REUTERS/Eduardo Munoz
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Citgo: filial da petroleira PDVSA nos EUA e âncora para a economia da Venezuela

Empresa com sede em Houston vende petróleo bruto ao mercado americano e atua como intermediário do país sul-americano no mercado financeiro

Redação, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2019 | 15h29

WASHINGTON - Citgo, a filial da petroleira estatal venezuelana PDVSA nos Estados Unidos, é o grande último ativo do governo de Nicolás Maduro no exterior, o que lhe permitia vender petróleo bruto ao mercado americano, e atuava como intermediário para acesso ao sistema financeiro.

Em um momento em que os EUA consideram “ilegítimo” o governo de Maduro e reconhecem a autoridade do opositor autoproclamado presidente Juan Guaidó, Washington anunciou na segunda-feira sanções contra a petroleira estatal PDVSA.

“Citgo era a âncora do mercado americano de petróleo não refinado”, explicou à AFP Christopher Sabatini, o professor de Relações Internacionais da Universidade de Columbia, definindo a empresa como “a última pedra preciosa que continua no império petroleiro venezuelano”.

O secretário do Tesouro americano, Steven Mnuchin, disse que a Citgo poderá continuar suas operações, contanto que seus lucros sejam depositados em uma conta bloqueada nos EUA.

Citgo, fundada em 1910 e com sede em Houston, possui 3.500 empregados e tem três refinarias que somam uma capacidade para processar 749 mil barris de petróleo por dia, segundo os dados da empresa, que opera em 48 terminais, tem nove oleodutos e uma rede de mais de 5 mil postos de gasolina americanos associados à marca.

Francisco J. Monaldi, acadêmico do Instituto Baker da Universidade de Rice, em Houston, explicou à AFP que, do meio milhão de barris diários que a Venezuela vende aos EUA, Citgo é o segundo maior cliente.

Estratégia

A estratégia da Citgo tinha um aspecto duplo: por um lado, vender petróleo bruto, mas, por outro, ser um ativo de grande valor no mercado financeiro. “Historicamente, era a capacidade para vender petróleo pesado, mas, recentemente, quando PDVSA começou a ter moratórias e sanções, ninguém queria dar crédito à estatal”, explicou Monaldi.

Maduro anunciou ações legais contra a decisão dos EUA de impor sanções à petroleira estatal.

“Citgo é uma empresa com um bom volume de negócio nos EUA, as pessoas podem processá-los nos EUA e receber pagamento. Isso permite à PDVSA comprar coisas sem ter que pagar contado”, detalhou, especificando que isso permite, por exemplo, comprar diluentes para enviar à Venezuela processar tudo. “É um recurso estratégico nesse sentido”, disse Monaldi, também expressando que a empresa permitia à Venezuela ter um grupo de pressão dentro da indústria petrolífera dos EUA.

Cerca de 96% dos ingressos de divisas do governo venezuelano vêm do petróleo.

O país vive hoje uma grave crise econômica, com escassez de alimentos básicos e de remédios e uma inflação projetada pelo FMI de 10.000.000% para 2019. Em sintonia com esse declive, a produção de petróleo se situa em 1,1 milhão de barris diários, seu nível mais baixo em 30 anos, por falta de investimentos.

A Venezuela conta com as maiores reservas de petróleo do mundo, mais de 300 bilhões de barris, em sua maioria com petróleo pesado, já que o processamento é custoso. As três refinarias da Citgo são especializadas em petróleo pesado. “Isso vai esmagar a economia venezuelana. Vai ter um efeito dramático”, disse Sabatini, explicando que, com essas sanções, o processo de exportação a outros países não vai ser imediato, pela especificidade do processamento venezuelano.

O especialista explicou que não é tão simples redirigir um oleoduto e é necessário um período de adaptação para esse tipo de produto.

A respeito de seu efeito sobre os preços do petróleo bruto nos EUA, uma das grandes razões que Washington tinha até agora para não impor essas sanções, Sabatini indicou que isso é mais difícil de prever. “Agora mesmo, os EUA estão produzindo o suficiente e os mercados estão suficientemente provisionados, e isso pode não perturbar os mercados”, disse o especialista. Ele advertiu que mercados como o de petróleo bruto não são “racionais” e agrupações de produtores podem decidir cortar a produção, afetando os preços. / AFP

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