Cinzas de Fidel Castro deixam Havana

Caravana fúnebre percorrerá a ilha e chegará a Santiago de Cuba no sábado

Cláudia Trevisan, Enviada Especial / Havana, O Estado de S.Paulo

01 Dezembro 2016 | 05h00

As cinzas de Fidel Castro deixaram Havana nesta quarta-feira em direção a Santiago de Cuba, cidade onde o líder cubano declarou a vitória sobre o regime de Fulgencio Batista, no dia 1.º de janeiro de 1959. A caravana percorrerá a ilha e chegará ao destino no sábado. No dia seguinte, as cinzas serão depositadas no cemitério Santa Ifigênia, onde está enterrado José Martí, ideólogo da independência cubana.

 Moradores de Havana se perfilaram em ambos os lados das ruas para ver o cortejo fúnebre, acenando bandeiras que haviam sido distribuídas pelo governo. Muitos faziam continência diante da urna, levada em um jipe militar. 

A urna com as cinzas saiu da Praça da Revolução, onde na noite anterior havia sido realizada a cerimônia oficial em sua homenagem. Também foi lá que centenas de milhares de moradores de Havana passaram, na segunda-feira, diante de uma foto de Fidel tirada em 1959, na qual ele aprece em uniforme militar levando uma mochila nas costas.

A estudante Carly Hernandez Herrera, de 15 anos, estava com colegas de sua escola à espera do cortejo no bairro Vedado. Ela chegou por volta das 6 horas e disse que estava emocionada. “Todos os cubanos têm verdadeira admiração por esse líder. Essa celebração é a prova de que suas ideias seguem mais vivas do que nunca.”

Luiz Antonio Benevides, de 47 anos, estava com duas filhas e chorou ao falar de Fidel. “É uma emoção muito grande ver a urna que carrega o restos de um líder tão grande, que mudou a vida de todo o país.” A família saiu de casa à 5h15 para pegar um bom lugar no trajeto. 

Opositores. Entre os que não participaram de homenagens ao revolucionário, poucos acreditam que a repressão a opositores diminuirá depois de sua morte. Juan del Pilar Goberna, vice-presidente da Comissão Cubana de Direitos Humanos e Reconciliação Nacional, afirmou que os atos de intimidação mudaram de natureza, com redução do número de prisões de dissidentes e aumento da vigilância, agressões físicas, detenções de curta duração e “atos de repúdio” a dissidentes promovidos por grupos que apoiam o governo. “Fidel era um líder obsoleto”, afirmou Goberna. “Raúl Castro é seu irmão mais novo e, enquanto ele estiver no poder, é improvável que haja mudança em Cuba.”

A jornalista independente Miriam Celaya acredita que tanto o governo quanto os dissidentes perderam a oportunidade de se aproximarem durante as negociações que levaram ao restabelecimento de relações diplomáticas entre Cuba e EUA, iniciadas em 2014. “A oposição deveria ter tido uma estratégia mais pró-ativa, com uma frente unificada”, avaliou Celaya. 

Discursos. A principal cerimônia em homenagem a Fidel até agora ocorreu na noite de terça-feira na Praça da Revolução. O local já recebeu 400 mil pessoas em eventos anteriores e estava lotado. O ato teve caráter oficial, com uma sucessão de discursos de representantes de governos estrangeiros. Raúl foi o único cubano entre os 18 oradores. 

O mais aplaudido foi o venezuelano Nicolás Maduro, um dos quatro bolivarianos que discursaram na noite – os outros foram Rafael Correa, do Equador, Evo Morales, da Bolívia, Daniel Ortega, da Nicarágua. Além deles, o único orador da América Latina foi o presidente mexicano, Enrique Peña Nieto. O Brasil foi representado pelos ministros José Serra (Relações Exteriores) e Roberto Freire (Cultura), que não realizaram discursos.

 

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