Leo La Valle/Efe
Leo La Valle/Efe

Clima antibritânico tomou conta da Argentina em abril de 1982

Apenas times de futebol com nomes ingleses salvaram-se da onda 'rebatizadora'

Ariel Palacios, correspondente em Buenos Aires,

02 de abril de 2012 | 10h06

BUENOS AIRES - No dia 2 de abril de 1982 , o general Leopoldo Fortunato Galtieri, que liderava a sanguinária Junta Militar que desde 1976 havia assassinado 30 mil pessoas, anunciava aos argentinos que as ilhas Malvinas - um árido arquipélago nos confins do Atlântico Sul - eram, novamente, argentinas, depois de um longo interlúdio de 149 anos de domínio da coroa britânica.

Galtieri, um militar parecido a George C. Scott no filme "Patton", que dedicava grande parte de seu tempo a beber vários litros diários de uísque, havia ordenado o desembarque nas ilhas como tentativa desesperada de manter a impopular ditadura no poder.

 

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O desembarque, de fato, ocorreu na noite do 1 de abril. Mas, para o registro histórico oficial, o dia 2 de abril é o que vale. Nessa data, ao raiar do sol, os comandos argentinos que haviam desembarcado perto de Stanley, capital das ilhas, atacaram a aldeia, invadindo suas ruas e tomando por surpresa a casa do governador britânico das ilhas. No dia da invasão, morreu um argentino, o capitão de fragata Pedro Edgardo Giachino, um ex-torturador de civis nos anos prévios no continente. Até o fim da guerra, faleceriam 649 argentinos em terra e no mar. Do total dos soldados argentinos enviados ao arquipélago, 70% eram rapazes que estavam em pleno Serviço Militar.

Diversos ex-integrantes do governo militar, historiadores e veteranos da Guerra alegam hoje que a intenção de Galtieri era ocupar as ilhas Malvinas e negociar depois. O plano consistia em pedir a participação da ONU em uma administração conjunta da Argentina com a Grã-Bretanha e posteriormente ficar com a posse total do arquipélago.

Além disso, a Junta Militar considerava que os Estados Unidos, que haviam apoiado a Ditadura argentina desde 1976, não se oporia à medida do regime de Buenos Aires. Os militares argentinos acreditavam que os americanos, em reconhecimento por seu virulento anticomunismo, ficariam neutros neste conflito, sem respaldar ativamente seu aliado na OTAN, a Grã-Bretanha.

Em Buenos Aires, líderes e população começaram a viver o delírio da teoria de que os EUA tentariam convencer a Grã-Bretanha, aliada americana em duas guerras mundiais, a deixar as remotas e desoladas ilhas para a Argentina. "Os integrantes da Junta Militar eram umas bestas quadradas. Por mais que a gente avisasse que Washington ficaria do lado inglês, eles achavam que os americanos não se intrometeriam. Uma ingenuidade do tamanho de um ciclope", disse em off um diplomata que integrava a chancelaria argentina na época da guerra.

O desembarque nas ilhas desatou uma onda de manifestações em toda a América Latina a favor da Argentina. Desde a comunista Cuba de Fidel Castro, passando pelo Peru comandando pelo presidente democraticamente eleito Belaúnde Terry, até outras ditaduras de direita, como o Paraguai do general Alfredo Stroessner, declararam respaldo formal e até ofereceram ajuda prática.

Nas ruas de Buenos Aires multidões queimavam bandeiras da Union Jack, enquanto a ditadura desafiava a Grã-Bretanha a enviar tropas para o Atlântico Sul. "Que venha o principezinho", esbravejava o general Mario Menéndez, governador militar das ilhas, que acabava de instalar-se na rebatizada "Puerto Argentino" (ex-Stanley).

O governo militar tentava minimizar a capacidade de resposta militar britânica, afirmando que os soldados de sua Majestade eram "pervertidos homossexuais" e "consumidores de pornografia". A ditadura afirmava que a Virgem de Luján estava do lado argentino, e que, portanto, eram invencíveis contra os "protestantes" ingleses. Os britânicos passaram a ser denominados de "corsários", termo que até hoje é usado - popularmente - como sinônimo de "inglês".

 

Britânico vira tânico

Enquanto isso, dentro das fronteiras argentinas, tudo o que fosse britânico corria o risco de ser atacado. Diversas escolas de inglês e as escolas bilíngues foram alvos de pedradas e coquetéis molotov. A comunidade britânica na Argentina, que na época era de 100 mil pessoas (entre imigrantes e descendentes diretos), teve que fazer declarações de profundo "argentinismo", para evitar problemas.

Silvina Epstein, hoje uma professora primária, na época da Guerra estava no segundo grau. Ela relatou como sua professora de inglês, temendo ser vaiada (por ser docente do idioma do inimigo) começou a aula comentando diversas frases do escritor irlandês Bernard Shaw, nas quais ridicularizava os ingleses. A aula foi salva porque os alunos viram que outros povos que "detestavam" os britânicos - tal como eles - também falavam inglês.

O jornal "Buenos Aires Herald", o jornal em língua inglesa mais antigo da América Latina, recebeu constantes ameaças telefônicas, e os jornaleiros recusavam-se em vendê-lo. Quem queria ler o Herald precisava ir até sua sede para comprar um exemplar.

No meio do clima antibritânico, a tradicional farmácia "La Franco-inglesa", na calle Florida teve que mudar seu nome para "La Franco", cortando a parte referente à ilha de Shakespeare.

Os donos do histórico bar "Británico", situado nas esquinas das ruas Defensa e Brasil, em pleno bairro boêmio de San Telmo, agiram rápido antes de serem atacados, e como solução, encontraram uma de rápida aplicação: apagar a sílaba "Bri". Ficou sendo, durante anos depois da Guerra, o bar "Tánico". Muito tempo depois voltou a ostentar o nome completo, que usa até hoje em dia.

O governo proibiu a transmissão de TV de todo tipo de filme nos quais eram vistas de forma positiva as figuras dos militares britânicos em guerras anteriores, como a Primeira e Segunda Guerra Mundial. Desta forma, obras como "A ponte do rio Kwai" ficaram no index da Ditadura.

 

Três nomes em três dias

No primeiro dia da nova presença argentina nas Malvinas, Galtieri rebatiza Stanley de "Puerto Soledad", o nome original do vilarejo que havia sido a capital durante a administração argentina entre 1820-33. Mas, no segundo dia Galtieri muda de ideia e o vilarejo é re-re-batizado de "Puerto Rivero", em homenagem a um suposto "maquis" gaucho segundo uns (bandoleiro, segundo outros), que teria resistido aos ingleses ao longo de vários meses. No entanto, no terceiro dia, Galtieri mais uma vez muda de ideia e re-re-re-batiza o aglomerado urbano de "Puerto Argentino".

Apesar da volta da democracia e a revisão histórica do governo da presidente Cristina Kirchner, a cidade, na nomenclatura argentina, continua com o nome colocado pelo defunto ex-ditador.

 

 
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