Clima de guerra provoca censura e autocensura nos EUA

Objeções do Departamento de Estado forçaram a Voz da América (VOA), a rádio oficial dos Estados Unidos, a suspender a transmissão de uma entrevista exclusiva com o líder do Taleban, o mulá afegão Mohamman Omar, na segunda-feira."Não achamos apropriado para a Voz da América irradiar a voz do Taleban", disse o porta-voz do Departamento de Estado, Richard Boucher. Os jornalistas da emissora protestaram.Eles lembraram que a força da VOA vem de sua credibilidade como veículo de informação e não como instrumento de propaganda, e a entrevista acabou indo ao ar, no dia seguinte.Este não foi o único episódio de censura nos Estados Unidos desde os ataques terroristas do último dia 11.Na semana passada, Bill Maher, que apresenta um programa satírico transmitido em rede nacional pela ABC, no início da madrugada, disse que "nós (norte-americanos) fomos covardes" ao bombardear os campos de treinamento de Osama bin Laden no Afeganistão, em 1998, com mísseis lançados em resposta a ataques terroristas contra embaixadas dos EUA na África.O comentário não agradou aos donos de três afiliadas locais da rede. A afiliada de Washington tirou Maher do ar por dois dias."Ouvimos com freqüência que a única maneira de derrotar os terroristas é agarrando-nos às liberdades da nação", ponderou nesta quarta-feira o Washington Post, num editorial em que conclamou os editores "a resistirem ao instinto da censura e da autocensura".O jornal lembrou que "as liberdades" que os EUA precisam defender na guerra contra o terrorismo "incluem honrar o direito dos norte-americanos de ouvirem comentários que incomodam alguns e conhecer o que pensam os inimigos".A preocupação com as limitações à liberdade de informação no "novo tipo de guerra" que os Estados Unidos preparam-se para travar contra o terrorismo é crescente entre os jornalistas que cobrem o governo, especialmente no Pentágono.A natureza do confronto, que envolverá maior mobilização de forças especiais treinadas para agir em segredo do que grandes contingentes de tropas regulares que operam abertamente, condicionará a cobertura.Na semana passada, o presidente Geroge W. Bush disse, em discurso no Congresso, que algumas operações não serão divulgadas mesmo depois de os agentes cumprirem a missão com êxito."Em matéria de informação, está será a guerra mais intensa que você pode imaginar", disse, na semana passada, um militar envolvido no planejamento da estratégia norte-americana."Vamos mentir sobre algumas coisas", admitiu.Cientes do declínio do prestígio popular da imprensa norte-americana nos últimos anos e da tendência do público a apoiar o governo em tempos de ameaça externa, alguns jornalistas já se mostram resignados."Agora, é um novo tipo de jogo", disse David Martin, o correspondente de segurança nacional da rede CBS.

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