Siphiwe Sibeko/Reuters
Siphiwe Sibeko/Reuters

Partido de Mandela tem sua pior derrota eleitoral na África do Sul desde o fim do apartheid

Com menos de 50% dos votos pela primeira vez desde 1994, partido enfrenta desilusão da população com a corrupção e má gestão da pandemia

Redação, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2021 | 17h50

JOHANESBURGO — O Congresso Nacional Africano (CNA), principal grupo que lutou contra o apartheid na África do Sul, quando era liderado por Nelson Mandela, sofreu sua pior resultado eleitoral desde que chegou ao poder em 1994, nas eleições municipais da segunda-feira, 1. Enfrentando a raiva generalizada da população com denúncias de corrupção e o colapso dos serviços públicos em virtude da pandemia de covid-19, o partido teve menos de 50% dos votos a nível nacional. 

Particularmente em áreas urbanas, o resultado foi péssimo para o CNA, preocupado também com a baixa a participação eleitoral, já que o voto no país é facultativo. Lungisile Dlamini, uma professora de 28 anos que vive no município de Alexandra, em Joanesburgo, estava entre os sul-africanos que não foram às urnas: "Eu não vi a necessidade, eles não estão fazendo nada, então qual é o ponto de votar?"

Depois de de um resultado ruim nas eleições municipais de 2016, os líderes do CNA tinham prometido "aprender com os erros", e, desta vez, apostaram na popularidade do presidente Cyril Ramaphosa para obter um bom resultado nas urnas. A maioria dos sul-africanos, no entanto, vê uma desconexão entre a mensagem de renovação nacional do presidente e a corrupção que tem manchado o seu partido.

 "Eles o ouvem, eles gostam dele, mas quando eles abaixam os olhos para os líderes locais que estão lá, eles vêem a mediocridade", diz o  cientista político Mcebisi Ndletyana. 

Apesar disso, o resultado só não foi pior para o CNA porque justamente Ramaphosa se envolveu na campanha, diz William Gumede, presidente da Democracy Works Foundation. Segundo ele, sem o presidente, o apoio do CNA poderia ter sido menor que 40% dos votos.

Como consequência do resultado ruim nas urnas,  Ramaphosa provavelmente enfrentará desafios de liderança dentro do CNA. Para substituí-lo, seus oponentes terão que encontrar um candidato que unifique a legenda. O presidente, por sua vez, pode ter que demitir líderes corruptos, mas populares de seus postos no governo.Este cenário pode levar a uma divisão no partido no poder, mas, no limite, beneficiar os eleitores sul-africanos.

Mesmo com suas perdas na segunda-feira, o CNA continua sendo o partido mais popular da África do Sul, tendo assegurado 46% dos votos. Mas a vitória modesta significa que agora será forçado a entrar em coligações com partidos menores. Também terá que buscar compromissos políticos na província de Gauteng, sede da capital econômica, Johanesburgo, e Pretória, a sede do governo.

A Aliança Democrática, que é a principal partido de oposição, não conseguiu obter ganhar eleitores, mesmo com a perda de apoio do CNA. A legenda teve este ano 5 pontos porcentuais a menos que a eleição anterior. 

Para muitos especialistas, a baixa participação foi um ato político e isso explica os números da votação.  "Precisamos começar a analisar e falar sobre não votar como uma atividade política em si", disse Tasneem Essop, pesquisador do Instituto Sociedade, Trabalho e Política da Universidade do Witwatersrand. / NYT, TRADUÇÃO DE AMANDA GUEDES

 

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