'Clarín' liga contas em Teerã a ex-ministra da Defesa de Cristina

Segundo jornal, Nilda Carré movimentou contas com US$ 48 milhões em 2011; atual embaixadora argentina na OEA nega

RODRIGO CAVALHEIRO, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

30 Março 2015 | 02h02

Uma ex-ministra da presidente Cristina Kirchner foi acusada ontem pelo jornal Clarín de ter movimentado duas contas em Teerã que chegaram a ter US$ 48 milhões, enquanto comandava a Defesa argentina. O jornal usa depoimentos de duas fontes do mercado financeiro e de um ex-funcionário do governo de Hugo Chávez, todos sob anonimato, como base para incluir Nilda Garré, ex-embaixadora em Caracas, em uma triangulação entre Irã, Venezuela e Argentina. Atual representante argentina na Organização dos Estados Americanos (OEA), ela negou a acusação.

O elo entre Argentina e Irã era o cerne da investigação conduzida pelo promotor Alberto Nisman. Ele foi encontrado morto com um tiro na cabeça em 18 de janeiro, quatro dias após denunciar que a cúpula kirchnerista tentava proteger iranianos considerados culpados na Argentina pelo atentado contra a Associação Mutual Israelita-Argentina (Amia), que deixou 85 mortos em 1994.

Ele garantia ter provas de que um acordo firmado em 2013 entre Irã e Argentina para que os acusados fossem ouvidos em Teerã era uma fachada para pactos comerciais. Na denúncia, Nisman cita oito vezes a Venezuela e menciona um ex-embaixador argentino em Caracas, Roger Capella, como um dos mentores do encobrimento.

Segundo o Clarín, as duas contas foram abertas em sucursais diferentes de Teerã em fevereiro de 2011 no Banco Tejarat, o terceiro do país, em nome de uma empresa fantasma. A ligação entre as contas e Garré, bem como o valor depositado (US$ 35,5 milhões e US$ 12,4 milhões), são sustentados nas fontes mantidas em sigilo. A última operação teria ocorrido em 28 de abril de 2011.

Nomeada para o Ministério da Defesa em 2010, Garré renunciou em junho de 2013 e foi nomeada embaixadora na OEA. Nisman não cita a kirchnerista diretamente em sua denúncia, mas a embaixadora é tema de um diálogo grampeado que ele acreditava ser prova de uma diplomacia paralela criminosa.

Na conversa, Jorge Yussuf Khalil, que Nisman considerava um agente de Teerã, questionava um espião argentino, Alan Bogado, sobre as razões para a saída de Garré do ministério. Procurado pelo Estado, Khalil não quis se manifestar.

A reportagem do Clarín - jornal em batalha judicial com o governo em razão da Lei de Mídia, que determina o desmembramento do Grupo Clarín - afasta a teoria de intercâmbio nuclear entre os países porque o sistema de enriquecimento de urânio seria de tecnologia diferente. Cogita, entretanto, a troca de outros insumos, algo mencionado por Nisman.

Em 2007, um empresário venezuelano foi flagrado ao entrar na Argentina com US$ 800 mil em uma maleta A oposição disse tratar-se de financiamento venezuelano para a campanha eleitoral de Cristina. A prescrição do caso foi declarada em fevereiro, pelo mesmo tribunal de segunda instância que rejeitou na semana passada a denúncia de Nisman. Um recurso judicial ainda pode fazer com que a denúncia seja retomada.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.