Cingapura, o paradigma da globalização

País condensa características bem-sucedidas do capitalismo atual, com pragmatismo e eficácia

Andres Martínez, Global Viewpoint Network

31 Maio 2014 | 06h00

 

CINGAPURA - Você desembarca no Aeroporto de Changi após voar o que parece toda uma vida  e está naturalmente desorientado. Antes até de chegar aos guichês da alfândega, começam  as advertências sombrias sobre a pena de morte para quem trouxer drogas. Cartões com um questionário digital perguntando se o serviço foi do seu agrado são distribuídos aos turistas. Nos banheiros, o alerta: “Mire curiosamente e dê a descarga com força” 

Tudo é impecavelmente limpo numa cidade habitada por chineses, malaios, indianos e uma multiplicidade de trabalhadores visitantes de todo o mundo. Cingapura é um ataque aos nossos preconceitos.

Pode-se dizer que nenhum outro lugar do planeta se preparou tão bem para prosperar com a globalização - e conseguiu. A pequena nação insular de 5 milhões de habitantes tem o segundo porto marítimo mais movimentado do mundo e uma renda per capita bem maior que a de seu antigo dominador britânico, e uma série de primeiros lugares em listas que variam de países menos corruptos aos mais favoráveis aos negócios. 

Às vésperas de celebrar seu 50º aniversário como nação independente, Cingapura é uma prova de que o livre comércio pode funcionar igualmente para multinacionais e para cidadãos comuns. Se a globalização continuar acelerada, o lugar prospera.

A conquista definidora de Cingapura é resumida no título do livro de memórias de seu antigo e duradouro líder Lee Kuan Yew, From Third World to First (“Do terceiro mundo ao primeiro”, em tradução literal). Quando se separou da Malásia, meio século atrás, para se tornar uma nação autônoma de duvidosa viabilidade, Cingapura tinha pouco cacife para isso, além da determinação de se tornar o que precisasse ser - produtora de manufaturados, porto de contêineres, centro confiável de operações bancárias e logística ou centro produtor de semicondutores.

Numa semana recente de reuniões e informes com líderes do governo e dirigentes empresariais patrocinada pela organização sem fins lucrativos Singapore International Foundation, duas observações espontâneas expuseram isso. A primeira foi a declaração de um líder empresarial de que jamais tivera de pagar uma propina em toda sua vida. 

Isso pode parecer uma presunção bastante modesta, mas  isso seria uma declaração difícil de fazer em países vizinhos do Sudeste Asiático. 

Crescendo no México, meu pai - um empresário que jamais havia posto o pé em Cingapura- vivia repetindo, durante as refeições, o quanto nosso país precisava de um Lee Kuan Lew. Eu tinha uma vaga ideia do que ele queria dizer, mas só agora entendo a veemência por trás de seu sentimento. Naquela época, ninguém conseguia prosperar no México sem pagar propinas, constantemente.

Como os americanos, os cingapuriano adoram o conceito de meritocracia. Diferentemente dos americanos, os cingapurenses confiaram sua sociedade a uma tecnocracia monopartidária onisciente, um serviço público que correspondeu às expectativas ao longo de duas gerações - incluindo habitações publicamente construídas a preços acessíveis para a maioria da população e um sistema de instituições de poupança privada que são a inveja de estudiosos de política de todo o mundo. O cimento da sociedade, além do idioma inglês, é uma forma coletiva do termo “sino-cingapuriano” kiasu, que pode ser aproximadamente traduzido como medo de perder ou de ser deixado para trás.

O kiasu geralmente remete aos esforços extraordinários que as pessoas - individual ou coletivamente - fizeram para alcançar o sucesso. E as ansiedades motivadoras não são difíceis de discernir num Estado-nação tão pequeno que precisa depender de outros países para água que bebe e o espaço para treinar suas Forças Armadas. E se a China e algum outro Estado asiático entrassem em guerra sobre ilhas disputadas? E se Xangai ou Hong-Kong fortalecessem seus mercados domésticos para sobrepujá-lo como centro financeiro asiático? E se os malaios cortassem sua água?

A brutal ocupação japonesa durante a 2ª Guerra Mundial e o recente despencar confrangedor do comércio durante a crise financeira da última década são lembretes veementes de como as coisas podem azedar rapidamente para um canário vulnerável numa mina de ouro.

Mesmo agora, no auge do seu sucesso, Cingapura não é muito amada (é respeitada a contragosto) pelas legiões de estrangeiros que se aproveitam de suas amenidades de Primeiro Mundo. É quase obrigatório ocidentais visitantes ou residentes em Cingapura se queixarem da “esterilidade” do lugar, e brincarem sobre os bulevares cuidadosamente manicurados e os shopping centers impecáveis, contrastando Cingapura  com a autenticidade mais áspera e o “caráter” dos vizinhos Vietnã e Camboja.

É realmente fácil zombar de Cingapura para quem não viveu num país pobre, e é uma forma de preconceito colonial recriminar os cingapurianos por sua falta de “charme” de Terceiro Mundo. Preferimos que nossos trópicos sejam caóticos, obrigado - e não mais limpos e mais eficientes do que a Suíça.

Mas o interessante aqui é que os próprios cingapurianos parecem estar repensando o preço do desenvolvimento. Partidos de oposição estão conquistando algum terreno em eleições parlamentares, capitalizando a insatisfação com serviços públicos sobrecarregados, alta de preços e um influxo de investidores estrangeiros super-ricos em razão da abertura do governo para um rápido crescimento. 

Tendo cuidado das necessidades básicas e mais um pouco de sua população, deve ser irritante para a liderança eternamente pragmática de Cingapura ver o crescimento dos anseios por uma genuína autenticidade. Os poucos bairros mais antigos que não foram demolidos - incluindo a primeira geração de conjuntos habitacionais públicos - agora estão sendo exaltados como marcos históricos, e os cingapurenses tratam seu velho jardim botânico como um terreno sagrado. No think tank planejador de cenários futuros de renome internacional do governo de Cingapura, uma analista me confidenciou que está estudando o surto de nostalgia e o que ele pode significar para a política.

Essa maldefinida sensação de nostalgia  reflete as tensões inerentes à globalização. É possível usar todas as vantagens comparativas para ter sucesso no mercado global transformando-se de acordo com isso e terminar sentindo um certo desconforto com a erosão do senso particular de pertencimento.

Até recentemente, Cingapura estava entre os lugares mais acolhedores para estrangeiros, e um em cada três moradores não havia nascido ali.

Com a queda nas taxas de fertilidade, o país abrirá as comportas para a entrada de imigrantes procurando assegurar a sustentação de seu crescimento e prosperidade - transformando a imigração num para-raios.

Um desconforto geral sobre a identidade de Cingapura e os temores com uma superpopulação (possuir um Honda Accord lhe custará mais de US$ 100 mil, no que deve ser a forma mais dura de precificação de congestionamento em todo o mundo) obrigaram o governo a desacelerar a aceitação de imigrantes e limitar suas projeções de crescimento. A medida foi um atestado de como o sistema de Cingapura é receptivo às necessidades e desejos de seus cidadãos. /Tradução de Celso Paciornik

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