Cisão sunita é ameaça real

Tensões nesse ramo do Islã formam campo fértil para ascensão extremista

BRAHMA, CHELLANEY, PROJECT SYNDICATE, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2014 | 02h03

Enquanto observadores se preocupam com a influência da rivalidade entre sunitas e xiitas na conformação geopolítica do mundo islâmico, são cada vez mais aparentes as profundas fissuras no arco sunita que se estende da região do Magreb-Sahel, no Norte da África, ao cinturão do Afeganistão e do Paquistão.

Além disso, são as comunidades sunitas que produzem os jihadistas transnacionais. O que provoca a fragmentação e a radicalização nas fileiras do Islã sunita? E de que maneira esse fenômeno pode ser administrado? As principais ações realizadas pelo terror internacional, como os ataques de 11 de setembro de 2001 e o de Mumbai, em 2008, foram obra de organizações sunitas (Al-Qaeda e Lashkar-e-Taiba, respectivamente).

O grupo sunita Boko Haram provoca o caos na Nigéria. Extremistas sunitas do Estado Islâmico, cuja ascensão dramática desencadeou horrores inomináveis no Iraque e na Síria, pretendem estabelecer um califado.

A influência dessas organizações é extremamente significativa. O sectarismo político e tribal no Oriente Médio sunita e no Norte da África é ao mesmo tempo o reflexo e causa do enfraquecimento das instituições políticas da região. A Líbia sem lei, por exemplo, hoje exporta a jihad e armas ao Sahel e mina a segurança de países amigos do Magreb e do Egito. Vários países em grande parte sunitas - como Síria, Iraque, Iêmen, Líbia, Somália e Afeganistão - acabaram divididos de fato, com pouca perspectiva de reunificação num futuro próximo. Jordânia e Líbano poderão ser os próximos a sucumbir. O tumulto sunita evidencia a fragilidade de quase todos os países árabes, diminuindo ao mesmo tempo a importância central do conflito israelense-palestino.

O sectarismo que devasta o cinturão sunita afeta ainda os reinos relativamente estáveis do Golfo, ricos em petróleo, onde um cisma ocorrido no Conselho de Cooperação do Golfo desencadeia novas tensões e uma competição indireta entre seus membros.

A ruptura se ampliou com a divisão entre as duas principais potências sunitas irmãs, Egito e Turquia, cujas relações azedaram no ano passado, quando os militares egípcios derrubaram o governo da Irmandade Muçulmana, apoiado pelo presidente turco pró-islamista, Recep Tayyip Erdogan.

Tais conflitos incitam os países sunitas à militarização. Os Emirados Árabes e o Catar já instituíram o serviço militar obrigatório. O Kuwait cogita seguir o exemplo da Jordânia reintroduzindo o serviço obrigatório, que já existe na maioria dos países sunitas (e no Irã, de governo xiita).

Nesse contexto, esforços para conter a profunda rivalidade sunita-xiita, embora importantes, não deveriam se tornar prioritários em lugar de uma estratégia de contenção do sectarismo. Essa estratégia deveria concentrar-se no federalismo.

O problema é que "federalismo" se tornou uma palavra obscena na maioria dos países sunitas. O surgimento de novas ameaças fez com que alguns governos, principalmente o da Arábia Saudita, se opusessem ferrenhamente à mudança. O que esses países aparentemente não reconhecem é que foi a exportação do wahabismo saudita, patrocinado pelos petrodólares, que extinguiu tradições islâmicas mais liberais em outros países e alimentou o terrorismo que hoje ameaça devorar seus patrocinadores.

Este é o momento mais propício para o mundo sunita reconhecer a necessidade de uma estratégia federalista contra a instabilidade e o conflito que o invade. Os próprios EUA devem reconsiderar sua política regional, que depende há muito tempo de alianças com déspotas sunitas. Numa região devastada pelos conflitos, a estratégia costumeira deixou de ser a opção. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É PROFESSOR DE ESTUDOS

ESTRATÉGICOS DO CENTRO

DE PESQUISAS POLÍTICAS DE

NOVA DÉLHI

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