Armend Nimani/AFP
Armend Nimani/AFP

Civis americanos que lutaram ao lado dos curdos na Síria veem um sonho desmoronar

Grupo incluiu veteranos dos EUA que buscam continuar sua luta contra o extremismo islâmico, mas também aventureiros, marxistas, socialistas e humanitários que viram esperança no movimento autônomo e pró-democracia curdo

Dan Lamothe / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

22 de outubro de 2019 | 08h00

WASHINGTON - Dezenas de civis americanos e outros ocidentais que lutaram ao lado das milícias curdas sírias contra o Estado Islâmico provavelmente ainda estão no norte da Síria após a incursão militar turca, o que traz preocupações quanto à sua segurança e dúvidas sobre seu status legal caso tentem retornar aos seus países de origem.

O grupo incluiu veteranos dos EUA que buscam continuar sua luta contra o extremismo islâmico, mas também aventureiros, marxistas, socialistas e humanitários que viram esperança no movimento autônomo e pró-democracia que os líderes curdos sonham em construir em um lugar chamado por eles de Rojava - nome curdo para a região no nordeste da Síria. Alguns ocidentais se mudaram para lá permanentemente, enquanto outros implantaram algo semelhante a um destacamento militar na região.

Os ocidentais tiveram pouco tempo para reagir depois que o governo Trump disse, em 6 de outubro, que não atrapalharia a ofensiva turca que tinha o objetivo de atingir as milícias curdas que se uniram às forças armadas dos EUA para combater o Estado Islâmico. Os militares turcos lançaram sua ofensiva alguns dias depois, levando Trump a ordenar a retirada de todos os mil soldados americanos do norte da Síria, com a violência saindo do controle.

Na quinta-feira, o vice-presidente Mike Pence anunciou um acordo segundo o qual a Turquia interromperia sua ofensiva por cinco dias, até esta terça-feira, 22, enquanto os Estados Unidos ajudariam a facilitar a retirada de combatentes curdos de uma importante área de fronteira perto da Turquia. O presidente Donald Trump saudou o acordo como uma vitória, mas alguns membros do Congresso e analistas de segurança disseram que isso pode representar uma segunda traição aos curdos, se não for garantida sua segurança.

Thomas McClure, um voluntário britânico dos curdos sírios, disse que é “realmente difícil dizer” quantos ocidentais ainda vivem em enclaves curdos sírios, mas calcula que poderiam ser mais de 100. Alguns ainda fazem parte das milícias curdas, segundo ele, e dezenas de outras pessoas prestam cuidados médicos e realizam outras tarefas.

“Não ouvi falar de ninguém que tentasse sair agora”, disse McClure, que disse estar no norte da Síria há cerca de 18 meses, principalmente respondendo a perguntas dos meios de comunicação. “Todos estão aqui sabendo que a situação pode mudar rapidamente, e pode piorar depressa, e é importante não sair quando as coisas pioram. Nosso trabalho aqui é necessário.”

Essa situação é particularmente complicada por causa do status da Turquia como aliada da Otan.

Os ocidentais que viajaram para a Síria para lutar contra o Estado Islâmico como civis normalmente se uniram às Unidades de Proteção do Povo, unidades curdas sírias comumente conhecidas como YPG. Eles eram a espinha dorsal das Forças Democráticas Sírias que formaram uma parceria com os Estados Unidos em sua campanha de contraterrorismo na Síria.

No entanto, o YPG também tem vínculos com o Partido dos Trabalhadores do Curdistão, um grupo turco conhecido como PKK, e rotulado como organização terrorista pelos governos da Turquia e dos EUA. Os Estados Unidos estabeleceram uma distinção entre o YPG e o PKK, mas os líderes turcos não veem essa diferença e consideram os curdos uma ameaça à segurança em sua fronteira sul.

Autoridades dos EUA alertam aos cidadãos americanos de que eles estão sujeitos a serem processados caso se tornem combatentes inimigos no exterior. Mas nenhum cidadão dos EUA foi acusado pelo crime de ingressar no YPG, que teve mais de 10 mil de seus combatentes mortos contra o Estado Islâmico. Quase uma dúzia de civis americanos foram mortos enquanto lutavam ao lado do YPG, disse o grupo.

Os voluntários americanos há muito consideram a falta de processo como uma aceitação tácita, se não aprovação, de suas ações. Mas a situação se tornou mais arriscada, já que a Turquia tentou retirar as forças curdas do norte da Síria, colocando um aliado da Otan contra um parceiro próximo do contraterrorismo dos EUA.

Marc Raimondi, porta-voz do Departamento de Justiça, disse que cada situação é “avaliada com base em fatos e circunstâncias individuais”. No entanto, ele disse, viajar ao exterior para lutar em um grupo estrangeiro é “uma péssima ideia, e nós a desencorajamos fortemente”.

O Departamento de Estado disse em comunicado que adverte os cidadãos privados contra a viagem à Síria para não se envolverem em combate e aqueles que o fazem enfrentam sequestros, ferimentos ou morte.

“O governo dos EUA não apoia essa atividade, e nossa capacidade de fornecer assistência consular a indivíduos presos, feridos ou sequestrados ou às suas famílias é extremamente limitada”, afirmou o comunicado.

River O'Mahoney Hagg, um californiano que lutou ao lado do YPG em 2016 enquanto gravava um vídeo para um documentário, manifestou frustração com a situação cada vez mais terrível enfrentada pelos curdos, incluindo a execução de civis por forças pró-turcas. Ele trabalhou em uma unidade médica antes de voltar para casa, tratando combatentes curdos e civis.

Com o ataque da Turquia ao norte da Síria, disse Hagg, a situação em campo mudou. Ele calcula que cerca de 100 voluntários ocidentais ajudaram o YPG nos últimos anos.

“Eu quero chorar”, disse ele. “Quero gritar. Quero chutar a parede. Não posso lutar contra a Turquia. Não posso. É um país da Otan. Não posso pegar armas contra um país da Otan. Voluntários americanos não podem ir e ajudar nossos amigos.”

Um amigo canadense de Hagg que ainda está no norte da Síria entrou em contato alguns dias atrás e mandou uma mensagem para sua mãe, disse ele.

“Ele falou: ‘Diga à minha mãe que eu a amo e que valeu à pena’”, disse Hagg, emocionado. “Está uma bagunça, certo? Ouvir isso quando é o meu próprio presidente quem está traindo essas pessoas!”

Hanna Bohman, uma ex-voluntária do Canadá que voltou do norte da Síria, criticou Trump por abandonar as forças curdas. Embora a coalizão contra o Estado Islâmico tenha sido descrita como liderada pelos EUA, ela disse que na verdade foi liderada na Síria por combatentes curdos.

Bohman disse que muitas das mulheres com quem ela lutou ao lado na unidade curda conhecida como YPJ foram mortas nos últimos anos. Quem está vivo não quer ir embora.

“Eu continuo dizendo a eles: ‘Tentem sair de lá’”, disse ela. “Mas eles dizem: ‘Esta é a nossa terra. Não podemos fugir disso.’”

Susan Shirley, cujo filho Levi foi morto como membro do YPG em 2016, disse que um pequeno, mas unido grupo de ocidentais que aderiu ao YPG e suas famílias permaneceram em contato. Eles viram com horror as decisões tomadas sobre o norte da Síria este mês, disse ela.

“Tudo pelo que eles lutaram, foi por nada?” perguntou ela. “Eu criei muito respeito pelo povo curdo depois que Levi foi morto e fiz minha própria pesquisa. Rojava é quase como um sonho impossível que se tornou realidade em uma parte do mundo onde não podia acontecer, mas aconteceu. É difícil ver que isso acabou assim - e aconteceu durante nossa vigília”. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

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