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Clinton novamente em apuros

Há pouco mais de três semanas, Bill Clinton parecia ter diante de si uma confortável, ativa e rendosa vida de ex-presidente. Com as pendências do caso Monica Lewinsky, o último dos vários escândalos que marcaram sua administração, finalmente resolvidas por um acordo com a justiça na véspera da partida da Casa Branca, Clinton fazia planos para instalar-se em um escritório num conjunto de salas num dos melhores endereços de Manhattan, de onde pretendia seguir os passos de Jimmy Carter, um outro ex-governador sulista que se tornou modelo de ex-presidente com suas atividades ao redor do mundo em favor da democracia, da paz e dos direitos humanos. Depois de atribulados oito anos em Washington, o segundo mais jovem presidente a deixar o poder tinha como maior preocupação imediata o projeto dos sonhos de um político bem sucedido, ou seja, a construção da biblioteca presidencial William Jefferson Clinton em seu Estado natal de Arkansas. No mais, o 42º presidente e o primeiro democrata a completara dois mandatos em mais de meio século parecia no bom caminho para ganhar milhões de dólares, pagar as dívidas que acumulou com advogados nos vários escândalos e construir rapidamente uma fortuna escrevendo livros e usando seu enorme talento e charme para fazer o que mais gosta e sabe fazer depois de política: discursar em conferências, seminários e convenções patrocinadas por entidades dispostas a pagar US$ 150 mil por ora. Como se sua visibilidade de ex-presidente não bastasse, Clinton tinha também assegurado um pedaço da ribalta política através de sua mulher, Hillary, que dias antes de deixar de ser primeira-dama tomara posse como senadora pelo Estado de Nova York e fora instantaneamente proclamada a mais importante figura nacional do Partido Democrata e candidata provável à Casa Branca se não em 2004, certamente em 2008. O potencial de Hillary como presidenciável transformaria Clinton, segundo vários analistas, no grande estrategista democrata, sem falar do papel central que teria na máquina de levantamento de fundos do partido. Menos de um mês depois de ter deixado o poder, o casal Clinton continua no centro do palco, mas da pior maneira possível, ou seja, com a reputação mais enlameada do que jamais esteve em qualquer dos escândalos. A carreira outrora promissora da senadora parece ter terminado antes mesmo de começar. Abandonado por ex-assessores e por seus defensores na imprensa, o ex-presidente foi forçado a escolher um lugar mais modesto para seu escritório, depois que o Congresso deixou claro que limitaria o dinheiro para suas mordomias de ex-presidente. Mas isso é o de menos. Clinton enfrenta no momento um virtual boicote das entidades que até há dias faziam fila para agendar um de seus discursos. Corre o risco de vir a ser convocado para dar explicações ao Congresso sobre sua conduta nos dias finais em Washington e pode até mesmo vir a ter sua pensão reduzida. A causa principal do primeiro escândalo Clinton da era pós-Clinton foi o perdão presidencial que ele concedeu, nas horas finais de seu mandato, a uma par de especuladores financeiros americanos que haviam renunciado à sua nacionalidade e estavam foragidos há quinze anos, sob a acusação de terem cometido o maior crime contra o fisco da história do país, num negócio ilegal com petróleo iraniano. Dois dias depois do anúncio da decisão, os americanos ficaram sabendo que a mulher do personagem mais conhecido da dupla, Marc Rich, havia dado cerca de US$ 1 milhão em contribuições de campanha ao Partido Democrata e à campanha de Hillary ao Senado, mais algumas centenas de milhares de dólares à biblioteca nacional de Clinton e um par de móveis de luxo para uma das duas novas residências particulares do casal - parte de US$ 190 mil em presentes pessoais que os Clinton receberam de amigos. Diante da reação indignada da imprensa e da deserção de seus correligionários democratas, Bill e Hillary resolveram controlar os danos e anunciaram que devolveriam parte dos presentes, ou seu valor em dinheiro, a ofertantes. Com os republicanos no Congresso já assanhados para instalar uma CPI sobre o caso, o Washington Post revelou, no último sábado, que um par de sofás e outros móveis e utensílios de prata que os Clinton haviam tirado da Casa Branca no ano último ano do governo e enviado para uma de suas novas residências haviam sido ofertados à residência e não ao casal presidencial. Audiências públicas realizadas a partir da semana passada por comissões da Câmara de Representantes e do Senado sobre o perdão a Rich revelaram mais condutas embaraçosas e potencialmente criminosa do ex-presidente e de seus amigos. O funcionário do departamento de Justiça incumbido de administrar os processos de pedidos do perdão presidencial disse na quarta-feira que os procedimentos de praxe não haviam sido seguidos no caso de Rich. Denise Rich, a primeira mulher do especulador e a principal agenciadora do perdão de Clinton, reivindicou a cláusula contra a auto-incriminação da quinta emenda da Constituição e não compareceu para elucidar o mistério. Isso, combinado com outras informações que sugeriam a possibilidade de ter havido um esforço especial da Casa Branca para se tratar o pedido do perdão a Rich de forma sigilosa, sem despertar a atenção dos funcionários da justiça federal que estavam atrás de Rich há vários anos, levaram a promotora federal de Nova York, Maty Jo White, a iniciar uma investigação formal. O perdão a Rich é irreversível. Mas White quer saber a origem das várias centenas de milhares de dólares que Denise Rich deu ao Partido Democrata. A suspeita é que o dinheiro tenha vindo da conta do ex-marido, o que, se comprovado, poderia caracterizar uma operação de compra e venda do perdão presidencial. Em meio às revelações sobre a possível bandalheira, o banco de investimentos Morgan Stanley divulgou um comunicado no final da semana passada para pedir desculpas a seus clientes pelo convite que fez a Clinton para discursar numa reunião de seus acionistas em Boca Raton, Flórida, da semana passada. Esta semana, outro banco de investimento, o UBS Warburg, cancelou a participação do ex-presidente americano. "O perdão a Rich é espantoso, pois demonstra uma insensibilidade sobre o que está certo e o que está errado", desabafou o deputado Frank Barney, democrata de Massachusetts e um dos mais leais defensores de Clinton durante o processo de impeachment que ele enfrentou, em janeiro de 1999, por conta do affair Lewinsky. "É algo que prejudica muito sua imagem e sua capacidade de ser útil para as causas nas quais acredita". Segundo operadores políticos democratas, há no partido um sentimento de que Clinton perdeu credibilidade e dificilmente poderá ser um porta-voz eficaz. "O perdão a Rich , os presentes e a história dos móveis podem causar mais danos à reputação de Clinton do que o caso Lewinsky", disse um deles. Para completar mais esse episódio embaraçoso da vida do ex-presidente, a prefeitura de Nova York está criando dificuldade para Clinton instalar seu escritório no Harlem.

Agencia Estado,

15 de fevereiro de 2001 | 17h44

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