelador, e também engraçado, vê-lo questionando os populares na rua e pedindo suas opiniões sobre a queda do salazarismo. "Não sabe o que dizer? É alienado!", bradava o "repórter".

Outro artista da ruptura dos anos 60, comumente ligado ao teatro, também fez sua intervenção cinematográfica sobre o 25 de abril. E em dose dupla. Zé Celso Martinez Corrêa, em parceria com Celso Lucas, dirigiu o curta O Parto e, em seguida, o longa Vinte e Cinco, celebrando a independência de Moçambique no processo de descolonização que veio a seguir.

Mas, claro, o que talvez seja o filme mais importante sobre esse período é dirigido por alguém da terra - a atriz e cineasta Maria de Medeiros que com Capitães de Abril faz o mais emocionante retrato da revolução. Ela própria faz parte do elenco, como Antónia, professora de literatura e ativista política.

Os outros dois personagens principais são os capitães Salgueiro Maia (Stefano Accorsi) e Gervásio (Joaquim de Medeiros). O filme, do ano 2000, foi apresentado no Festival de Cannes e também na Mostra de Cinema de São Paulo. Maria tinha apenas nove anos de idade quando os fatos ocorreram. O que não a impediu de imaginar a revolução como uma grande aventura - o que ela também foi.

Mesmo o sisudo cinema suíço encontrou no 25 de abril um belo tema para um filme contemporâneo - e em registro cômico. Longwave - Nas Ondas da Revolução, de Lionel Baier, com estreia prevista para 1º de maio em São Paulo fala da história de um trio de jornalistas suíços que se desloca a Portugal para fazer uma plácida reportagem sobre a colaboração econômica entre os dois países. Um operador de som, junto com Cauvin (Michel Vuillermoz), repórter acostumado a coberturas de guerra, e Julie (Valérie Donzelli), uma moça tão ambiciosa como bonita, nem desconfiam o que os esperava na madrugada do dia 24 para o 25 de abril de 1974 em Lisboa.

Pois é, talvez seja, nessa comédia despretensiosa, porém inspirada, que o espírito do 25 de abril se retrate melhor. Depois de décadas de sufoco salazarista, tudo se abre da noite para o dia e vira um imenso carnaval, uma festa cívica e dos sentidos. O espírito de liberdade reprimida está lá, na alegria das pessoas e nos corpos que se desejam. Revoluções são sensuais.  

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