Cisma conservador pressiona Ahmadinejad

Dois anos após sua polêmica reeleição, presidente tenta ampliar sua influência no governo, mas é desautorizado em público por Khamenei

Luiz Raatz, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2011 | 00h00

Há exatos dois anos, os iranianos foram às urnas divididos entre o reformista Mir Hossein Mousavi e o linha-dura Mahmoud Ahmadinejad. Hoje, a política iraniana vive uma nova cisão, mais profunda, que atinge o coração da teocracia xiita.

Em abril, a divisão entre os conservadores ficou evidente. O líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, reverteu a decisão de Ahmadinejad de demitir o ministro da Inteligência Heidar Moslehi. Em protesto, o presidente desapareceu de cena por 11 dias.

Segundo analistas consultados pelo Estado, o presidente representa uma geração diferente da elite clerical que tomou o poder na Revolução Islâmica de 1979, ainda que tenham ideais parecidos. "O governo iraniano está mais rachado do que jamais esteve", diz Reza Aslam, do Council on Foreign Relations.

Desde que assumiu, em 2005, Ahmadinejad trouxe para os altos cargos da burocracia estatal, companheiros de sua base de poder, a Guarda Revolucionária. Muitos deles, como o chefe de gabinete Esfandiar Rahim Mashaei, têm ressalvas sobre o papel dos clérigos na condução dos assuntos de Estado.

Segundo o diretor de pesquisa do Conselho Nacional Iraniano Americano (CNIA), Reza Marashi, o duelo entre Ahmadinejad e Khamenei reflete a mudança demográfica que vem ocorrendo no Irã. "Depois de três décadas de domínio dos clérigos sobre a cena política, vemos a emergência dessa nova geração, composta por tecnocratas veteranos de guerra, que acha que a estrutura de poder da República Islâmica os deixou de lado", diz.

Para o cientista político iraniano Ali Pedram, da Universidade de Durham, o distanciamento entre Ahmadinejad e os clérigos deve-se, em parte, às proximidades das eleições parlamentares no final do ano e à posição do presidente no governo. "Depois de seis anos no poder, com pessoas próximas a ele envolvidas em denúncias, sua retórica anticorrupção se esvaiu", explica.

"Além disso, sua tendência a ignorar o Parlamento em políticas domésticas e de tentar se mostrar autossuficiente tem irritado os conservadores."

Futuro. Para o diretor do CNIA, mesmo que a tentativa de Ahmadinejad de adquirir mais poder fracasse, ele criou um espaço político dentro do Irã para reduzir a influência dos clérigos. "Mesmo se ele for demitido amanhã, há outras figuras importantes dentro do regime que partilham sua visão", explica.

Para o especialista da Universidade de Durham, um dos favoritos de Ahmadinejad para o suceder no futuro é seu chefe de gabinete, Mashaei. Seu nome, no entanto, enfrenta forte oposição dos clérigos, que chegaram a acusá-lo até de "bruxaria". "Embora Khamenei não esteja feliz com o comportamento de Ahmadinejad, deve mantê-lo no cargo e procurar um substituto mais seguro para ele", diz Pedram.

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