Clérigo xiita cobra um novo governo 'efetivo' no Iraque

Aiatolá Ali al-Sistani eleva pressão sobre premiê Nuri al-Maliki, que tem perdido apoio em meio à insurgência radical sunita

BAGDÁ, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2014 | 02h01

O aiatolá Ali al-Sistani, principal líder religioso da maioria xiita do Iraque, emitiu um comunicado ontem pedindo a formação de um novo governo "efetivo", de "ampla aceitação" nacional, em meio ao avanço dos sunitas radicais no norte do país.

O pedido aumentou a pressão sobre o premiê xiita Nuri al-Maliki, um dia depois de o presidente americano, Barack Obama, ter aconselhado o iraquiano a criar um gabinete mais inclusivo.

Apesar do tom comedido do comunicado de Sistani, a linguagem utilizada no texto é similar à usada pelos oponentes de Maliki, ao pedirem que o premiê xiita forme um governo que seja aceito por sunitas e curdos. Alguns interpretaram as declarações como uma crítica velada ao primeiro-ministro e sua capacidade de conter a insurgência do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (Isil, na sigla em inglês).

Apesar de a coalizão xiita de Maliki - no poder desde 2006 - ter obtido a maioria dos assentos no Parlamento na eleição de 30 de abril, a possibilidade de o premiê assumir um terceiro mandato está posta em dúvida, já que políticos de sua aliança têm criticado sua capacidade de governar.

O pedido de Maliki de bombardeios dos EUA contra os radicais sunitas é considerado o sinal mais evidente da falta de capacidade do premiê para conter a insurgência, que pretende tomar Bagdá e fundar um califado regido pela a sharia (lei islâmica).

O bloco xiita precisa compor o governo com partidos sunitas e curdos. Sistani pediu que o prazo constitucional para a formação do novo governo, 2 de julho, seja cumprido. Em outras ocasiões, o prazo não foi respeitado.

"É necessário que o bloco político vencedor inicie um diálogo que produza um governo efetivo que conte com amplo apoio nacional para evitar erros do passado e abra novos horizontes para um futuro melhor para todos os iraquianos", afirmou Sistani em sua mensagem, entregue pelo clérigo Ahmed al-Safi na cidade de Kerbala, sagrada para os xiitas.

Na semana passada, um chamado às armas feito pelo aiatolá fez com que milhares de xiitas procurassem centros de alistamento das forças de segurança iraquianas para combater a insurgência sunita radical. "O chamado por voluntários era para iraquianos de todos os grupos (...). Não tinha uma base sectária e não poderia ter", afirmou ontem o aiatolá Sistani.

O vice-chanceler para assuntos árabes e africanos do Irã - que se ofereceu para ajudar os EUA a combater os radicais sunitas no Iraque - afirmou ontem que envio de 300 consultores militares prometido pelo presidente americano na quarta-feira demonstra que o país que ocupou por quase nove anos o território iraquiano não está comprometido em combater o Isil.

"As declarações recentes de Obama demonstram que falta à Casa Branca determinação séria para confrontar o terrorismo no Iraque e na região", disse Hossein Amir Abdollahian à agência de notícias oficial iraniana Irna. / AP, NYT e REUTERS

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.