Al Drago / Bloomberg
Al Drago / Bloomberg

CNN vai à Justiça contra veto de Trump a jornalista na Casa Branca

Trump e mais cinco membros de seu governo terão de responder na Justiça por retirada de credencial de Jim Acosta

Beatriz Bulla, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

13 Novembro 2018 | 12h52
Atualizado 13 Novembro 2018 | 21h37

A rede de TV CNN entrou nesta terça-feira, 13, na Justiça contra o presidente Donald Trump e cinco integrantes do governo americano para contestar a decisão da Casa Branca de suspender a credencial de trabalho do jornalista Jim Acosta. A suspensão ocorreu no dia 7, depois de Acosta discutir com Trump durante entrevista coletiva.

O processo é considerado uma escalada no ambiente de tensão entre Trump e os veículos de comunicação nos EUA, que inclui discursos do presidente contra o que considera “notícias falsas” quando está em desacordo com o que foi publicado e críticas a jornalistas.

A uma Corte Federal em Washington, a CNN argumenta que a decisão de suspender a credencial de Acosta viola a 1.ª Emenda à Constituição americana, que assegura a liberdade de imprensa. A rede de TV argumenta ainda que os funcionários do gabinete de Trump e o presidente violaram também a 5.ª Emenda, que assegura o devido processo legal – por retirarem a credencial sem aviso prévio.

O embate entre Trump e Acosta durante entrevistas coletivas é frequente. Mas na semana passada o presidente se irritou com a insistência do jornalista em perguntar sobre a caravana de imigrantes da América Central que se dirige aos EUA e tentou passar a vez para outro repórter, durante entrevista após os primeiros resultados das eleições de meio de mandato. 

Uma funcionária da Casa Branca tentou retirar o microfone de Acosta, que rejeitou entregá-lo. “Já chega. Abaixe o microfone”, disse Trump. “A CNN deveria se envergonhar de ter você trabalhando, você é grosseiro e uma pessoa horrível”, afirmou o presidente.

Depois do embate, a porta-voz da presidência, Sarah Sanders, criticou a posição de Acosta e afirmou que a Casa Branca não “toleraria um jornalista que ponha as mãos em cima de uma mulher jovem que simplesmente tenta fazer seu trabalho como estagiária”, em referência ao momento em que o jornalista confrontou a funcionária que tentava tirar o microfone de suas mãos. 

A Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) considerou um ato de “censura” contrário à liberdade de imprensa a suspensão da credencial do jornalista. A CNN informou que, apesar de o processo ser específico sobre a situação de Acosta, “isso poderia ter acontecido com qualquer um”. O receio nas redações em Washington é que o caso do jornalista se torne um precedente para situações em que Trump deseje barrar o trabalho de repórteres. 

À justiça, a CNN afirma que Jeff Zucker, presidente da rede de TV, escreveu ao chefe de gabinete de Trump, John Kelly, pedindo que a credencial fosse devolvida a Acosta na semana passada. Kelly é um dos nomes processados pela CNN e por Acosta no processo, além de Trump, Sarah Sanders; um diretor e um funcionário do serviço secreto e um integrante do setor de comunicação da Casa Branca.

Em nota, a Casa Branca rechaçou vigorosamente o processo e disse que a 1ª Emenda não se aplica quando um único jornalista quer monopolizar uma entrevista. "Vamos nos defender de maneira vigorosa", diz o texto. 

Briga

A coletiva durante a qual ocorreu o incidente se deu um dia depois das eleições legislativas de meio de mandato nos EUA. Quando Acosta perguntou ao presidente se ele havia "demonizado os migrantes" durante a campanha eleitoral, Trump respondeu: "Não, quero que entrem no país. Mas têm de entrar legalmente".

Acosta insistiu: "Estão a centenas de milhas de distância. Isso não é uma invasão", afirmou, usando a palavra com a qual Trump havia definido o fluxo de migrantes. O presidente, então, reagiu de modo contundente. "Honestamente, acho que você deveria me deixar dirigir o país. Você dirige a CNN, e se fizesse isso bem, sua audiência seria mais alta", disse Trump.

"Já chega. Abaixe o microfone", afirmou o republicano, irritado com Acosta. O jornalista da CNN se recusou a entregar o microfone e se sentar, e continuou fazendo perguntas. "A CNN deveria se envergonhar de ter você trabalhando para eles, você é grosseiro e uma pessoa horrível", disse o presidente.

Antes da pergunta seguinte, o jornalista da NBC Peter Alexander defendeu Acosta dizendo que era um "repórter diligente", o que despertou a ira de Trump. "Tampouco sou seu fã. Para ser honesto, você não é o melhor", disse o presidente a Alexander.

Trump voltou a se dirigir a Acosta. "Quando você informa notícias falsas, o que a CNN faz muito, você é inimigo do povo", afirmou. Durante a entrevista, o magnata também silenciou outra jornalista da CNN, April Ryan, quando ela tentava lhe fazer uma pergunta sem microfone. / Com AP

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