Cisão ameaça poder de Ahmadinejad

Conservadores e clérigos do Irã tentam conter aumento da influência do presidente, 'excessivamente fortalecido' desde distúrbios de 2009

Roberto Simon, O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2010 | 01h00

De Beirute a Bint Jbeil, vilarejo na fronteira com Israel, o presidente Mahmoud Ahmadinejad foi aclamado no Líbano como nenhum outro líder estrangeiro. Curiosamente, porém, de volta em Teerã as notícias para o iraniano são desalentadoras. Parte da cúpula do regime parece ter se voltado contra o presidente e alguns analistas chegam a defender que nunca o poder de Ahmadinejad esteve tão ameaçado.

Nos bastidores da República Islâmica, vem tomando corpo um embate entre clérigos e conservadores, de um lado, e o grupo de Ahmadinejad, de outro. As duas facções haviam se aliado contra a oposição reformista, que acabou massacrada nas ruas em 2009. Mas, sem o inimigo comum, a coalizão ruiu.

Agora, clérigos e conservadores - ou seja, o establishment político do Irã desde 1979 - veem com grande apreensão a investida de Ahmadinejad para conferir uma importância inédita à figura do presidente.

Sob esse temor, o impeachment de Ahmadinejad chegou a ser proposto pelo deputado Ahmad Tavakoli, um dos representantes da linha dura iraniana. A gota d"água para Tavakoli foi um discurso em que Ahmadinejad afirmou que o Executivo "é a instituição mais importante" da República Islâmica.

O comentário foi interpretado como uma afronta direta aos ideais do líder máximo da revolução de 1979, aiatolá Ruhollah Khomeini, que instituiu um equilíbrio delicado entre instituições políticas e religiosas (Veja o quadro ao lado). "Se o imã Khomeini deu autoridade ao Parlamento, é para evitar uma ditadura", protestou Ali Larijani, porta-voz dos deputados e um dos políticos mais importantes do Irã.

O presidente tirou clérigos de posições-chave do Estado e os substituiu por integrantes da Guarda Revolucionária, centro de seu poder. "Governar um país não deve ser atividade do líder supremo e de estudiosos da religião", justificou. A guarda pretoriana do regime hoje cuida de postos que nada tem a ver com a segurança, como o estratégico Ministério do Petróleo.

Para Reza Aslan, analista do instituto Council on Foreign Relations, Ahmadinejad tem, de fato, conseguido alterar as instituições iranianas em seu benefício. "Nunca um presidente teve tanto poder no Irã pós-1979", disse Aslan ao Estado.

Esse desequilíbrio teria sido provocado pelo próprio líder supremo, Ali Khamenei. Temendo a oposição "verde", a autoridade máxima entrou no jogo partidário e deu apoio explícito a Ahmadinejad. Resultado: a balança acabou pendendo demais para o lado do presidente, que saiu "demasiadamente forte".

Esquizofrenia. A disputa entre a ala tradicional e o grupo de Ahmadinejad tem consequências diretas para a política externa iraniana, afirma um especialista ligado a Washington que pediu anonimato.

O presidente tentou formar uma "chancelaria paralela", afirma o analista, por acreditar que o corpo diplomático estava dominado pelos conservadores. "O próprio chanceler, Manouchehr Mottaki, foi ativamente boicotado pelo presidente."

A cisão seria uma das explicações para a aparente "esquizofrenia" da política externa de Teerã. Há um ano, Ahmadinejad aceitou em Viena uma proposta dos EUA para trocar urânio por combustível nuclear. Conservadores e o líder supremo criticaram a "capitulação", dizendo que Ahmadinejad nem sequer tinha a prerrogativa para assumir um compromisso desse tipo. Ao final, um acordo nos mesmos termos foi assinado com Brasil e Turquia - desta vez em Teerã, envolvendo o Parlamento e o líder supremo.

Herança persa. A libertação no mês passado de Sarah Shourd, a alpinista americana, seria outro exemplo do embate. Durante meses, Ahmadinejad pediu sua soltura. Mas o Judiciário, controlado por conservadores, defendia novamente que o presidente estava extrapolando seus poderes com a pressão e, assim, decidiu "segurar" a americana.

Ahmadinejad estaria ainda trocando a cartada islâmica e religiosa por uma retórica persa e nacionalista. No mês passado, o British Museum de Londres enviou ao Irã um artefato persa da época do imperador Ciro, o Grande (século 6.º a.C.). Ahmadinejad dedicou um discurso à peça, lembrando da grandiosidade do império que deu origem ao Irã. A resposta foi uma carta aberta de clérigos e deputados contra o objeto "anti-islâmico".

A ameaça ao presidente não vem só da cúpula do regime. Em condição de anonimato, um diplomata estrangeiro familiarizado com o Irã disse ao Estado que o iminente corte em subsídios - hoje estimados em US$ 100 bilhões - terá efeitos imprevisíveis na população. "O que vai acontecer quando o preço da gasolina disparar?"

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