Civis morrem na luta contra Farc

Colômbia investiga 1.122 casos de execuções extrajudiciais impulsionadas pelo combate à guerrilha

Ruth Costas, O Estadao de S.Paulo

15 de dezembro de 2008 | 00h00

Dois números divulgados pelo governo colombiano parecem comprovar que existe um outro lado, muito mais sórdido e controverso, no plano de segurança do presidente Álvaro Uribe para combater a guerrilha. Quando Uribe chegou ao poder, em 2002, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) tinham entre 15 mil e 20 mil integrantes. De lá para cá, se desmobilizaram, foram presos ou mortos nada menos que 55 mil guerrilheiros."Não podemos subestimar a capacidade de recrutamento das Farc", diz León Valencia, diretor da Corporação Novo Arco Íris, criada para impulsionar o processo de paz no país. "Mas com tanta diferença entre as duas cifras é difícil negar que as baixas foram infladas nos gabinetes de Bogotá e nos campos de batalha no interior da Colômbia, onde proliferam denúncias de que civis são assassinados por militares e passam para seus registros como guerrilheiros mortos em combate."Nas últimas semanas, a Promotoria colombiana anunciou que investiga 1.122 casos de execuções extrajudiciais. Boa parte deles refere-se justamente a inocentes que teriam sido mortos por soldados e enterrados como rebeldes, no que ficou conhecido no jargão militar como "falsos positivos". São jovens habitantes das periferias, camponeses, mendigos, drogados ou acusados de furtos e atos de vandalismo que de uma hora para outra somem de suas comunidades. "Muitas vezes eles são recrutados por pessoas que lhes oferecem trabalho e aparecem mortos a quilômetros de distância", diz Maria McFarland, especialista em Colômbia da Human Rights Watch. O escândalo ganhou atenção no fim de outubro, depois que 11 jovens sem nenhuma ligação com a guerrilha desapareceram de Soacha, perto de Bogotá, e foram encontrados mortos numa área de conflito, a 400 quilômetros dali.O governo admitiu o erro. Afastou 40 membros do Exército e criou ouvidorias nas Forças Armadas. Também foram abertas investigações contra 3 mil militares por envolvimento em execuções extrajudiciais e o chefe do Exército, General Mario Montoya, renunciou. Na semana passada, o vice-presidente Francisco Santos pediu desculpas na ONU pelos assassinatos durante a comemoração dos 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos."O fato de os democratas terem vencido nos EUA pode ter contribuído para acelerar esse processo de saneamento das Forças Armadas, já que tradicionalmente esse partido sempre exigiu mais empenho de Bogotá em impor o respeito aos direitos humanos", diz Valencia. "Daqui para a frente, espera-se menos condescendência do que durante o governo Bush", completa McFarland, lembrando que as denúncias de execuções no passado foram desqualificadas pelo governo como uma campanha das ONGs para manchar a imagem do Exército.Tem sido alvo constante de críticas a política de recompensas prevista no plano de Segurança Democrática de Uribe. Em troca das baixas que causam à guerrilha, militares recebem promoções, condecorações e folgas. Civis também ganham dinheiro por informações que ajudem no combate às Farc e o governo já chegou a pagar US$ 2,6 milhões para um guerrilheiro que matou seu chefe e cortou sua mão para provar o crime. "Os horrores da guerra inverteram os valores da sociedade e hoje quase tudo é aceito em nome do combate às Farc", diz Valencia.As conquistas do plano também são impressionantes. Desde 2002 os seqüestros diminuíram 80% e o total de desalojados por causa do conflito, cerca de 50%. O Estado retomou o controle sobre imensas porções do território antes dominadas pela guerrilha e os colombianos voltaram a viajar pelo país. Hoje as Farc estão acuadas e sem apoio enquanto Uribe tem 80% de popularidade."O que estamos descobrindo é que nesse período alguns militares cometeram abusos inaceitáveis", diz Alfredo Rangel, da Fundação Segurança e Democracia. "O Estado de fato demorou para detectar isso e reagir, mas também acho injusto culpá-lo por práticas que não eram institucionalizadas. A Colômbia avançou muito nesses anos e o fato de que os responsáveis por esses erros estão sendo punidos é mais uma prova disso."

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