Civis desafiam violência para testemunhar queda

Símbolos da ditadura ainda existem na capital líbia, esvaziada em parte por combates entre rebeldes e forças de Kadafi e pelo mês sagrado do Ramadã

Lourival Sant'anna, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2011 | 00h00

ENVIADO ESPECIAL / TRÍPOLI - Na antiga Praça Verde, rebatizada pelos insurgentes de Praça dos Mártires, ainda está a estrutura de metal. Muamar Kadafi pretendia erguer ali, no coração de Trípoli, um gigantesco retrato de si mesmo, pintado numa lona estendida no chão da praça, diante do Mar Mediterrâneo.

 

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"Não deu tempo", diz sorrindo Mansur Khribish, um engenheiro eletricista de 50 anos, que passou os seis meses da guerra civil na capital, à espera de seu desfecho. À pergunta sobre por que não abandonou a cidade, Khribish, que trabalha para uma empresa líbio-síria de eletricidade, respondeu: "Você queria que eu perdesse o grande momento pelo qual esperei toda a minha vida?"

Combatentes desfilaram ontem pela praça, celebrando a conquista de grande parte de Trípoli, no intervalo entre uma batalha e outra nos redutos ainda controlados por Kadafi. "Ande de cabeça erguida, você é um líbio livre", gritavam eles - palavras de ordem usadas no início do levante, há seis meses, no leste do país.

Embora fizessem muito barulho, disparando fuzis para o alto, eram poucos. Trípoli é uma cidade semideserta, pela combinação do Ramadã, o mês sagrado em que os muçulmanos jejuam à luz do dia, e de tensão com as escaramuças e a instabilidade na cidade, abandonada por muitas famílias e por partidários do regime.

A maior parte das pessoas na Praça dos Mártires era de combatentes. Uma das exceções era Fawzie Hajjaj, uma viúva de 40 anos, que veio com seu filho, Khalil, de 9. "É o mesmo sentimento que os muçulmanos têm pela liberação de Meca", comparou Fawzie, referindo-se à conquista do Profeta Maomé há 13 séculos. "É a sensação da vitória. Antes, isso parecia impossível."

O movimento nas ruas da capital era controlado ontem por dezenas de bloqueios erguidos pelos rebeldes, quase todos sem fardas, muitos calçando chinelos de plástico, e muitos jovens. Vestígios do regime autoritário continuam por toda parte. Bandeiras verdes, a cor de Kadafi, ainda estão hasteadas em pontos menos acessíveis. O retrato do coronel em um mural foi crivado de balas.

Recuperação rápida. Vivendo em um vácuo de poder, os moradores de Trípoli aguardam agora a chegada de representantes do Conselho Nacional de Transição (CNT), instalado em Benghazi, a segunda maior cidade do país. Líderes oposicionistas do oeste da Líbia também devem participar da transição. "Não temos medo do caos", assegurou Khribish. "Trípoli se reorganizará mais depressa do que Benghazi."

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