Clima de reconciliação cresce em Bogotá

Pela primeira vez em anos, colombianos veem possibilidade real de pacificação entre os bem armados Estado e guerrilha do país

Roberto Godoy, O Estado de S.Paulo

19 de julho de 2015 | 02h03

Marita Bosco, colombiana, cozinha bem. Na comunidade católica no interior de São Paulo que a abriga desde dezembro de 2013, a lechona típica - arroz, carne de porco, milho, ervilhas e muita pimenta; tudo no forno por 10 horas - é o prato dos dias de festa.Marita também tem outra habilidade: é capaz de destruir alvos a 100 metros, usando o fuzil russo AK-47 que teve por perto, "como um cachorrinho", durante os 14 anos que passou na selva da Colômbia, lutando contra as tropas do governo.

A ex-guerrilheira das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), é uma morena forte que se empenha, sem sucesso, em parecer descontraída. As tensões acumuladas se revelam no cuidado em não sentar-se de costas para a porta, proibir fotografias e no olhar furtivo.

Recrutada aos 16 anos em um vilarejo da região do Putumayo, no centro-sul da Colômbia, ela fala pouco e fuma muito. Aparenta mais que os 32 anos de idade. Os cabelos, pretos e longos, ajudam a esconder uma cicatriz horrenda do lado esquerdo do rosto.

Há cinco dias, diz Marita, "pela primeira vez vi a possibilidade de haver paz, talvez definitiva, em meu sofrido país, depois de 50 anos de guerra civil". Para ela, o modelo a que chegou a mesa de negociações - na prática, a redução gradual da intensidade da luta, e o cessar-fogo que pode chegar a 40 dias, preparando o pacto final - "é pragmático e realista; a hora é a de ser objetivo e, acima de tudo, acreditar na construção lenta de um ambiente de reconciliação".

A guerrilheira abandonou a luta "por decepção com a orientação política do Comando Central", mas se define como "pela vida, militante socialista". Como os generais do Exército da Colômbia, a tropa regular, ela quer que os "criminosos e torturadores" sejam levados a julgamento, "para responder por seus excessos". Todavia, ressalva, "que seja de ambos os lados".

Há um problema nesse ponto, acredita o analista Carlos Affonso: "as Forças Armadas e a linha mais radical da guerrilha, têm a percepção de que podem, em algum momento, vencer o conflito pelas armas - logo, não querem fazer concessões".

Músculos. Não é bem assim. Os analistas do Departamento de Defesa sustentam que a luta armada tem potencial para durar, talvez, mais 25 anos - até 2040.

O comandante do Bloco Ocidental das Farc, Pablo Catatumbo, disse em Havana há duas semanas, que a campanha de abrasão, com ações pontuais e isoladas, "é a forma clássica de luta". Pablo participa dos ajustes para o acordo de paz.

O saldo do campo de batalha, contabilizado até maio, é trágico. Desde 1964 já morreram 220 mil pessoas, 400 mil foram feridas, 57 mil das quais mutiladas.

O Instituto de Estudos da Paz de Estocolmo está analisando o efeito da guerra interna no crescimento da Colômbia. A primeira conclusão é que, até agora, o processo custou 40% de todas as riquezas produzidas no país.

"Esse esforço ainda concorre com a repressão aos narcotraficantes e contrabandistas de armas", pondera o texto provisório. Há mais. Além das Farc, continua ativo o Exército de Libertação Nacional (ELN), menor e menos poderoso, porém agressivo e cada vez mais empenhado em levar sua atividade rebelde para as áreas urbanas.

O governo dos Estados Unidos mantém há 17 anos forte envolvimento na luta colombiana contra a guerrilha. O Plano Colômbia, criado em 1998 pelos ex-presidentes Andres Pastrana e Bill Clinton, já consumiu US$ 9 bilhões em equipamento militar, treinamento de pessoal e desenvolvimento de tecnologias.

O resultado disso é a reestruturação das Forças Armadas colombianas - as mais bem treinadas, e experimentadas, da América Latina; Exército e Aeronáutica particularmente. . As três armas utilizam uma enorme frota de helicópteros militares - cerca de 375 aeronaves , 300 delas em regime de prontidão imediata.

O perfil do militar da tropa é incomum - o serviço militar prepara, de fato, jovens combatentes que seguem para as zonas de risco com fuzis M-4 calibre 5.56 mm, pistolas 9 mm, granada de fragmentação, colete cerâmico, e um vasto conjunto de acessórios ótico-eletrônicos. Claro, tudo semelhante ao adotado nas unidades dos EUA.

O Brasil participa ativamente por meio de blindados Cascavel com canhão 90 mm e Urutu, pata transporte de tropa - dois modelos dos anos 80, recentemente modernizados por uma empresa americana.

Todavia, nada supera a efetividade do turboélice de ataque leve, o Super Tucano da Embraer. Com esse avião e seu antecessor mais leve, o Tucano, a aviação colombiana fustiga instalações e posições da guerrilha desde 2008. Ao menos três líderes das Farc morreram nessas operações de bombardeio.

Na versão Grifo, especifica da FAC pode levar até 1,5 tonelada de cargas de ataque - bombas de precisão, de 237 quilos, dirigidas por laser e por coordenadas de GPS.

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