Clima foi cordial, mas cúpula teve pouco consenso

Para especialista, divisão da região impediu acordo em temas cruciais

Ruth Costas, O Estadao de S.Paulo

20 de abril de 2009 | 00h00

Apesar de o clima cordial ter marcado a Cúpula das Américas, a falta de consenso numa série de temas deixou transparecer as divisões que se aprofundaram na América Latina nos últimos anos. A avaliação é do cientista político venezuelano Carlos Romero, para quem os líderes latino-americanos deram ênfase à reinserção de Cuba no sistema interamericano porque esse era o único tema sobre o qual havia consenso.A declaração final da cúpula só foi assinada por Trinidad e Tobago. Entre as questões importantes sobre as quais não se chegou a um acordo estão, por exemplo, o combate aos efeitos da crise global na América Latina. "Um grupo de países acha que a crise foi provocada pelo capitalismo e defende modelos estatistas ou socialistas", explica Romero. "Outro a atribui às deficiências na regulamentação dos bancos. Um terceiro grupo defende o fortalecimento da economia mista, com ênfase tanto no Estado quanto no capital privado."As divergências atingem outras áreas. Prevendo uma crise alimentar, a Bolívia é contra o avanço da produção de etanol. O Brasil quer mais incentivos para o setor. "O próprio fato de Chávez ter realizado uma cúpula paralela da Alba (Alternativa Bolivariana para as Américas) dá uma ideia de como a região está dividida", diz Romero. Para ele, no que diz respeito às relações da América Latina com os EUA, o encontro mostrou de fato o início de uma nova era, na qual a Casa Branca deve ser mais pragmática e buscar o diálogo. Contudo, isso não quer dizer que os EUA não pressionarão países como a Venezuela a respeitar princípios democráticos. "É disso que se trata o ?poder inteligente? (smart power) que Obama disse que nortearia sua política externa: convencer outros países a ficarem do seu lado pela diplomacia, cultura e influência ideológica, mas também exigir contrapartidas e não abrir mão de instrumentos como sanções econômicas, quando necessário", diz. A historiadora Mary Anne Junqueira, professora de Relações Internacionais da USP, destaca que entre os elementos que ajudaram Obama a vencer a resistência de Chávez estão o reconhecimento, por parte do novo governo dos EUA, de falhas na política americana para a região. "Obama está admitindo os erros dos EUA de forma enfática, algo pouco usual na história americana. Isso facilita o diálogo com os países hostis", diz. "O desafio de Obama agora é combater o antiamericanismo - fenômeno que não é recente na América Latina, mas certamente aumentou no governo Bush."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.