Civis são reféns de um conflito sem fim

População que vive entre o centro e o sul de Israel e a Faixa de Gaza sofre com ofensivas

ROBERTO SIMON , ENVIADO ESPECIAL , ASHKELON, ISRAEL, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2012 | 02h05

A israelense Mina Shachaf e o palestino Ayman Nimer têm um medo em comum: o estrondo das explosões. Ela, avó de 74 anos, viu parte do teto de sua casa, em Ashkelon, ser arrancada ontem por um foguete do Hamas. Ele, tradutor de 43 anos da Cidade de Gaza, vive há cinco dias trancado com suas três filhas e a mulher no apartamento, que chacoalha e pisca a luz a cada bombardeio de Israel.

Mina, Nimer e todos os civis anônimos que vivem entre o centro e sul de Israel e a Faixa de Gaza são as grandes vítimas de um conflito que ninguém na região parece entender bem por que começou nem como acabará. Os dois apenas duvidam que o assunto se resolva nos próximos dias e compartilham ainda uma expressão para tentar prever o futuro: "A coisa deve ficar feia".

"Desta vez, não esperávamos o início de uma ofensiva, portanto nem sequer nos preparamos", explica o tradutor palestino. Em sua casa, agora, tudo é racionado - água, comida, crédito de celular. "Não sei quando conseguirei sair novamente na rua para comprar mantimentos. Por enquanto, está tudo fechado."

Nimer mora ao sul da Cidade de Gaza, em um conjunto de apartamentos simples e característicos do isolado território palestino. Suas três filhas estão sem aula desde o assassinato do líder militar do Hamas, Ahmed Jabari - episódio que desatou a nova onda de violência - e resta a ele inventar programas e brincadeiras dentro de casa.

Enquanto Nimer conversava com o Estado ao telefone, duas das meninas se acotovelavam diante do computador. A outra brincava no chão.

Ele tenta repetir a estratégia que usou durante a invasão israelense à Faixa de Gaza há quatro anos: "Se não há vida lá fora, é preciso trazer vida aqui para dentro de casa."

Alvo. "Guerra é um negócio com o qual o ser humano nunca se acostuma", explica a israelense Mina. Ela passou todos os grandes conflitos de Israel - cinco, ao todo - e diz que "é cada vez mais estressante".

Ontem, às 8h30, quando a sirene em sua cidade voltou a tocar, Mina buscou o abrigo pré-fabricado que tem nos fundos de sua casa. Entrou, fechou a porta e sentou-se ao lado de uma lamparina e um rádio a pilha. Em menos de um minuto, um estrondo violento sacudiu a estrutura.

Não fosse pela árvore de seu quintal, o foguete Qassam do Hamas teria destruído praticamente toda a frente de sua casa. Mas o projétil acertou primeiro o tronco, para depois arrancar parte do telhado da garagem, atingir o carro e arrebentar as janelas e parte da porta de entrada.

O marido, Rafael, de 80 anos, estava no trabalho e veio às pressas quando um amigo da família lhe avisou que sua casa havia sido atingida. "Mas logo me avisaram que Mina estava bem e então fiquei tranquilo", completa.

O casal garante que não deixará Ashkelon, apesar da pressão dos filhos para que se juntem ao restante da família na região de Tel-Aviv. Rafael justifica que "é este o lugar que eu chamo de 'casa' há 50 anos".

Um outro foguete do Hamas que caiu ontem em Ashkelon atingiu a fachada de um prédio de três andares em um conjunto habitacional de imigrantes. Dois apartamentos de famílias do Cazaquistão foram pegos em cheio e duas pessoas ficaram feridas. Vizinhos etíopes juntavam-se diante da porta para tentar ver o estrago causado.

"Apenas minha mãe estava em casa, mas ficou no quarto dela", explica Arkady Ivaniekov, enquanto tentava limpar a poeira sobre um velho piano de armário encostado em uma parede próxima do buraco feito pelo foguete.

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