Clima tenso no Bahrein preocupa Riad

A imprensa saudita tem manifestado um cauteloso apoio aos levantes no Egito e na Tunísia, com alguns editoriais ecoando o anseio por uma mudança não violenta. Mas isto pode mudar agora que manifestações e episódios de violência se espalharam pelo Bahrein, que fica a apenas 24 km da fronteira saudita.

, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2011 | 00h00

A situação no Bahrein representa perspectivas muito mais ameaçadoras, em parte por causa da dimensão sectária dos protestos. A população sublevada no Bahrein é composta principalmente por xiitas, e fica numa região adjacente à Província Oriental da Arábia Saudita, importante região de petróleo onde a população xiita há muito se queixa de ser alvo de um tratamento injusto por parte do puritano establishment religioso saudita.

"O levante no Bahrein pode encorajar os xiitas da Província Oriental a se sublevarem", disse um diplomata saudita. "Isto pode ganhar força e se espalhar pelo país." A maioria dos analistas diz que tal cenário é improvável. Apesar de a Arábia Saudita apresentar muitas das condições que levaram aos levantes pela democracia na região - como a autocracia, a corrupção e uma vasta população de jovens qualificados que não têm acesso a empregos dignos -, o povo do país conta com a riqueza da exploração do petróleo e apresenta uma resistência cultural às mudanças.

Além disso, os analistas tendem a concordar que a Arábia Saudita jamais permitiria que a monarquia do Bahrein fosse deposta. Desde quando o Bahrein deu início a uma violenta repressão contra os manifestantes, circula o boato de que a Arábia Saudita teria oferecido ao país auxílio militar ou orientação. "A Arábia Saudita não ergueu a passagem para o Bahrein apenas para que os sauditas pudessem ir até lá para passar o fim de semana", disse Toby Jones, especialista em Arábia Saudita da Universidade Rutgers. "Ela foi projetada para momentos como este, para manter o Bahrein sob controle."

As divisões sectárias no Bahrein e na Arábia Saudita também podem funcionar contra os levantes, permitindo que as autoridades locais joguem sobre o Irã e seus aliados a responsabilidade pelas eventuais manifestações. Esta acusação consiste numa arma poderosa numa região em que as suspeitas com relação ao Irã são tão antigas.

Ainda assim, os sauditas acompanham atentamente os gestos da diplomacia americana em relação ao Bahrein. Analistas dizem que qualquer sinal de hesitação no apoio americano à monarquia sunita do Bahrein poderia inspirar um profundo sentimento de traição, criando uma cisão sem precedentes numa parceria com os EUA.

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