Ghith Sy|EFE
Ghith Sy|EFE

Civis são usados como moeda na Síria

Queda de braço entre governo de Bashar Assad e rebeldes impede remoção de moradores de Alepo; ONU admite 'fracasso coletivo'

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

17 Dezembro 2016 | 07h31

GENEBRA - Um impasse entre grupos rebeldes e o governo de Bashar Assad deixou cerca de 50 mil pessoas presas nos escombros da cidade de Alepo, na Síria, um dia após um acordo anunciado entre os combatentes. Segundo depoimento de ativistas de direitos humanos e da ONU, as partes usam civis como moeda de troca na guerra que já deixou mais de 300 mil mortos.

Damasco alertou ontem que suspendia a retirada dos civis porque grupos ligados à Al-Qaeda haviam se recusado a liberar civis de cidades que haviam sitiado, em outras áreas do país.

Segundo mediadores da ONU relataram ao Estado, o centro do impasse era a recusa do grupo armado Jabhat Fateh al-Sham de permitir que moradores das cidades de Fua e Kefraya fossem liberados. As duas cidades xiitas estão cercadas pelos extremistas. A falta de acordo deixou aberta a possibilidade de que os combates fossem retomados em Alepo, mesmo após o governo de Assad, o Irã e os russos terem declarado vitória. Segundo a Organização Mundial da Saúde, até a manhã de ontem, cerca de 6 mil pessoas haviam sido retiradas de Alepo em dois dias. O número estimado poderia chegar a 50 mil.

Os rebeldes têm outra versão sobre o impasse e acusam o governo de ter obstruído a saída da população de Alepo. Segundo os grupos de oposição, 25 carros que levariam os civis foram sequestrados. A oposição também acusou milícias xiitas aliadas a Assad de terem disparado contra os ônibus aguardavam para remover os civis.

O governo alegou ter descoberto que o transporte estava sendo usado para contrabandear armas que ainda estavam dentro de Alepo para Idlib, cidade mantida pelos rebeldes.

Desespero. Enquanto grupos não chegavam a um acordo, mensagens enviadas pelas redes sociais por moradores ainda presos na cidade mostravam ruas repletas de famílias aguardando no frio por um resgate. Ativistas mostravam como crianças estavam “desesperadas e famintas”, enquanto muitos estavam exaustos.

Segundo observadores da ONU, no entanto, nem mesmo um acordo para esvaziar a cidade significaria o fim da guerra. Muitos moradores seriam enviados, segundo as Nações Unidas, para Idlib, cidade que já está sob ataque de sírios e russos. Para evitar um novo massacre, o governo turco indicou que poderia construir novos campos de refugiados, para cerca de 80 mil pessoas.

Para isso, a Rússia promete lançar uma nova negociação de paz que, envolvendo a Turquia, poderia ser organizada no final de dezembro. O presidente russo, Vladimir Putin, nega que o processo seja uma concorrência com a mediação proposta pela ONU desde 2012 em Genebra – diálogo que já fracassou em quatro ocasiões. Ontem, mesmo com 50 mil pessoas ainda em Alepo, Putin chegou a anunciar que a remoção havia sido concluída e o próximo passo seria um cessar-fogo nacional.

Riyad Hijab, líder da oposição moderada, afirmou que estaria disposto a negociar com os russos nesse novo formato. Mas insistiu que Assad precisa deixar o poder, como parte de uma solução política para a guerra. À reportagem, diplomatas sírios na ONU voltaram a confirmar ontem que o presidente não tem “a menor intenção” de deixar o poder, principalmente depois de retomar Alepo.

Segundo o grupo Capacetes Brancos – dedicado ao resgate de pessoas – a reconquista da cidade por Assad representou 1,2 mil mortes entre os civis. Entre as vítimas, estariam 380 crianças. Antes mesmo do início da última ofensiva, a destruição de Alepo impressionava até os mais experientes diplomatas na ONU. Imagens de satélite da entidade revelaram que, em toda a cidade, cerca de 36 mil prédios foram afetados. Desses, 4,7 mil foram totalmente destruídos e 14 mil seriamente afetados. O índice representou um salto de 154% em comparação ao que foi medido em 2015.

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