Civis sacrificam a vida pelo levante

Em Alepo, população enfrenta falta de energia elétrica, de gás, de combustível e de comida para tentar derrubar o regime de Assad

ANDREI NETTO, ENVIADO ESPECIAL / ALEPO, SÍRIA, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2012 | 03h06

Em um dos muros pichados do bairro de Sakhour, na periferia marginalizada de Alepo, lê-se: "A terra natal não é como um hotel em que você parte se não gosta do serviço. Vamos ficar aqui até que você se vá, Bashar". Esse raciocínio expressa dois desejos que pairam nas cidades sírias: o de resistir e, se necessário, sacrificar-se.

Alepo é uma cidade rebelde. Desde abril de 2011, protestos de oposicionistas são realizados com regularidade na região. Não é nada raro deparar-se com um de seus participantes que tenha passado pelos porões do regime depois de ter sido capturado por um shabiha, um dos milicianos "fantasmas" de Bashar Assad.

No entanto, mesmo que a maior parte da população tenha aderido imediatamente à ideia da revolução, o levante armado só começou há menos de dez dias. Desde então, grande parte da cidade, em especial seus subúrbios pobres, não tem energia elétrica.

Muitos habitantes enfrentam a falta de gás, de combustível e até de farinha. Os transportes foram interrompidos: o aeroporto só opera para voos militares e nos postos de fronteiras a situação é caótica.

Noites de guerra. Em nome da resistência, os moradores começam a recriar uma rotina na escuridão das noites de guerra. Passear pelas ruas ao som de rajadas ou eventuais morteiros mais ou menos distantes revela essa vida síria clandestina.

Nela é possível encontrar o barbeiro do salão Beauty Hair trabalhando, mesmo que seu espelho tenha sido quebrado pelo estrondo de um explosivo. Também é possível deparar-se com os aventureiros do transporte público que sobrou após a queima de dezenas de ônibus: um motorista de van que recolhe passageiros para deixar a cidade ou um táxi solitário que circula por ruas desertas em busca de clientes.

No entanto, na Alepo em guerra civil nem tudo é medo, solidão e desterro: em uma casa, é possível encontrar um jovem revolucionário sírio ouvindo My Way em seu computador conectado à internet e senhores que, sentados em roda na rua, convidam o estrangeiro desconhecido para se tomar um gole de água, mesmo que a comunicação seja impossível.

Na noite síria, há também os adolescentes voluntários, que passam pelas ruas coletando o lixo e equilibrando com as mãos o carrinho de mão e o fuzil. Também registra-se a enorme fila de espera de uma hora de uma padaria em que os funcionários atendem por uma minúscula janela atrás das grades.

Muitos desses que se aventuram na Alepo em guerra dizem que o fazem porque estão dispostos a resistir à ditadura de Bashar Assad. Contudo, mais do que isso, eles estão prontos para sacrificar suas vidas para que a Síria nunca mais volte a ser o país de antes da guerra.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.