Bertrand Guay / AFP
Bertrand Guay / AFP
Imagem Gilles Lapouge
Colunista
Gilles Lapouge
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Circunstâncias imprevisíveis selam o destino de Notre-Dame

Promessa de Macron para reconstruir catedral se deparou com o desafio do vírus invisível

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2020 | 03h00

Há um ano, no dia 15 de abril, Paris se recolhia quando, depois das 18 horas, foi vista uma fumaça branca erguer-se no céu sobre a catedral. 

Emmanuel Macron, que se preparava para falar à televisão para anunciar o “ponto final” da crise  dos “coletes amarelos”, recebeu uma notícia espantosa: a fumaça branca dizia que a catedral de Paris estava queimando. 

Nos rolos de fumaça branca, depois negra e cinzenta, com clarões vermelhos, consumiam-se oito séculos da história da França enquanto se temia que a obra prima de construtores, de tapeceiros, de arquitetos da Idade Média estivessem ameaçados de desaparecer, deixando no lugar da catedral apenas um monte de cinzas e o odor das catástrofes. 

Os bombeiros chegaram prontamente no local e a aniquilação da catedral foi evitada. Os parisienses acotovelaram-se na noite vermelha de Notre-Dame, a obra-prima visitada por apaixonados do mundo inteiro, o monumento inigualável que o maior poeta francês, Victor Hugo, tornou a heroína de um dos seus mais belos romances... e que atravessou os séculos, antes de ser restaurada de maneira soberba no século 19 pelo grande Viollet le Duc. 

O presidente Macron, que é um bom historiador, assumiu imediatamente o papel de De Gaulle, Clemenceau, ou de Churchill, tomando a direção das operações: “Gosto de estar no olho do furacão”, disse bizarramente. Já tarde da noite, ele ainda acompanhava os trabalhos. 

Fez alguns pronunciamentos e tomou decisões. É um homem que ama a velocidade. Naquela noite, convocou diversos especialistas, generais, arquitetos, engenheiros, operários. Chamou também a assessora cultural do Eliseu, Claudia Ferrazzi, e pediu que ela calculasse o tempo necessário para salvar e restaurar a grande obra. 

Ignoramos o teor de todos esses conciliábulos. A decisão viria logo em seguida. O objetivo era claro: “Devolver a catedral aos parisienses no dia 14 de abril de 2024”, dali a cinco anos. 

Muitos entre os especialistas e sobretudo entre esses tagarelas que não sabem nada, mas opinam sobre tudo, acharam o prazo insensato. Seria impossível fazê-lo respeitar. Não havia nada a fazer senão esperar que as partes que se salvaram esfriassem, além do que para reconstruir a imensa agulha instalada no século 19 por Viollet Le Duc, como símbolo de Paris, seriam necessários meses e mais meses. 

Por outro lado, erguer andaimes a alturas vertiginosas seria uma tarefa ao mesmo tempo perigosa e tecnicamente radical, e livrar-se de milhares de toneladas de escombros exigiria meses. Por fim, mesmo que os engenheiros insistam em manter esses prazos não se pode sequer pensar em colapsos inesperados depois das temperaturas infernais suportadas durante horas, como fatores que possam adiar os prazos. 

Macron levantou então um argumento não técnico. Ele disse: “Quero que os anciãos de hoje vejam a catedral reencontrada”. Macron é um “voluntarista”. Portanto, os escombros da catedral terão de submeter-se à sua lei.

Mas surgiram circunstâncias imprevisíveis: “Um mal que espalha o terror”, o invisível vírus chamado coronavírus que realizou a sua volta ao mundo da morte, condenando  em sua passagem as nações ricas a regressões dramáticas e as nações destituídas à agonia. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.